A COMUNICAÇÃO, A EDUCAÇÃO E A LINGUAGEM GESTUAL: COMPARTILHANDO VOZES
Escrito por Márcia Carvalhal e Marcello Chamusca
Sáb, 11 de Dezembro de 2004 03:00
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A COMUNICAÇÃO, A EDUCAÇÃO E A LINGUAGEM GESTUAL: Compartilhando Vozes [1]
Alunos:

Márcia Carvalhal
Marcello Chamusca

 

Orientadora: Cida Ferraz.

 

Área de Comunicação Social/Relações Públicas

 

 

Resumo:
Este estudo pretende introduzir o leitor no universo da linguagem gestual, enfocando os aspectos comunicacionais e educacionais de sua utilização. Nossa atenção apela às questões da desigualdade e da exclusão social, procurando entender como a comunidade surda, usuária prioritária da linguagem gestual, se insere no contexto da sociedade atual e o que é possível implementar para o bem-estar dessa comunidade.

 

Palavras-chave:

Libras, Linguagem Gestual, Surdos, Educação e Comunicação.

 

Alunos:

Márcia Carvalhal / Marcello Chamusca

Estudantes de Comunicação Social / Relações Públicas, pesquisadores da linguagem gestual no Brasil e assessores de comunicação (voluntários) da ONG baiana AESOS – Associação Educacional Sons no Silêncio, instituição que educa e profissionaliza jovens surdos na cidade de Salvador-BA, há 4 anos.

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Orientadora:

Cida Ferraz.

Mestre em Administração. Professora da UNEB - Universidade Estadual da Bahia e da FTC - Faculdade de Tecnologia e Ciências.

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A comunicação, a educação e a linguagem gestual: compartilhando vozes
 

Sumário
Introdução    ..............................................................................................................  3
 
A educação a partir da linguagem gestual     .............................................................
 4
 
Espelho meu, espelho meu...    ..................................................................................
 7
 
A cultura surda, a educação e a sociedade ouvinte     ...............................................
 8
 
A relação dos surdos com os meios de comunicação de massa   ..............................
 11
 
Informação: fator estratégico no caminho para igualdade    .....................................
 13
 
Intérpretes: mediação na comunicação entre surdos e ouvintes     ............................
 14
 
Considerações finais     .............................................................................................  14
 
Referências     ............................................................................................................
 15
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Introdução
       Em nosso cotidiano nos utilizamos constantemente dos gestos para apoiar nossa expressão, enfatizando ou simplesmente complementando algo que verbalizamos. Assim, a comunicação, formal ou informal, sempre se faz acompanhar de sinais gestuais, que carregam de significados a interação entre as pessoas, conferindo-lhes maior ou menor expressividade e ampliando as suas possibilidades de compartilhar informações.

       No começo do século passado, Charles Chaplin encantou o mundo sem utilizar uma única palavra, apenas usando gestos. Hoje, a genialidade de sua mímica está presente no desempenho dos mágicos que, como ele, continuam nos encantando com suas misteriosas performances. Assim, a linguagem gestual nos acompanha há muito tempo e é tão importante em nossa comunicação quanto a linguagem oral, pois a expressão corporal pode muitas vezes substituir a verbalização e se tornar uma linguagem completa.

       Em nosso país essa linguagem já está sistematizada. Libras é o nome abreviado da Língua Brasileira de Sinais. Considerada a língua materna dos surdos brasileiros, pode ser aprendida por qualquer pessoa interessada em comunicar-se com essa comunidade. Como toda língua, a Libras é composta de todos os elementos pertinentes às línguas orais, preenchendo, assim, os requisitos técnicos para ser considerada instrumental, tendo poder e força de língua. Segundo o lingüista Marcos Bagno (2000), as línguas de sinais distinguem-se das línguas orais porque se utilizam de um canal visual-espacial e não oral-auditivo. Articulam-se espacialmente, sendo os signos alcançados visualmente. O espaço e as dimensões que ele oferece são utilizados na constituição de mecanismos “fonológicos”, morfológicos, sintáticos e semânticos para veicular significados, que são percebidos pelos seus usuários nas mesmas dimensões espaciais.

       Segundo pesquisa realizada pelo MEC – Ministério da Educação e Cultura, os surdos que dominam a linguagem gestual têm mais facilidade para aprender uma língua oral. Estudos com indivíduos surdos demonstram, ainda, que a língua de sinais apresenta uma organização neural semelhante à língua oral, pois ela se organiza no cérebro da mesma maneira que as línguas faladas.

       As línguas de sinais são também consideradas línguas naturais porque, como as línguas orais, surgiram espontaneamente da interação entre pessoas e, devido à sua estrutura, permitem a expressão de qualquer conceito, seja ele descritivo, emotivo, racional, metafórico, concreto ou abstrato. Enfim, permitem a expressão ampla de qualquer significado decorrente da necessidade comunicativa e expressiva do ser humano.

       No Brasil, somente no começo da década de 60 é que a linguagem gestual começou a ser estudada e analisada. Foi sistematizada no final dessa década, passando a ocupar status de língua. Desde então, é reconhecida pela lingüística como uma língua viva e autônoma. Contudo, a conquista dos surdos brasileiros com a oficialização da Libras, como meio legal de comunicação e expressão, só veio através da Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, e, ainda depende de regulamentação.

A educação a partir da linguagem gestual

       Levantamentos realizados através de uma revisão bibliográfica preliminar a este estudo, indicaram que existe uma polêmica na educação dos surdos. De um lado, há os que defendem o oralismo (ensinar a falar) e, de outro, os defensores da linguagem gestual (língua de sinais), havendo ainda uma corrente que defende a Comunicação Total.  Ao longo da história, essas três escolas coexistiram sem que nenhuma delas conseguisse prevalecer.

Somente no momento em que nos debruçarmos sobre o fenômeno social da deficiência auditiva, levando em consideração as restrições efetivamente impostas por uma condição intrinsecamente adversa (a surdez), aliada às condições sociais das minorias culturais, determinadas por diferenças de classe, raça e gênero, estaremos avançando no sentido de contribuir efetivamente para o acesso à cidadania, acesso esse historicamente negado, quer pelos defensores do oralismo, quer pelos defensores da língua de sinais, na medida em que nenhum deles conseguiu, efetivamente, se desvincular das manifestações específicas geradas pela surdez. (BUENO, 1998).

       A concepção do Oralismo busca a integração dos surdos na comunidade de ouvintes, condicionando-os ao aprendizado e ao desenvolvimento da linguagem oral. Nessa visão considera-se que, para a boa comunicação, a pessoa surda deva oralizar bem. Seu principal objetivo é habilitar a criança surda a falar, fazendo com que ela caminhe em direção à integração na comunidade de falantes.

       As metodologias utilizadas no Oralismo justificam-se em pressupostos e práticas diferenciadas, mas unem-se em torno à crença de que a língua oral é a única forma desejável e efetiva de comunicação entre surdos e ouvintes. “Esse método procura assim reeducar auditivamente a criança surda pela amplificação de sons, juntamente com técnicas específicas de oralidade”. (DORZIAT, 1999)

       Contudo, segundo Goldfeld (1999), para entender plenamente uma língua oral, a audição é imprescindível, o que esbarra numa das maiores dificuldades dos deficientes auditivos que é aprender uma linguagem falada. Mesmo que possam ser ensinados a falar uma língua, nunca serão capazes de compreender a fala tão bem como uma pessoa que ouve. Goldfeld, caracteriza o Bilingüismo da seguinte forma:

O Bilingüismo tem como pressuposto básico que o surdo deve ser bilíngüe, ou seja, deve adquirir como língua materna a língua de sinais, que é considerada a língua natural dos surdos e, como segunda língua, a língua oficial de seu país.

       Autores da escola bilingüista percebem o surdo de forma bastante diferente dos autores oralistas e da Comunicação Total. Para os bilingüistas, o surdo não precisa almejar uma vida semelhante à do ouvinte. Deve, ao contrário, assumir sua surdez e procurar meios de gerir as suas necessidades da melhor maneira possível.

       O Bilingüismo assume que a língua é uma importante via de acesso ao desenvolvimento intelectual do surdo, em todas as esferas do conhecimento, propiciando a intercomunicação do sujeito surdo com os seus pares e com os ouvintes que conhecem a língua gestual, dando suporte ao pensamento e estimulando o seu aprimoramento cognitivo e social. De acordo com Sacks (1998, p.44):

A língua de sinais deve ser introduzida e adquirida o mais cedo possível, senão seu desenvolvimento pode ser permanentemente retardado e prejudicado, com todos os problemas ligados à capacidade de “proposicionar” [...] no caso dos profundamente surdos, isso só pode ser feito por meio da língua de sinais. Portanto, a surdez deve ser diagnosticada o mais cedo possível. As crianças surdas precisam ser postas em contato primeiro com pessoas fluentes na língua de sinais, sejam seus pais, professores ou outros. Assim que a comunicação por sinais for aprendida, e ela pode ser fluente aos três anos de idade, tudo então pode decorrer: livre intercurso de pensamento, livre fluxo de informações, aprendizado da leitura e escrita e, talvez, da fala. Não há indícios de que o uso de uma língua de sinais iniba a aquisição da fala. De fato, provavelmente, ocorre o inverso. 

       Em consonância com Sacks, Bagno (2000) afirma que, como em todas as línguas naturais, as línguas de sinais possuem um período crítico, ou seja, se não forem aprendidas no período ideal, a criança surda apresentará dificuldades para aprendê-la. A lingüística reconhece essas línguas não orais como um sistema de comunicação vivo e que apresenta uma organização neural semelhante à língua oral.

       As instituições educacionais que utilizam a linguagem gestual no Brasil trabalham na perspectiva do bilingüismo, assegurando o uso da Libras, como L1 (língua número 1) e o português como L2 (língua número 2). Assim o fazem por que crêem que a linguagem gestual é a linguagem natural do surdo. Criar um ensino direcionado para surdos numa proposta bilíngüe é, sem dúvida, um passo decisivo para a autonomia dos jovens e adolescentes surdos.

       Já em relação à corrente da Comunicação Total, segundo Oliveira, o grande mérito

consiste em deslocar a língua oral como o grande e principal objetivo na educação de sujeitos com surdez, priorizando a comunicação dos mesmos. O sujeito com surdez deixa de ser visto como portador de uma ‘patologia’, e passa a ser considerado como uma pessoa capaz. (2004, p. 12)

       Oliveira acrescenta ainda que:

O principal objetivo da Comunicação Total consiste na efetivação dos processos de comunicação entre os sujeitos com surdez e entre estes, e os demais sujeitos. (2004, p. 12)

       E conclui:

Os maiores benefícios da Comunicação Total residem no fato de que esta encoraja a aceitação da criança surda como uma pessoa cuja linguagem precoce pode crescer em resposta às necessidades crescentes, reforçando uma abordagem individualista de acordo com as habilidades de cada criança e de cada tipo ou grau de surdez. (2004, p. 13)

       Freeman, Carbin e Boese definem a Comunicação Total da seguinte forma:

A Comunicação Total implica em que a criança com surdez congênita seja introduzida precocemente em um sistema de símbolos expressivos e receptivos, os quais ela aprenderá a manipular livremente e por meio dos quais poderá abstrair significados ao interagir irrestritamente com outras pessoas. A Comunicação Total inclui todo o espectro dos modos lingüísticos: gestos criados pelas crianças, língua de sinais, fala, leitura oro-facial, alfabeto manual, leitura e escrita. A Comunicação Total incorpora o desenvolvimento de quaisquer restos de audição para a melhoria das habilidades de fala ou de leitura oro-facial, através de uso constante, por um longo período de tempo, de aparelhos auditivos individuais e/ou sistemas de alta fidelidade para amplificação em grupo. (1999, p.171)

       Percebemos, entretanto, que a Comunicação Total, pela complexidade dos processos educacionais envolvidos, é a concepção filosófica menos utilizada e mais polêmica, no que respeita à relação custo-benefício.
Espelho, espelho meu...
       Quando se discute a representação política dos diversos grupos que integram uma determinada sociedade, uma questão que ganha vulto, sobretudo na contemporaneidade, é a qualidade da representação. Espera-se que a representação, sempre outorgada, seja capaz de espelhar as características do corpo social, operando uma espécie de síntese dos problemas particulares e das diversas tendências presentes no corpo político. Contudo, embora os sistemas eleitorais proporcionais tenham se constituído num avanço institucional, observa-se, a partir deles, o esvaziamento da noção de maioria, pois é sempre uma elite política (minoria) que governa, descuidando-se do que lhe é pressuposto, a vontade da nação (maioria). Com isso, nota-se cada vez mais claramente que aquilo que é selecionado, votado e aprovado por uma elite política, definitivamente, não reproduz a vontade da maioria da população, embora o governo representativo e majoritário, legalmente, represente essa maioria. Quem se oponha a ele é considerado minoria, ainda que tenha superioridade numérica, como é o caso das mulheres (DOMINGUES, 1999).

       Em síntese, os regimes representativos tendem a desconsiderar as reivindicações das minorias, que costumam ser banidas dos levantamentos estatísticos pelos interesses políticos.  (DOMINGUES, 1999).

       Hoje, porém, essas minorias, mesmo desconsideradas por muitos, têm procurado se organizar, reivindicar seus direitos e denunciar preconceitos, buscando o reconhecimento de seus legítimos interesses perante a sociedade.

       Acreditamos que a exclusão das minorias geralmente ocorre devido ao elevado “etnocentrismo”[2] prevalecente na sociedade ocidental capitalista.

       Essa forma de agir, colocando a própria cultura como centro e considerando a dos “outros” como esquisitas e/ou inferiores, é fruto do comportamento etnocêntrico (ROCHA, 1999). O que verificamos, entretanto, é que as mais diversas culturas coexistem ao longo da história da humanidade e aquilo que uma pessoa não reconhece como possível, nem sequer aceitável, outra pessoa aceita como normal, legal e extremamente importante para o equilíbrio do seu mundo. A isso chamamos de relativização.

       Rocha (1999, p.18) observa que a relativização é uma das mais importantes contraposições à idéia de etnocentrismo:

Quando vemos que as verdades da vida são menos uma questão de essência das coisas e mais uma questão de posição, estamos relativizando. Quando o significado de um ato é visto, não na sua dimensão absoluta, mas no contexto que acontece, estamos relativizando. Compreender o “outro” em seus próprios valores e não nos nossos, estamos relativizando... enfim, relativizar é... ver que a verdade está mais no olhar que naquilo que é olhado.

       Neste sentido, a sociedade vem tentando ao longo dos séculos, ultrapassar o etnocentrismo, especialmente a partir de um conceito de cultura que procura “ver a diferença como a forma pela qual os seres humanos deram soluções diversas a limites existenciais comuns” (ROCHA, 1999, p.22). Essa superação, entretanto, não tem se dado de forma linear, ocorrendo através de um processo dialético, marcado por guerras, violência e intolerância, que se estende até os dias atuais.

A cultura surda, a educação e a sociedade ouvinte

       Não é possível determinar com precisão quando e onde surgiu o primeiro surdo, contudo pesquisas realizadas na área nos apresentam um panorama histórico em que a exclusão está sempre presente. Sabemos que existiram povos que chegavam ao extremo de sacrificar os que nasciam surdos e até mesmo o grande filósofo Aristóteles considerava os surdos incapazes de socialização e da vida em comunidade. Com o passar do tempo, entretanto, os surdos foram adquirindo alguns direitos, embora continuassem sendo considerados inferiores e restritos ao convívio do lar por vergonha da família (GONDINHO, 1982).

       Somente no século XVII, na França, surge a língua de sinais e a sua utilização no processo educacional.  Por ter obtido resultados positivos, o método se espalhou rapidamente, por toda a Europa e depois ganhou o mundo. Contudo, esse desenvolvimento durou muito pouco, por conta da força da Medicina e da Filosofia, que não acreditavam na capacidade da pessoa surda.

       Assim, no século XIX, o Congresso de Milão institui o oralismo, como o único meio válido de educação para surdos. E existem muitos relatos de perseguições sofridas por pessoas que eram flagradas usando a língua de sinais. Por volta de 1960, com o fracasso do oralismo, cria-se a metodologia da comunicação total, na mesma linha do método inicial do século XVII (LACERDA, 1995). Hoje, segundo Quadros (1995), o método educacional mais praticado em todo o mundo é o bilingüismo, que usa sempre, como a primeira língua, a gestual.

       O pedagogo deficiente auditivo Gallaudet foi o precursor do ensino de uma língua gestual para os surdos no Brasil e nos Estados Unidos. Existem regras nas línguas de sinais da mesma forma que ocorrem na língua falada, há arbitrariedade ou convenção entre o gesto e aquilo que ele significa. No Brasil, como já foi visto, esse sistema é chamado de Libras e, assim como nos Estados Unidos, Suécia, Espanha e China, possui um conjunto de signos autônomos e distintos, como cada uma das línguas faladas nesses países.

       Todos esses aspectos fazem parte da construção da cultura surda: exclusão social, perseguição, descrédito, inferioridade, etc., conforme pudemos verificar na história dos surdos, até mesmo no seio de sua própria família. Isso nos remete à idéia de que o conceito de cultura surda pode ser uma forma de combater falsas idéias a respeito do problema da surdez, especialmente por levar a família da criança surda à compreensão de que:

surdez é muito mais que um diagnóstico médico: é um fenômeno cultural no qual padrões sociais emocionais, lingüísticos e intelectuais estão inextricavelmente ligados ao problema (MEADOW, 1975, p. 133).

       Neste sentido, o trabalho de instituições educacionais que utilizam a linguagem gestual, através da auto-afirmação da diferença, eleva a auto-estima e conscientiza os surdos (parte de uma minoria excluída) da sua plena capacidade, inserindo-os no contexto social e transformando-os em cidadãos. Esforços dessa natureza são de extrema importância, especialmente no momento atual em que se vive, não só no nosso país, mas globalmente, a afirmação das identidades e das diferenças. E tornam-se ainda mais importantes, à medida que se observa a quebra dos paradigmas sociais de coletivização, difundidos a partir das instituições família, casamento, etc. Elias (1994, p. 12-33) afirma que, nesse processo, “o indivíduo tem que batalhar muito mais por si”, ou seja, as pessoas “não só podem como devem ser mais autônomas”, pois, quanto a isso, diz Elias, “não têm opção”.

       Diante de um quadro social dessa natureza, o surdo vê-se num contexto onde o nível de autonomia é cada dia mais alto e cria um abismo ainda maior entre ele e a sociedade ouvinte. É somente a partir dessa perspectiva que se constrói a percepção necessária à formação do entendimento do que representa uma instituição educacional que trabalha a linguagem gestual para a comunidade surda no Brasil.

       Maria Cecília de Moura, em sua tese de doutorado: O surdo: Caminhos para uma nova identidade (1996, p.39), vê a cultura surda independente de etnia ou nacionalidade, mas com determinação própria de grupo, possuindo valores, atitudes, estilos cognitivos e práticas sociais totalmente diferentes da cultura ouvinte:

A forma especial de o surdo ver, perceber, estabelecer relações e valores deve ser usada na educação dos surdos, integrada na sua educação em conjunto com os valores culturais da sociedade ouvinte, que em seu todo vão formar sua sociedade.

       Nesse sentido, Bueno (1998, p.122) levanta a seguinte questão:

Em síntese, será que a surdez é suficiente para identificarmos dois sujeitos como uma mulher, negra, pobre, latino-americana, vivendo em pequena localidade rural e surda, e um homem, branco, rico, europeu, vivendo em uma metrópole e surdo? Que a surdez é um traço de identificação entre eles não se nega. Mas isso é suficiente para considerá-los como “pares” ou como “iguais”? Eles fazem parte de uma mesma comunidade só pelo fato de serem surdos?

       Podemos ainda utilizar nessa discussão uma questão levantada por Palácios (1995, p.103):

... do sentido de ligação, de pertencimento. Esse sentimento de pertencer diferencia, por exemplo, um grupo identificado por um fator puramente étnico (a cor da pele) de um outro constituído enquanto movimento negro organizado. A negritude seria o laço de união, a característica básica comum, mas somente em havendo o sentido de ligação, de pertencimento, poderíamos falar de uma comunidade e não simplesmente de um grupo étnico.

       Neste sentido, vale ressaltar que traços de identificação entre indivíduos, tão relevantes como a surdez, criam esse “sentido de ligação, pertencimento”. Além disso, constituem vínculos maiores que qualquer fator de natureza social, econômica ou política. Trata-se de uma necessidade vital e baseia-se na relação daquele indivíduo com o mundo em que vive. Todos os surdos – ricos, pobres, brancos, pretos, latinos ou europeus – carregam dentro de si uma mesma necessidade: se comunicar com um mundo que muitas vezes o ignora.

       Muito há a discutir sobre a cultura surda. Mas, sem dúvida, um dos pontos mais importantes é a relação dos surdos com os meios de comunicação de massa, já que, em geral, eles são excluídos de sua programação através do não acesso ao conteúdo do que está sendo veiculado.

A relação dos surdos com os meios de comunicação de massa

       As relações da comunidade surda com os meios de comunicação de massa são problemáticas. Tomemos a TV para iniciar a discussão. Durante um mês, mapeamos toda a programação das redes comerciais que operam no Estado da Bahia e concluímos que nenhum programa da TV aberta brasileira é traduzido em Libras, com exceção do programa da Igreja Internacional da Graça de Deus do missionário R. R. Soares, um programa de cunho religioso, do segmento evangélico, que vai ao ar pela TV Bandeirantes, diariamente, no período da manhã. É de se aplaudir a iniciativa dessa instituição, que abre pioneiramente as perspectivas de novos horizontes para a Língua Brasileira de Sinais. É interessante salientar que a Igreja Católica tem uma rede de televisão, a Rede Vida, e apesar de toda a dívida histórica que tem com a comunidade surda, não tem nenhuma iniciativa, por mais insignificante que seja, voltada a essa comunidade.

       Com a Libras sendo ignorada pelo meio televisivo, considerando que ela seja a língua natural dos surdos, está se excluindo, automaticamente, os surdos do acesso ao meio.

       Há um recurso chamado Closed Captions, que alguns canais de televisão disponibilizam em alguns programas exibidos, essencialmente filmes, que permitem o acesso ao conteúdo através de legendas. Seria um excelente recurso, se existisse regulamentação exigindo que os fabricantes de aparelhos de TV fossem obrigados a produzir os aparelhos com acesso a esse recurso. Os aparelhos que disponibilizam esse recurso são muito mais caros que os aparelhos comuns, o que condena a maioria dos surdos das camadas mais pobres da sociedade à uma exclusão ainda maior.

       Para um grupo social com tão poucos direitos e que sofre um nível de exclusão bastante acentuado, a democratização do recurso Closed Captions, já seria um grande avanço. Contudo, esse recurso ainda não seria suficiente para dar conta do resgate da dívida social que esse meio de comunicação tem junto à comunidade surda do nosso país. Até porque seria necessário que, paralelamente à obrigatoriedade de disponibilização do recurso nos aparelhos, houvesse uma lei que obrigasse também os canais de televisão a produzirem os programas com essa tecnologia, pois de nada adiantaria ter um aparelho com o recurso tecnológico, se a maioria absoluta dos programas não desenvolve o seu uso.

       Ainda existe uma questão em pauta quando o assunto é o Closed Captions. Quantos surdos são capazes de acompanhar as legendas, com a rapidez que são exibidas. Levando em consideração o fato de que a maioria dos surdos tem dificuldades de aprendizado de uma língua oral, sem o uso paralelo da Libras; que as escolas, em geral, não se preocupam com o uso das técnicas existentes para a educação especial; e, observando-se ainda o nível de analfabetismo que assola boa parte da população pobre do nosso país, pode-se considerar que esse seria apenas mais um meio de exclusão.

       Alguns meios de comunicação são exclusores por natureza. É o caso do rádio, um veículo exclusivamente desenvolvido para ouvintes, e, portanto, inacessível ao surdo. Durante todo o período em que o rádio foi o principal veículo de comunicação de massa no mundo, do começo até meados do século passado, o surdo foi relegado a segundo plano, sem acesso a qualquer tipo de informação ou participação nos processos sociais.

       Já o cinema permite ao surdo uma expressiva participação, pois a maioria absoluta das produções é estrangeira e os filmes são exibidos com legendas. Contudo, vale chamar a atenção para o fato de que as produções nacionais não são acessíveis à comunidade surda. Entretanto, num momento em que muito se fala em responsabilidade social, percebe-se a necessidade latente da indústria do cinema nacional observar a existência desse público e começar a exibir legendas também, abrindo assim o acesso dessa comunidade às produções nacionais.

       Os veículos escritos, jornais e revistas, são os que permitem maior integração e participação do surdo na sociedade. Contudo, mesmo sendo tão propícios ao aprofundamento de questões como a inclusão da comunidade surda no processo social, não trazem nenhum conteúdo, senão esporadicamente, de interesse específico do surdo ou de qualquer outro segmento de portadores de direitos especiais.

       Conclui-se portanto que, mesmo sendo o bem-estar social uma de suas premissas, os meios de comunicação de massa, assim como todas as organizações do Segundo Setor, visam prioritariamente o atingimento dos objetivos do veículo enquanto empresa: o lucro. Assim, percebe-se que não são sensíveis às questões de interesse público, que, via de regra, são dissonantes dos interesses das empresas privadas.

Informação: fator estratégico no caminho para Igualdade

       Os novos rumos da sociedade, a globalização da economia, a mundialização da cultura e outros aspectos aglutinadores dos ideais capitalistas – que permeiam as relações sociais em todo o mundo, principalmente após a falência do comunismo, que culminou com a dissolução da União Soviética e a queda do Muro de Berlim – nos remetem à idéia de que o fator estratégico muda mais uma vez, não de mãos, mas de conceito. O termo fator estratégico se refere à obtenção e controle daquilo que possibilita a garantia da manutenção do poder hegemônico da classe dominante. Já foi a terra, na Idade Média com o sistema feudal; a tecnologia, na Idade Moderna com a Revolução Industrial e a conseqüente proliferação das máquinas; e agora, na Pós-Modernidade, a informação.

       A informação, a partir de então, tem sido colocada por muitos como a solução de quase todos os problemas da humanidade, e de fato é. Primeiro, porque garante o direito magnânimo de todo cidadão: o de poder escolher dentre várias opções, que caminho deseja seguir a respeito de determinada questão. E depois, porque permite que essa tomada de decisões se faça da forma mais acertada, proveniente de conhecimento sobre o tema em questão e não de “achismos” que, geralmente, não levam a lugar nenhum.

       Como se pode imaginar, existe, por parte da grande maioria da população, uma desinformação total em relação às necessidades dos surdos. São cidadãos que, como qualquer um de nós, pagam impostos, têm direitos e deveres e, sobretudo, merecem respeito e atenção. Contudo, essa não é uma realidade para esse público, que vem ao longo da sua história sendo preterido da sociedade, discriminado pelas instituições e, simplesmente, esquecido pelo poder público.

       A igualdade para os surdos significa, principalmente, a conquista de sua autonomia. Isso se consegue através do respeito à cultura de cada um e do acesso aos sistemas de saúde, educação e moradia, trabalho, atendimento jurídico, lazer e a todos os outros setores da sociedade. É necessário reivindicar esses direitos para que o surdo tenha uma boa qualidade de vida, além de despertar a sociedade para o fato de que ele necessita que sua linguagem seja respeitada, reconhecida e utilizada pela sociedade.

       No caso da convivência de cidadãos ouvintes com surdos, essa noção se faz ainda mais presente, pois se trata de uma questão primária no dia-a-dia das pessoas: a comunicação do cotidiano, as relações sociais, a busca pela inclusão e a luta contra a solidão.

Intérpretes: mediação na comunicação entre surdos e ouvintes
       As atividades desenvolvidas pelos intérpretes são de suma importância, pois, ao mesmo tempo em que fomentam os serviços prestados pelas entidades educacionais do segmento aos convênios e parcerias firmadas, contribuem para que os surdos tenham acessibilidade a todos os lugares, facilitando a comunicação com as pessoas ouvintes. Essa mediação é fundamental para que os surdos sejam reconhecidos enquanto parte de uma cultura própria que utiliza a LIBRAS como meio de comunicação.

       Nos atendimentos individuais, os intérpretes acompanham os surdos a qualquer local que o próprio surdo solicite: hospitais, clínicas médicas, fóruns.

       O trabalho dos intérpretes é de extrema relevância para a comunidade surda, pois funciona como um elo de ligação entre o mundo dos surdos e o mundo dos ouvintes. Esse tipo de profissional deve ter em sua qualificação uma postura ética, conhecimento da cultura surda e um bom desempenho em LIBRAS, para que, efetivamente, as barreiras da comunicação possam ser vencidas.

Considerações finais
       Como estudantes de comunicação, percebemos que as possibilidades de comunicação entre os surdos e/ou entre surdos e ouvintes são absolutas e, se existe alguma barreira, ela pode e deve ser quebrada numa proposta, a médio e longo prazos, pelas instituições de ensino, instituindo a Libras – Língua Brasileira de Sinais, como disciplina obrigatória do currículo escolar.

       Contudo, enquanto essa realidade não se configura, cabe às instituições de ensino superior a vanguarda dessa iniciativa, estimulando o exercício da cidadania e da solidariedade nos jovens que aí ingressam.

      Durante a execução de um dos projetos desenvolvidos por nós na AESOS – Associação Educacional Sons no Silêncio, instituição educacional que trabalha com jovens e adolescentes surdos na cidade de Salvador-BA, na qual prestamos, voluntariamente, assessoria na área de comunicação, descobrimos que a UNIFACS – Universidade Salvador, conceituada instituição de ensino superior, formou a primeira turma de pedagogos em educação especial no final do ano de 2003. Esse curso tem o seu conteúdo voltado aos portadores de direitos especiais. Além disso, soubemos que já existe o projeto de inserção da LIBRAS na grade dos principais cursos daquela instituição. Tal iniciativa não só merece menção honrosa neste nosso modesto estudo, como deve servir de espelho para outras instituições igualmente responsáveis.

Referências
1. BAGNO, Marcos. Ensino de Português: do Preconceito Lingüístico à Pesquisa da Língua. In: Boletim Associação Brasileira de Lingüística (Abralin) N 25. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2000.

2. BUENO, José Geraldo S. Surdez, linguagem e cultura. Cad. CEDES v.19 n. 46. Campinas: 1998.

3. DOMINGUES, José Maurício. Uma questão contemporânea – as minorias. In: _______ Sociologia e modernidade: para entender a sociedade contemporânea. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.

4. ELIAS, Norbert. A Individualização no Processo Social. In: _______ A Sociedade dos Indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994.

5. FREMAN, Roger D.; CARBIN, Clifton F.; BOESE, Robert J. Seu filho não escuta? Um guia para todos que lidam com crianças surdas. Brasília: MEC/SEESP, 1999

6. GONDINHO, Eloysia. Surdez e Significado Social. São Paulo: Cortez Editora, 1982.

7. LACERDA, Cristina. Oralidade, desenho e Escrita. São Paulo: Editora Cabral, 1995.

8. MOURA, Maria Cecília de. O surdo: Caminhos para uma nova identidade. São Paulo: PUC, Tese de doutoramento, 1996.

9. OLIVEIRA, Luciana Aparecida. A Escrita Do Surdo: Relação Texto e Concepção [online] - Disponível na internet via WWW URL: http://www.educacaoonline.pro.br/a_escrita_do_surdo.asp - Capturado em 22/08/2004 17:10:54

10. PALACIOS, Marcos. O medo do vazio: comunicação, socialidade e novas tribos. In: RUBEM, A (org.). Idade Mídia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994.

11. QUADROS, Ronice. A Educação Bilíngüe para Surdos. Goiânia: Superintendência de Ensino Especial, 1995.

12. ROCHA, Everaldo. Que é Etnocentrismo?; Coleção Primeiros Passos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1999.

 

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[1] A partir da expressão “vendo vozes”, do neurologista norte-americano Oliver Sacks

[2] O conceito de etnocentrismo diz respeito à idéia que cada pessoa desenvolve, ao longo da sua vida, a respeito da sua cultura e da cultura dos outros. Assim, para cada grupo em particular, a sua cultura é sempre a melhor cultura e a mais adequada à vida em nosso planeta. É o único modo de vida que creditam lógica, e com isso, as demais culturas existentes são desprezadas.

É importante salientar que o conceito de etnocentrismo geralmente é usado para pontuar questões de povos de culturas diferentes e não de grupos sociais inseridos no mesmo contexto. Contudo, o usaremos num sentido mais amplo, considerando as questões das diferenças sociais como culturais e, portanto, atribuindo os conceitos etnocêntricos a elas.