QUEM FALA MAIS, ESCREVE MELHOR
Escrito por Vicente Martins
Sáb, 11 de Dezembro de 2004 03:00
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QUEM FALA MAIS, ESCREVE MELHOR

 

Vicente Martins

 

As crianças, falantes nativas de sua língua, chegam à escola para ler, mas primeiro escrevem para ler, lêem para escrever. É como se a escola invertesse a lógica da língua natural que, antes de tudo, tem sua âncora na fala.


O caminho mais adequado ao ensino eficaz da língua materna é pensarmos em método que parta da fala, ou seja, garantirmos a fala para o desenvolvimento da habilidade leitora: deve-se, pois, dar liberdade de falar para se garantir uma leitura fluente.


Quem não adquire confiança no seu ato de falar, como pode ter fluência ou velocidade no seu ato de ler?


Uma pedagogia da lectoescrita (para o desenvolvimento da leitura e da escrita), tradicional, tradicionalista e centrada no professor e no ensino, denuncia que, no meio escolar, os professores ditam palavras, frases e pequenas orações e as crianças, como escribas, escrevem, escrevem e se tornam copistas.

 

Se pensarmos no modelo acima como um método de ensino, eis aqui um flagrante fracasso pedagógico com uma histórica e tradicional imposição de tal procedimento na maioria das escolas brasileiras: a escrita realmente é ponto de chegada e não de saída no ensino lectoescritor de leitura, escrita e cálculo. É exatamente o contrário. A fala antecede a escrita. A fala é chegada, é  início de um longo processo. A escrita, saída, é síntese, resultado de um longo e laborioso processo de formação lectoescritora.

 

Certo é que a escola abafa a fala, manancial importantíssimo na formação para leitura e para a expressão oral. A escola paga um preço alto por tal atitude: as crianças deixam de aprender a ler, a escrever e a grafar corretamente as palavras na língua padrão culta na idade própria. A escola gera o seu próprio fracasso.

 

No final de oito anos de ensino fundamental, encontrar crianças inibidas, acanhadas nos corredores, não tenhamos dúvida, vem muito da interdição da fala, e, conseqüentemente do corpo e da alma. A fala é expressão de nossa alma, do nosso sentimento ou pensamento. Nós somos a expressão da nossa fala.

 

A escola insiste em partir da escrita, a ortográfica, e despreza um componente importante na compreensão da linguagem, que é a fala, ou mais precisamente os sons da fala, os fonemas da língua materna. Ninguém, a rigor, precisa de cartilha, para aprender vogais e consoantes, sons da fala, da voz, já presentes no corpo.

 

Aos três anos de idade, na educação infantil, as crianças já são nativas de sua língua e sabem muito da organização da língua materna, de sua regularidade, de sua estrutura e signos e significados que expressam no cotidiano, a partir da sua própria fala espontânea.

 

A escola desconhece essa informação que qualquer manual de psicologia da criança ensina: a fala é ponto de partida para aquisição da linguagem verbal.

 

Qualquer um que queira pôr em dúvida essa hipótese, verá numa simples observação direta da conduta das crianças, sem maiores rigores abstratos: quando o professor parte da fala faz com que a criança perceba que traz consigo um rico manancial de informações preciosas que pode ser explorado linguagem verbal escrita.O  conhecimento prévio encontra na fala um caminho melífluo de expressão.

 

A fala na educação infantil é rico laboratório para os docentes. Por ela, desenvolve-se na criança a percepção auditiva, fundamental para o ensino da leitura. Ensinar a perceber o mundo,  o seu cotidiano, , é mais importante do que memorizar formas lingüísticas, das regras do bem dizer. A verdadeira teoria da linguagem vem do olhar, da observação. Olhar para o mundo, suas circunstâncias, é uma forma de apreendê-lo de forma sistemática e inspiradora.

 

É mais fácil uma criança guardar na memória aquilo que apreende com a percepção do que aquilo que aprende com imposições de deveres, regras ou tarefas escolares. A escola, infelizmente, não percebeu a validade dessa informação didática. A escola, precisa, urgente, revelar novas metodologias, na direção de um aprendizado eficaz da lectoescrita (leitura, escrita e cálculo).

 

As relações entre linguagem oral e escrita são, na verdade, o primeiro passo para o trabalho eficaz, no ambiente escolar, a título de aquisição e desenvolvimento da leitura.

 

O que é a escrita senão o espaço material, objetivo, concreto, real, visível de expressão e representação da fala, da linguagem oral? Minha pergunta, na verdade tem uma resposta contumaz: a escrita  deve buscar no reino da fala a sua fonte de  idéias, inspirações e volições.

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), de Sobral, Estado do Ceará.