REFLEXÕES SOBRE EDUCAÇÃO E EXPERIÊNCIA. SOB OS OLHOS CERRADOS DE BENJAMIN
Escrito por Ivan Furmann
Dom, 18 de Setembro de 2005 03:00
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Reflexões sobre Educação e Experiência.
Sob os olhos cerrados de Benjamin


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Mestrando em Educação pela UFPR – bolsista Capes
incluído no site em 18/09/2005
 

1

 

Em texto sobre experiência Benjamin descreve a vida do camundongo Mickey como uma vida recheada de milagres da tecnologia. As pessoas, quase sempre cansadas das dificuldades do dia-a-dia, através do milagre televisivo, assistem o camundongo. Vislumbradas com as maravilhas que cercam o roedor, numa vida recheada de invenções que surgem e resolvem todos os problemas, depositam, assim como o desenho, suas esperanças nos milagres da tecnologia. Reinterpretam o sentido da vida a partir da perspectiva dos meios. Os problemas da vida serão exterminados pela aquisição de coisas, de bens tecnológicos. Existe uma lógica muito perversa por detrás de um desenho tão simples. A lógica dos meios.

A Escola segue a mesma lógica. A formação escolar, e principalmente universitária, é apenas um meio para se adquirir uma profissão. Profissão como ‘coisa’, como bem tecnológico. Profissão que se basta em si, resolvendo, ou prometendo resolver, todos os problemas do mundo cotidiano. A profissão torna-se meio de aquisição de riquezas, que por sua vez torna-se meio para satisfação de necessidades e prazeres. A vida, enfim, figura num episódio, onde o automóvel e o chapéu saem da cartola do camundongo com iguais pesos insignificantes. O peso de algumas notas.  Peso do capital. Capital e tecnologia que produzem o mundo ideal. O milagre vencendo a necessidade. Sob a realidade o manto da imagem televisiva, a ilusão de ótica. O camundongo nunca se mexeu. O progresso da tecnologia não trouxe progresso social.

Na escola onde a principal preocupação é o emprego não há espaço para reflexão. O milagre devorou a liberdade. O conteúdo e os valores já não importam. A concorrência sim. Não importa refletir o ‘todo’, basta adquirir tudo, sendo o melhor do mercado. Conteúdos, afinal, são apenas meios para obtenção de uma profissão, que será meio para obtenção de riqueza, que será meio para obtenção de bens, que serão meios de satisfação de necessidades e de prazer e que, enfim, serão fins em si mesmo, numa inconseqüente ética de meios.

 

2

 

O desenvolvimento tecnológico não trouxe, por si e de forma espontânea, o desenvolvimento social. Durante os últimos séculos, a ciência figurou-se como bruxaria superior e poucos a ousaram desafiar. Talvez, a Escola precise se tornar o local onde seus mistérios, ao invés de serem revelados (ou pior, muitas vezes relevados!), sejam desvelados. Enquanto, graças à tecnologia e seus milagres, a produção de alimentos saciaria toda a humanidade, milhões passam fome nos países do terceiro mundo. Enquanto pequena parte da população sofre com a obesidade, outra, bem maior, sofre com a desnutrição. A Escola renovada utiliza-se da ciência como meio de reflexão, onde os estudantes se apropriam da lâmina científica não para penetrar a carne humana, mas para dividir o pão. O valor da Ciência não está em si, está nos homens.

 

3

 

As reformas educacionais, em seu sentido radical, visam mudanças culturais. Entretanto, a ilusão de que reformas burocráticas, técnicas ou legislativas solucionariam os problemas da Escola persistem como manto para a reprodução cultural. A própria reforma educacional iludida constitui-se, assim, como domínio da pobreza, da contínua e ansiosa busca pelo novo, no rotineiro descobrimento da roda. Pensar em reforma escolar pressupõe pensar em reforma cultural que, não isenta de barbárie, elegerá novos valores para deixar de herança, como tesouro mais precioso, recheado de esmeraldas históricas.

 

4

 

A cultura não é isenta de barbárie, assim como também os meios de transmissão da cultura. A Escola é um meio de transmissão de cultura. Palco mítico de guerras em cenários adornados com sangue. A luta do presente é a luta do conhecimento, o novo palco das guerras. Os valores espirituais que custaram vidas para serem transmitidos às gerações futuras são todos consumidos pela luxúria da incessante reprodutibilidade técnica. Como palco de batalha presente, imaginar que essa se encontra, toda, nos corpos caídos no chão é ignorar a vitalidade do ódio humano e de sua superação. Se a guerra não está perdida ou ganha, necessário, pois, deixá-la audível.

 

5

 

Um dos grandes dilemas que a filosofia pós-moderna e as desilusões históricas do socialismo real despertaram constitui-se na falta de fundamento ético para a ação política. As alaridas mortes da Utopia e da História são sinais dos tempos em que o homem esqueceu-se de seu agora fugaz. Se toda a História do Homo sapiens pode ser contada como um quinto de segundo (0,2 S) numa escala em que um dia (24 H) equivale a existência da vida biológica da Terra, mal nasceu o amanhã. Sequer os primeiros passos foram dados. E, mesmo que o amanhã não venha a existir, de que valeu toda a História? Os valores morais são os motivadores da ação e o combustível da História. O sentido do presente não pode ser ‘resgatado’, em local algum, senão por visões unilaterais. Não é o passado que traduz nossos valores presentes, contudo a herança por ele deixada, por vezes inconsciente e escrita na experiência das culturas, serve de substrato para algo melhor. Não vale a pena sonegar a diferença, impondo um conjunto de valores universais e unilaterais, tão temporário como uma História da humanidade. Tal pretensão é apenas um destempero utópico, um perigo aliado à falta de humildade dos conquistadores. No eterno parto da humanidade deve-se assumir a filha História, pois os valores mais puros foram destilados pelo fogo e subiram aos céus nas cinzas que flutuavam pela chaminé de muitas  Auschwitzs, sob garoas chorosas.

 

6

 

Os jovens do nosso mundo buscam incessantemente novas marcas de roupa, tatuagens e piercings. Nas carteiras dos colégios rabiscam nomes e apelidos. Procuram na identidade à aceitação. Anseiam não serem excluídos. Tudo isso, entretanto, custa-lhes o preço da alienação, da fetichização. A liberdade permanece imensuravelmente presa à calça jeans da corporação multinacional. Identificam-se sim, mas não sabem ao certo com o quê. Pois as ilusões não chegam sequer a ser sonhos. A juventude necessita de novos impulsos para a liberdade. Sonhos além do existente, esperança que supere a ética dos meios. O desafio maior da presente Pedagogia é possibilitar espaços para o autodesenvolvimento da cultura. Espaços de mudança. Gêiseres de diversidade, universalizando o suprimento aqüífero, receita triunfal para a saúde da humanidade.

 

7

 

Infinita, pois, a Educação por uma nova moral. Não partilhando razões com fundamentações racionalizantes ou psicologizantes. O ensino da nova moral parte de perigos empíricos. O que seria mais importante que a memória dos massacres passados? Das mortes presentes? Dos perigos futuros? O perigo pode ser encontrado na identificação do presente com o passado, mas também no estranhamento. Pois somente os olhos do presente vislumbram o passado e o futuro no presente. Na interpretação das causas e conseqüências apreciam possibilidades. Detidamente se atém a barbárie. Trabalho árduo. Recurso contínuo de criação de imunidades. Vacinas históricas. Defesas contra empatias sádicas. Defesa contar nós mesmos.

 

8

 

Um velho senhor tem autêntico e ingênuo vício de pintar quadros. Durante toda a vida tematizou telas com pinheiros e casas rupestres, praias e paisagens do campo, cavalos e pavões. Nunca alcançou o sucesso, não detinha croqui. Por outro lado, faltava algo em sua arte. Sempre notei uma pretensão ingênua de pintar atmosferas que não conhecia. Pintava beleza, vivia agonia. Quiçá tivesse enxergado seu próprio quintal, pintando o lixo amontoado. Ao menos retrataria através de suas pinceladas a sua experiência de vida. Em nada adianta esboçar atmosferas de planetas que se desconhece. Inflexões de fantasia. Somente na Terra é possível observar coisas tolas, cotidianas, imperfeitas, resistentes. O despertar das centelhas da esperança passa pela recuperação da experiência, do ar que se respira. Pois a felicidade está toda no ar que respiramos. Somente nas atmosferas da realidade encontram-se os materiais necessários à argamassa das paredes de uma nova arte, uma nova tela, uma nova Educação.

 

9

 

O aluno escolarizado é moldado a ignorar a experiência e assume o vão espetáculo da rotinização, da repetição. Ao cotidiano, imerso na pobreza dos meios, resiste-se irrequietamente com bolas de papel. Inúteis são os esforços e malabarismos técnicos-pedagógicos, pois ignoram o enfants (sem voz), pertencendo-lhe legitimamente apenas o silêncio e a obediência. Pedagogias não-diretivas concedem a voz, concedem espaços, mas apenas no intuito de controlar a própria rebeldia. Porque a Escola é o espaço da educação infantil e não da educação dos adultos. E entre os poucos espaços concedidos, apenas alguns segundos durante o ano inteiro, o aluno solta sua voz, crítica, irônica, pronunciando a vida real, presente em seu ser humano. Conquistando espaços que não lhe foram concedidos. Desafiando a própria Escola. Saindo do profundo sarcófago individual e vivificando uma nova experiência que verbaliza com valores passados, onde se vislumbra, enfim, na experiência transgressora a educação a contrapelo.

 

10

 

Há alguns anos atrás algumas pessoas usavam o relógio de pulso adiantado em alguns minutos. Assim sentiam-se seguras, pois o tempo não lhes escaparia, pelo menos ao primeiro olhar no relógio, enquanto a lembrança não as desmentia. Forjavam inconscientemente objetos que controlavam o tempo. Com a invenção do telefone celular o homem perdeu o seu último resquício de controle do tempo, seu relógio é regulado por satélite. Não é possível controlar o tempo. Os diversos pesadelos que durante as mais altas horas da noite atormentam o sono estão todos brincando com a lembrança. O passado oprimido é a força maior que atira contra os relógios. Por isso, na experiência se encontra, senão respostas, ao menos força para superação das contradições do presente.

 

Bibliografia
 

BENJAMIN, Walter. Documentos de Cultura, Documentos de Barbárie. (Escritos Escolhidos). [Seleção e Apresentação Willi Bolle]. São Paulo: Cultrix; Editora da Universidade de São Paulo, 1986

 

_______________. La metafísica de la juventud. [introducción de Ana Lucas] Barcelona; Buenos Aires; México: Ediciones Paidós; I.C.E. de la Universidad Autónoma de Barcelona, 1993.

_______________. Magia e técnica, arte e política - Ensaios sobre literatura e história da cultura. (Obras escolhidas - Vol. I) [Trad. Sérgio Paulo Rouanet]. 3ª ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987.