AS REPERCUSSÕES DA ESCRITA ELETRÔNICA NO DESENVOLVIMENTO DA ESCRITA MANUAL NA SALA DE AULA E AS CONSEQÜÊNCIAS NO CÓDIGO VERBAL.
Escrito por Magalis Bésser Dorneles Schneider
Dom, 20 de Março de 2005 03:00
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As Repercussões da escrita eletrônica no desenvolvimento da escrita manual na sala de aula e as conseqüências no código verbal.

 

Magalis Bésser Dorneles Schneider
Pedagoga e pós-graduanda psicopedagogia
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RESUMO
 

 

Este artigo advém da pesquisa que realizei sobre as repercussões da mídia no desenvolvimento da escrita. Procurei fazer um estudo que pudesse trazer esclarecimento ao novo tipo de linguagem que hoje está se formando dentre essa nova geração de crianças e jovens. Este estudo partiu de uma investigação através da busca de correspondências eletrônicas entre crianças de 08 a 12 anos, que estão na 2ª, 3ª e 4ª séries do Ensino Fundamental. Foram analisadas algumas abreviações que hoje se forma como palavras consideradas “corretas” entre as crianças dessa faixa etária. Por isso, foi analisado, de forma qualitativa, estabelecendo comparações entre o que está escrito nas correspondências eletrônicas com o que elas escrevem na sala de aula e se trazem repercussões na aprendizagem. E ainda, teve como parâmetro os estudos das condições sócio-culturais das famílias, na tentativa de verificar as repercussões na utilização da internet em relação ao desenvolvimento da criança.Vale ressaltar que a delimitação do problema esteve à escrita, a qual é o único modo possível de interlocução nas listas de discussões, bate-papos, e-mails. Este fato,  gerou movimentos peculiares criando-se uma linguagem virtual através de códigos, abreviações, com erros gramaticais, de letras maiúsculas e grafia, aceitáveis pelos interlocutores, como também esperados na comunicação on-line via internet.

 

Palavras-chave:  Mídia ,escrita eletrônica, escrita manual e código verbal.

 

 

INTRODUÇÃO
 

 

            A linguagem virtual do estilo Web de escrever, ou seja de teclar, é cada vez mais comum entre os jovens. A linguagem on-line dos internautas mistura códigos orais, escritos, icônicos, sendo utilizadas nas salas de bate-papo e mensagens instantâneas.

            De fato, existe uma nova linguagem constituída por milhares de novos termos, símbolos e códigos, que pressupõe um novo estilo de escrita: os "smileys" (Grafismos utilizados em correio eletrônico, como forma de acentuação da informalidade do meio e compensação pela inexistência de contacto físico. São construídos com seqüências de teclas, representam sentimentos e emoções. Os mais populares são: : -)  satisfeito, : ( insatisfeito,                   ) e os acrónimos são exemplo. Os acrónimos são conjuntos de siglas, pronunciados como se fossem palavras, utilizadas para substituir expressões usadas entre pessoas. A razão da sua popularidade e desenvolvimento deve-se ao fato de serem muito práticos e de tornarem a comunicação escrita mais rápida. Qualquer utilizador que queira ser bem sucedido e integrado na comunidade dos cibernautas tem de aprender e usar esta nova terminologia, em constante expansão. Aliás, basta "navegarmos" durante alguns minutos, para nos apercebermos disso.

Mas de tanto teclar com essa nova linguagem, os alunos passam aplicá-los na escrita manual na sala de aula de uma maneira geral.

Diante desse fato, procurei fazer um estudo que pudesse trazer esclarecimento ao novo tipo de linguagem que hoje está se formando dentre essa nova geração de crianças e jovens. Este estudo partiu de uma investigação através da busca de correspondências eletrônicas entre crianças de 08 a 12 anos, que estão na 2ª, 3ª e 4ª séries do Ensino Fundamental. Foram analisadas algumas abreviações que hoje se forma como palavras consideradas “corretas” entre as crianças dessa faixa etária.

Por isso, foi analisado, de forma qualitativa, estabelecendo comparações entre o que está escrito nas correspondências eletrônicas com o que elas escrevem na sala de aula e se trazem repercussões na aprendizagem. E ainda, teve como parâmetro os estudos das condições sócio-culturais das famílias, na tentativa de verificar as repercussões na utilização da internet em relação ao desenvolvimento da criança.

Vale ressaltar que a delimitação do problema esteve à escrita, a qual é o único modo possível de interlocução nas listas de discussões, bate-papos, e-mails. Este fato,  gerou movimentos peculiares criando-se uma linguagem virtual através de códigos, abreviações, com erros gramaticais, de letras maiúsculas e grafia, aceitáveis pelos interlocutores, como também esperados na comunicação on-line via internet. A grande problemática disso é que na sala de aula não é aceitável e nem correto que um aluno escreva uma redação ou mesmo na prova com erros, códigos, porque a escrita formal ou a norma culta exige certas regras e limitações. Mas como qualquer assunto ou objeto novo, a internet sofre intensas e profundas análises que redundam em críticas demonstrando os pontos positivos e negativos.

Portanto, este artigo advém  de minha monografia de conclusão de curso, o qual realizei uma pesquisa a partir das observações nas aulas de reforço escolar das redações dos meus alunos da 3ª e 4ª séries do Ensino Fundamental, que escreviam com abreviações, como: vc (você), tb (também), d+ (demais), naum (não), pq (porque). Diante disso, senti a necessidade de pesquisar para saber se a mídia influencia o desenvolvimento da escrita dos alunos da 2ª, 3ª e 4ª série do Ensino Fundamental, trazendo conseqüências no código verbal. Abordarei no decorrer do artigo os resultados da pesquisa através da análise e discussão dos dados.

 

ESCRITA ELETRÔNICA E A ESCRITA MANUAL
 

Através de comunicação, via e-mails enviei exercícios de matemática e outras atividades aos alunos, sendo alguns problemas lançando desafios, com o propósito de colher as respostas, as quais foram analisadas no contexto da comunicação eletrônica. Através desta comunicação os alunos obrigatoriamente respondiam os exercícios solicitados. Dessa forma, as correspondências via e-mails entre os meus alunos, traziam as informações sobre o que eles tinham realizado, e até mesmo as explicações das dúvidas por escrito, das quais eu orientava para melhor fazer os trabalhos.

Nesse intercâmbio de orientações e definições das tarefas, ocorreu uma comunicação recíproca entre eu e meus alunos. A escrita do aluno via e-mail foi objeto de análise, sendo observada e confrontada com a oralidade – “o que se escreve e o que se fala” - e com as redações realizadas pelos referidos alunos na minha residência. Visto que o objetivo desta pesquisa foi observar a influência da mídia no desenvolvimento da escrita e suas conseqüências no código verbal. Percebi que nos e-mails que recebi alguns constavam de erros de ortografia na escrita, principalmente com aqueles alunos da 2ª série. Como bem analisa Chartier (2001) em sua afirmação que “...a correspondência eletrônica introduz uma negligência formal, ortográfica e gramatical, muito perigosa para as línguas...”. Assim, pude comprovar que  a escrita eletrônica dos meus alunos, estava cheia de códigos, ou seja, com abreviações. As  mais utilizadas foram d+ (demais), vc (você), bj (beijo) e pq (porque).

Conforme analisa Lemle (2001) a maneira web de escrever, ou seja, de teclar na escrita manual é cada vez mais comum, principalmente com aqueles jovens que são internautas, que com criatividade, misturam o código oral, escrito e icônico nas conversas por e-mail, salas de papo, viciando-se nessa nova linguagem e passando a aplicá-los na escrita de uma forma geral. No entanto, essa questão ainda é fato para estudo, pois, sendo um vício ou não é uma maneira interessante e despojada de escrever, pois para eles é uma maneira diferente de escrever sem precisar seguir regras, podendo criar linguagens novas de comunicação e, principalmente, não precisam escrever muito para serem compreendidos. Foi possível observar essa maneira de escrever numa sala de papo com meu filho que é da 3ª série e o acompanhei numa comunicação via chat com crianças entre 8 e 10 anos durante uma hora e percebi que a comunicação entre eles dava-se praticamente por perguntas e respostas curtas, não havendo um segmento textual com mais de uma linha. Como demonstro no fragmento retirado desse dia que acompanhei meu filho de uma  comunicação via bate–papo da UOL entre crianças de até 10 anos de idade que, embora esteja materializado por escrito, apresenta características de um gênero primário cotidiano e coloquial.

            Neste bate-papo, via internet pode-se constatar os nomes e apelidos fictícios usados na comunicação entre os internautas. Além, de serem muito criativos buscam chamar a atenção, ser diferente, para que dessa forma sejam percebidos e alguém queira teclar com eles. É possível observar isso nos nomes e apelidos que aparecem nesse bate-papo como: Vivi_tdb, GATO100GATA, caiowebcam, Mau Mau, Jujuba, gATiNHo_Da_nET, Dudu, B@nbina bell@ , 0095, Igor, perigosa, b@n@n!nh@. Fica evidente a forma chamativa e exagerada como quando a Gatinhos_ da_Vp fala para N@ND@ A C!NDEREL@: oi ou quando GATO100GATA fala para Todos: Alguem quer tc?Alguem quer tc?Alguem quer tc?????, e de tanto que ele clama para que teclem com ele o 0095  manifesta-se pedindo que o gATiNHo_Da_nET pare porque está chato demais (PARA CARA TA CHATO D+). Pode-se observar, também, que alguns parecem retratar que querem amizade, outros namoro, outros beleza (narcisismo), outros doçura, meiguice, outros um certo sinistro ou uma certa irreverência.

            Ainda neste trecho do bate-papo pode-se observar a possibilidade síncrona, ou seja, onde as pessoas estabelecem comunicação intermediada por um computador de forma simultânea, estando em contato com a rede ao mesmo tempo. Certamente sendo mais um atrativo, considerando ainda um ambiente democrático, onde todos podem teclar ou “falar” sem ter que esperar a sua vez e nem ser o centro das atenções enquanto tecla. Dessa forma, as conversas são paralelas, podendo dizer que os internautas ficam mais desinibidos, escrevem o que pensam sem nenhuma represália, mais à vontade para expressar suas idéias e pensamentos. É nesse mundo que algumas crianças e adolescentes hoje vivem, no mundo da rapidez da informação e comunicação, com estímulos visuais e lingüísticos, ou seja, num mundo sempre em movimento e de mudanças, porém quando chega na sala de aula ainda encontra muitas professoras conteúdista, tradicionais e estáticas, dando aquela aula rotineira que se dava há trinta anos atrás. Eu pergunto como fica a cabeça desse aluno e a motivação para aprendizagem?

Barthes & Marty (1987) afirma que a comunicação escrita é uma comunicação que funciona segundo uma modalidade disjuntiva temporal e espacial, definindo o escrito como dispositivo, podendo-se dizer que o texto escrito se baseia mais na sua autotextualidade que no seu contexto, que o princípio fundador da sua organização se encontra na estruturação interna dos seus significantes.

Considerando o nível dos pais, é importante ressaltar que todas as famílias contam com computador em casa, e todos têm internet conectada vinte e quatro horas. E, todos da família, os pais, as mães e irmãos maiores sabem lidar com o computador. Percebe-se que isto contribui para que o aluno que compõe esta pesquisa, encontra ambiente favorável para lidar com a informática, fato que conduz à naturalidade e espontaneidade para o aluno conhecer mais sobre internet, bem como utilizar outros recursos.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS
 

            Ao realizar essa pesquisa deparei-me com algumas surpresas, dentre elas a resistência de algumas professoras em relação ao uso da informática. Por outro lado foi extremamente relevante analisar a influência da mídia no desenvolvimento da escrita dos alunos da 1ª à 4ª séries e as conseqüências para o código verbal.

Contudo, pude constatar que ocorrem muitas abreviações na escrita eletrônica dos alunos. Esses erros ocorrem na mesma proporção dos erros ortográficos na escrita manual, não trazendo qualquer conseqüência para oralidade ou verbalização dos alunos.

No bate-papo da internet pude constatar o mundo fascinante de relações interpessoais, onde os alunos têm que lidar com uma grande quantidade de informações interagindo, colaborando e cooperando entre si, além de gerenciar as conversas paralelas e as perguntas simultâneas. Tudo isso num ambiente onde não existe cor, raça, credo, classe social ou sócio econômica, aonde os alunos vão amadurecendo através da observação de que existem diferentes pontos de vista, trabalhando assim seu senso crítico. Dessa forma, estão preparando-se para o futuro que exige dos indivíduos criatividade, capacidade de relacionamento e de solucionar problemas, além do relacionamento interpessoal, dentre outras exigências do mercado do trabalho. Por isso, a escola não pode ficar alienada a tudo isso, é preciso buscar meios para aprender a trabalhar com o computador e todo o seu contexto dentro da sala de aula, como: a nova linguagem, as informações, a escrita e os novos valores, tudo em prol de uma educação atualizada e coerente com a realidade do contexto da sociedade do século XXI.

A mudança é a palavra de ordem na sociedade atual, mas infelizmente pude constatar que ainda há resistência de alguns professores, por isso é importante  uma conscientização por parte deles, principalmente em aprender a aprender a trabalhar com a tecnologia na educação, especificamente com a informática. Dessa forma, superarão os medos e as inseguranças, mas para isso será necessário que se invista na formação de competências dos professores, para que assim seja possível trabalhar com as habilidades na sala de aula.

A inclusão da informática na sala de aula pode mudar a maneira como aprendemos, podendo assim formar cidadãos críticos e preparados para a sociedade do conhecimento. O meu desejo é que a informática possa contribuir para a construção de um projeto de uma sociedade melhor e mais justa para todos, pois no momento que os professores trabalharem com a informática e seu contexto, dentro da sala de aula , estará sendo dada a oportunidade a todos de incluírem-se com os mesmos direitos na sociedade da informática e do conhecimento, podendo assim estar preparados não só para a vida, como também atualizados para as exigências do mercado do trabalho.

Certamente, será uma nova era para a educação, onde os professores transformar-se-ão com a informática e assim enriquecerão o ensino na sala de aula, com os trabalhos interdisciplinares, as pesquisas, as trocas de conhecimento e as produções escolares.

 

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