QUANDO A PRISÃO VAI ALÉM DAS GRADES
Escrito por Patrícia Regina Alves
Qui, 29 de Janeiro de 2004 03:00
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Quando a prisão vai além das grades

 

Patrícia Regina Alves*

 


Aprisionar alguém vai além das grades de ferro de uma cela e da visão
deturpada que provavelmente se tem da paisagem vista de um ponto não tão privilegiado assim que se possa ver com clareza o pôr do Sol, a Lua, as estrelas e nem todas as belezas que o meio ambiente poderia nos
proporcionar. Aprisionar alguém pode ser tão simples quanto o respirar, o piscar dos olhos ou o sorrir, basta para isso, termos conhecimento,
persuasão e confiança. Confiança em si, confiança naquilo que se fala e se prega. Aí está a essência e a pior de todas as prisões, aquela que
escraviza, que manipula, que ludibria e que envolve. Capaz de envolver com tal eficácia que nos cega, nos alucina e corrompe. Capaz de fazer de nós o que bem deseja, capaz de nos tornar passivos e com uma sensação de embriaguez que perturba, mas fascina, nos fazendo lamentar, mas não agir.


Podem acreditar, pois esta é a pior prisão em que se pode estar. Isto
porque, além da manipulação, ela nos engessa, nos paralisa e nos faz
acreditar que nada podemos fazer, que o que vemos na TV é sempre a verdade, por mais absurda que possa parecer. Que aquilo que ouvimos deve ser reproduzido sem análise por pura falta de sensibilidade, dúvida ou quem sabe de percepção? Talvez não! Pode ser desinteresse, falta de perspectiva, inocência ou seria o efeito alucinógeno que a falta de conhecimento, compreensão, análise e criticidade são capazes de fazer? É, talvez seja isso. Talvez, a simplicidade, a ingenuidade e a apatia sejam resultante de tanto sofrimento, de tantas promessas que não se cumpriram e, portanto, seja a principal responsável por esta alienação coletiva que bloqueia, escraviza e exclui intelectualmente milhões de brasileiros que são direcionados a pensar, ou melhor dizendo, a acreditar que pensam, mas que ainda, infelizmente, não passam de "marionetes" nas mãos daqueles que detêm o conhecimento e por isso, o poder. Continuar passivamente esperando que os outros resolvam por nós aquilo que nos cabe é o primeiro passo para a
escravidão intelectual. O contrário seria exercer plenamente a liberdade de sermos donos do nosso pensamento e do nosso coração, tendo como metas: a liberdade de apreender, de compreender, de ver com olhos distintos, de analisar, de errar, de se apaixonar, de questionar, enfim de aprendermos a pensar.

*Patrícia Regina Alves é Pedagoga Organizacional, pesquisadora na área de Responsabilidade Social Corporativa. Trabalha como Coordenadora, Gestora social e educadora comportamental com jovens e adultos. Faz consultoria de RH na área de treinamentos comportamentais e é vice-presidente da Organização Caetê.