OS ALUNOS E OS COLEGAS DE ESCOLA
Escrito por Silas Corrêa Leite
Sáb, 24 de Janeiro de 2004 03:00
Imprimir

Os Alunos e os Colegas de Escola

Silas Corrêa Leite

Freud diz que tudo o que somos na vida, vem de nosso berço familiar,
nosso canto de origem e história. Raízes e DNAs.
 
Já Piaget e outros pedagogos de renome, coloca isso mais socialmente
evolutivo, a partir de um contexto sócio-ambiental todo.
 
E a escola, normalmente, é o primeiro vínculo de um aluno com seu
associacionismo extralar, fora de casa, de seu primeiro
ambiente-habitat.
 
Faz-se a turma.
 
E aí, tudo pode ser diferente, o teen se revela de per-si, se agrupa
como se adequa, passa a pensar em equipe, comunitariamente. E corre
riscos. Às vezes, imaturo, dá a cara pro tapa, imberbe e incauto. Como
diz a canção do Raul Seixas, inocente, puro e besta.
 
Kant diz do sujeito ético, e coloca o ser-cidadão diante de sua
responsabilidade inerente. E o aluno aí vai se agrupar, medir as coisas
por outro referencial, sacar mesmo o professor que impõe, produz
conhecimento, lidera, agrupa, cerceia circunstancialmente até, visto
então ali como um não-pai, um tiofessor possivelmente, só que este o
aluno pode contestar, até mesmo por alguma neura adquirida, querer bater de frente, sentir o embate, medir riscos avaliatórios, mediar interesses construtivistas, avaliar ao seu enfoque-prisma se o educador sabe realmente o que diz que sabe, o que se propõe a fazer na sua didática participativa-participante.
 
Com a instituição-escola o aluno vai interagir, congregar, adaptar-se
por que é da natureza humana esse estado social de ser e de humano.
 
Com os coleguinhas de classe é que o bicho pega.
 
Cada aluno-ser, é um planeta, um mundo, pois cada cabeça é uma sentença, diz o adágio popular.
 
E o nosso aluno vai com/Viver com esse "diferente" dele, em cor, status
social, crendices, estímulos, irrazões, gostos disformes  e tudo mais.
Vai ter que aprender a lidar com isso. Faz parte de um contexto todo de
ser jovem dando os primeiros passos fora de seu habitat de origem e
meio. E, normalmente, o adolescente aqui e ali vai agir antes de pensar,
ficar inseguro, pensar mal, ter noções erradas, seu juízo de valores
ainda é ralo e raso nesse estágio de busca, adaptação, socialização. O
homem é um animal político enquanto ser social vendo-se no outro,
discordando, gostando, trocando, reagindo.
 
Se tem um líder barrabrava na tchurma, o jovem vai ver nele uma
referência de alguma forma. Está reagindo a um estímulo. Se houver outro muito culto, também. Se um desses enveredar por infrações ou
dependências químicas, lá vai o colega de classe sentir se, arranjando a
situação, pode ser amigo, pode ser útil, pode ser evitável. Depende do
momento. O ser e as circunstãncias. É melhor não ir contra a turma? É
melhor ficar na sua? É melhor se tocar, tá ligado?
 
Jovem é isso. Da hora. Paulatinamente medindo, com sua régua mental, sua bagagem de origem (vide Paulo Freire) o que vai fazer daquilo que vai apreendendo. Uma espécie de letramento de posturas. O fazer-se de si do que a escola-meio fizer dele. Agindo assim, de outro jeito, como um e outro naturalmente retorna essa ação, capta como o educador saca o lance ou dispersa, como as coisas e acontecências rendem ou respondem numa situação orbital toda.
 
O jovem é sensível, puro, quase uma folha em branco ainda a ser
preenchida pela vida, portanto deve ser respeitado como tal, suas
habilidades naturais estão viçando, mas ele tem até muito mais
sensibilidade para captar, do que o próprio professor ou pais. Isso tem
que ser avaliado. O poder dessa energia é fora de série. Quem trabalha
no ensino tem que saber como lidar com reações e reclamos. É próprio da natureza pedagógica esse desgaste da relação, só com suporte inclusive estrutural e base psicológica para o professor sentir que é da área mesmo, do ramo, e é exatamente para isso que ele ali está, para
gerenciar conflitos, administrar problemas, tirar dúvidas das mais
inadequadas ou imagináveis, reger aulas num arrazoado humano bem
heterogêneo. 
 
Voltemos ao nosso aluno. Ele ali está sacando o lance. Logo descola uma carona-companhia. Torna-se amigo e tem uma série de predicados para ser amigo e parecer mesmo um. Logo pinta um lance, uma paquera. Empresta uma grana prum esquecido e disperso, copia trabalho de um outro, troca idéia sobre regra de três ou camada de ozônio com um mais dedicado, se encorpa num contexto de sobre/Vivencia entre, em tese, iguais na faixa etária.
 
Pode também se sentir deslocado, a partir de situações-limites que traz
consigo. Mas normalmente acha a sua turma. Um e outro tem, vá lá,
cinqüenta por cento do ser de si, ou do que se agrada, pois se completa
nele. A companhia útil.
 
Esse outro, independente da razão, como ele, também tem um berço e uma estrada de vivência e postura, de reações a enfrentamentos, inclusive íntimos. O amigo por toda vida pode ser composto e afinado aí. A paquera (que o primeiro amor a gente nunca esquece) está nesse terreno. E o perigo mora ao lado.
 
Se, por um lado, dois ou três pensam em fundar uma banda de rock pesado, se encaixam nesse propósito, pode rolar aí uma imitação de méritos de um fã-clube, ou posturas daninhas de um ou outro artista famoso que faz suas besteiras posturais e isso vira marca e ganha retoque na mídia.
Drogas, só para citar uma, nem entrando no campo do neoconsumismo
babaquara.
 
Degraus. Pisadas na bola. Escolhas. Experimentações. Intimidades e
desaforos. Tudo ainda nos conforme. Ser jovem é isso mesmo, adrenalina, alienação, composturas, elos, somas. Tira-se sarro, preocupações dúbias, outros interesses ainda não adultizados.
 
Começa o avanço para um ou outro lado. Para o externo ou dentro de si,
afinal, somos espíritos, temos interioridades até mesmo as não captadas, mas somatizadas, até os recalques e individualidades de ilações tácitas.
 
Quando o pai está perto, acompanha com amor e referencial-postura, tudo bem. Ajuda. Quando a mãe além do amor dá um puxão de orelha (vá lá, figura de linguagem que seja), o filho está entre o experto e o
provocativo, mas sabe quem é quem. O pai é o pai, o professor é uma mão na roda, a mãe é o ombro amigo, o consolo. Quando há uma falha nesse império de relações, na pirâmide formada na cabeça do aluno, nesse flanco que entra a probabilidade do descaminho, do dezelo íntimo, do deslize. É preciso estar atento. Ser pai não é só pôr no mundo, não é o que diz a fala fácil de nosotros? Ser mãe não é só amor e
carinho-lastro, tem toda uma sorte de cobrança com explicação, medidas
de sanção com noções de aprendizados, manejos e estímulos. Jovem gosta de ver o pátrio poder ser exercitado pra marca de território e
hierarquia. É próprio da sua idade. Mas quando o pai finge uma coisa
sendo outra, ou faz uma coisa que não quer que o filhote faça sem dar
explicações aceitáveis e eticamente plausíveis, a coisa fica feia.
 
Andemos com esse jovem. Façamos o caminho dele. Escola casa, clube
cinema, shoping colega. Uma rede de fatos. Um mosaico de acontecimentos o vão rodeando. Tempos pós-modernos. A rua da amargura. O clube e suas etiquetas. A internet e suas falcatruas. O sexo, o álcool, a maconha.
Tudo isso está bem na cara do jovenzinho. Se ele mal dizer alô você, e o
vão estar servindo numa boa. Estamos num mundo assim, não devemos fechar o olho, confiar em Deus e pronto. Orar e vigiar. O jovem ali, bonachão, bonitão. Esses são os seres a serem provocados, predados. As flores mais bonitas são colhidas primeiro. O pai tem que estar esperto, supervisionar, fazer de conta que não está ali, estando. Fazer de conta que não põe reparo, mas estar mais em cima do que o Vampeta botinudo marcando o Kaká com sua canela de vidro. É isso. E a mãe de olho.
Cheiros e sintomas. Intimidades, com todo o respeito, de olho na
mochila, sondando a agenda, abrir-se em leque para o dialogo.
Homossexualidade, cocaína, pervertidos, prevaricações. Farol ligado. Mãe que é mãe, solicita, please, não manda. Mas pode e, se preciso manda mesmo a acabou-se o que era doce. Jovem não deve ter sempre tudo o que quer. Mas pode ter direitos e conquistas. Ser levado a evoluir para ganhar espaços, bens,  viagens e serventias.
 
Voltemos ao nosso quase rapaz. Corte de cabelo horrível, calça em que
cabem três dele, espinhas no rosto, tênis sem cadarço (que falta de
imaginação), chulé, Coke, vídeo-game (quando não vício-game), boas e más companhias. O espetáculo da vida. Tudo um grande circo-horror-show, entre o medo, o entretenimento e o grau de receptividade. Cabeça, tronco e membro. Alma, coração, receptáculo. Aproxima-se a competitividade. No amor e na dor. Força e forcas. Somar não é só uma conta. Dividir não é só um verbo. Subtrair pode ser por vários estados de necessidade. Ganhar e perder. Como um livro caixa, sem glosa de afeto. Pai presente. Mãe anjo. O jovem, claro, na sua, estocando, tentando, sacando o flanco, o vão, a válvula de escape. Sempre pinta uma. Nas piores horas, os piores conflitos. Nos momentos de intimidade, a peleja do ser consigo mesmo.
Riscos e fugas. A arte é um bom cabide de egos. Fora isso, a
sensibilidade é tentada a desafios radicais. Experimentar aquele
comprimido que energiza, pode ser um encalhe tácito contra uma postura
ao seu ver errada do pai mandão. O pai ter que ser constante.
Participar. De olho no filhote, pro guri não ser um laranja, o que de
alguma forma, um dia ou outro acabamos sendo, em maior ou menor grau de proporção e fatalidade. Estamos nessa vida também para tomar chuva e apanhar de vara de marmelo dos acidentes, as chamadas coincidentes circunstâncias desfavoráveis.
 
Ser jovem é uma fria, diz-me um, depois de repetir o palavrão do último
cedê ótimo da Rita Lee e seu muso-vítima. Discordo, numa boa. O jovem é inquieto. Pega fácil. Coisas boas e ruins. Faz amizade facilmente, na
sua maioria. Embarca em canoas furadas. Às vezes dá com os burros nágua, mesmo tendo sentido diverso, propósito bom, intuito salutar. Também, se amar se aprende amando (Saravá Vinícius de Morais), viver se aprende vivendo, escrever se aprende escrevendo. E ser jovem se aprende mesmo sendo, aqui e ali, aos trancos e barrancos, medida as proporções do que se tem de casa, se traz de casa, se apanha na escola, se acompanha fora dela, se enquadra, se entra de gaiato num navio tipo as aparências enganam. Nada do que foi será, cantou o Lulu Santos.
 
Como estaria nosso jovem? A primeira balada. Mandou bem? Cabeça cheia de idéias esquisitas. Walk-man. Surf.  Ao pensador, as batatas. Será que servir o exército é uma fria? E esses ídolos - como os nossos pais - errando e vendendo imagens e arquétipos? Sociedade precisa de
maluco-beleza. Toda imagem entra no refluxo do inconsciente, ídolos de
barro, tapumes neurais, propaganda enganosa. Quem é que pediu pra
nascer? Quase todo jovem um dia de impropério destila esse veneno
vernacular. Faz parte. Trocas. Senta aí, carinha, vamos levar um lero?
Que mina é aquela? Ta usando preservativo? Que qué isso, companheiro.
Aleluia, perdeu a virgindade. Viajar sozinho? Posar fora? Meu Deus,
estamos ficando PAIS, a escola não é só um depósito de rejeitos urbanos, não pedimos demissão de sermos Seres & Humanos, e vai por aí a árvore de groselha preta de técnicas e aprendizados. Pais e filhos. Mano a mano.Tá na fita. Sacou baby. Onde já se viu isso? Será o impossível. Benza-Deus.
 
Pois é. Não há arranjos sem flores. Você vê flores no seu filho de
tromba?. E a sua Sandy passou das quantas. Isso. Árvores crescem. Você está muito frondoso, ta na hora de se dar um tempo, deixar seu júnior crescer a árvore que ele vai ser no seu jardim de DNA paredemeia. Sentiu firmeza? Aleluia Kid Abelha. Seja um pai dez. pareça-se com um. Não é só pôr no mundo e fui. É uma baita responsabilidade. E agora, você vai jantar fora só com o rapagão, viajar só com sua filhona, curtir aquela balada do Skank, ou vai ficar aí fumando feito um homem-chaminé, assistindo tevê feito uma senzala-totem, largar tudo na mão da patroa e deixar o caldo entornar, pra depois dizer que não sabia, não viu, tava em impedimento na hora crucial do jogo de cena?
 
Eu por mim quero a minha parte em vivências. A vida é uma grande
concerto de rock. Você vai ser uma Janis Joplin só pra consumo próprio,
depois sumir da geografia da vida? Ou vai ser um paizão, uma mãezona,
ou, como disse o Arnaldo Antunes, num neologismo bem sacado, em vez de ser Pai e Mãe, ser um Pae ou Mai? Fique esperto, camarada. O mundo é dos que pensam.
 
Tiau.
 
Tenho aula agora.  Giz, lousa e saliva. Morro de amor pela docência.
Adoro crianças e jovens. Sei lê-los. Cuide bem de seu amor.

 

Silas Corrêa Leite
Poeta, Educador.

Site pessoal: www.itarare.com.br/silas.htm
E-mail para convites, palestras, discussões, críticas, idéias,
consertos, mostras, congressos, ilustrações, depoimentos, técnicas de
refino da teoria/práxis pedagógica.
Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.