TURISMO ADAPTADO E LAZER PARA PORTADORES DE NECESSIDADES ESPECIAIS VISUAIS
Escrito por Vagner Custódio (Prof. MS.)
Dom, 07 de Novembro de 2004 03:00
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TURISMO ADAPTADO E LAZER PARA PORTADORES DE NECESSIDADES ESPECIAIS VISUAIS.

Prof. Ms. Vagner Custodio
UNESP/ROSANA

 

 

RESUMO

 

Este artigo dentro de uma argumentação sociológica, visa problematizar a questão do turismo adaptado aos portadores de necessidades especiais visuais.

Palavras chaves: Turismo Adaptado, Lazer, cegos.

 

INTRODUÇÃO

Segundo resultados do Censo Demográfico IBGE (2000) existem no Brasil cerca de 24 milhões de pessoas portadoras de deficiência. Nessa perspectiva, para NERI (2001), no Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, dos 3,4 milhões de trabalhadores com carteira assinada, 49.000 possuem alguma deficiência. Conforme o Registro Anual de Informações Sociais - RAIS (2000), as pessoas portadoras de deficiência, empregadas no serviço formal ganham salários superiores aos dos não portadores de deficiência, tendo como média; 6,86 contra 5,42 salários mínimos de pessoas não deficientes.

Esta situação, considerando ainda NERI (2001), se dá diante da melhor escolarização dessa população, que fica um maior período na escola, chegando muitas vezes ao nível superior.

Para VASH (2001), após a melhoria da escolarização e no mercado de trabalho à próxima conquista necessária pela população deficiente é a do lazer, que segundo MARCELLINO é entendido como:

a cultura–compreendida no seu sentido mais amplo – vivenciada ( praticada ou fruída), no tempo disponível. É Fundamental como traço definidor, o caráter desinteressado dessa vivência. Não se busca, pelo menos basicamente, outra recompensa além da satisfação provocada pela situação. A disponibilidade de tempo significa possibilidade de opção pela atividade prática ou contemplativa. MARCELLINO (1995, p.31) 

No entanto, a conquista do lazer parece ser ainda mais complicada de ser alcançada, visto que as políticas sociais, segundo MARCELLINO (1995) seguem a teoria das necessidades prioritárias de MASLOW apud MARCELLINO (1995, p.31) que concebem o lazer como algo a ser considerado apenas para as camadas sociais privilegiadas, dessa forma os portadores de necessidades especiais, que segundo GOFFMAN (1982) sofrem uma relação de preconceito, rotulação e estigma, são excluídos de forma velada da prática do lazer, isso justifica a falta de adaptação de locais para a utilização de deficientes, as barreiras arquitetônicas, e a falta de projetos destinados à prática de lazer dessa população.

Essa problemática faz com que essas pessoas sofram do que MARCELLINO (1995) chama de sintomas da deterioração da qualidade e do significado da vida humana, ou seja, enfermidades de relações sociais que diminuem a qualidade de vida da população. E uma das causas descritas pelo autor supracitado, é a falta de contato com a natureza.

A prática do turismo ecológico ou ecoturismo seria uma possível opção de lazer para suprir essa necessidade, que segundo WESTERN (1999, p.13) é uma "viajem responsável a áreas naturais, visando preservar o meio ambiente e promover o bem-estar da população local", dessa forma, a essência do ecoturismo estará em oferecer ao seu praticante, uma experiência rica e autêntica de vivência junto aos ecossistemas.

De acordo com CARVALHO (2003), o que promove o ecoturismo são lugares ricos em paisagens e bens culturais com o objetivo de apreciar as belezas e os atrativos.

Com relação à população deficiente vale lembrar que esta fica na maioria das vezes excluída desse tipo de atividade, devido à escassez de recursos humanos especializados, e a falta de garantias de segurança para a prática do turismo ecológico principalmente no que se diz respeito ao segmento dos esportes de aventura, como o trekking, o montain-bike, as cavalgadas, a tirolesa, a ecocanoagem, o floating, o rafting, o rappel , e o arborismo.

Essa situação fica ainda mais ignorada quando se trata da deficiência visual, pois para CARVALHO (2003) o ecoturismo possui um caráter contemplativo, ou seja, baseado na observação de paisagens, espécies animais, dentre outros atrativos. Nessa perspectiva é incabível para um cego praticar o ecoturismo tendo um caráter hedonístico baseado na percepção visual.

Mas um fator que não é considerado, é que essa pessoa, possui os outros sentidos mais desenvolvidos que um vidente, e provavelmente sente prazer com outras sensações que passam desapercebidas pelas outras pessoas, como por exemplo, os estímulos sonoros e os odores em uma reserva florestal, a sensibilidade ao vento, o tato em árvores, e a sensação de se localizar sem utilizar a visão em um ambiente novo, desconhecido e misterioso.

O que não se leva em conta também, é que essa população praticando o ecoturismo, e garantidas as condições de segurança, além de poder ter acesso a um tipo diferente de atividade de lazer, possuindo uma função de inclusão social, poderia também contribuir cientificamente no sentido de diagnosticar e analisar sensações que o ecoturismo promove, mas que passam desapercebidas pelas pessoas videntes e por isso não são exploradas, no sentido de melhorar os programas de turismo ecológico.

Mas para que essa contribuição seja efetivada se faz necessário aplicar mecanismos fidedignos de análise sensorial, mas isso é assunto para um posterior artigo.

 

REFERÊNCIAS

 

CARVALHO, V.F. Quem é o ecoturista. Disponível em:

<www.ecoviagem.com.br> Acesso em: 2004.

 

GOFFMAN, E. Estigma. Rio de Janeiro: Guanabara, 1988.

 

IBGE. Censo Demográfico (2000). Disponível em: < www.ibge.gov.br> Acesso em: 2004.

 

MARCELLINO, N. C. Lazer & empresa: múltiplos olhares. 3.ed. Campinas: Papirus, 1995.


________. Lazer e humanização. 7.ed. Campinas: Papirus, 2000.


________. Estudos do lazer: uma introdução. 3.ed. Campinas: Autores Associados, 1995.

 

NERI, M. IBGE Censo 2000 – Mudam os índices oficiais. Rio de Janeiro. Revista Sentidos, 2001.

 

RUSCHMANN, D. V. M. Turismo e planejamento sustentável: A proteção do meio ambiente. Campinas: Papirus, 1997. 6.ed. 199p.

 

WESTERN, David. Definindo ecoturismo. In: LINDBERG, Kreg. HAWKINS, E. Donald.(editores) Ecoturismo: um guia para planejamento e gestão. São Paulo: Senac, 1999. 2. ed. P. 13 – 22.