FORMAÇÃO DE PROFESSORAS, RELAÇÕES DE GÊNERO E SEXUALIDADE: UM CAMINHO PARA A CONSTRUÇÃO DA IGUALDADE
Escrito por Daniela Auad
Dom, 18 de Setembro de 2005 03:00
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FORMAÇÃO DE PROFESSORAS, RELAÇÕES DE GÊNERO E SEXUALIDADE: UM CAMINHO PARA A CONSTRUÇÃO DA IGUALDADE[1]

 

 

Daniela Auad[2]
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Incluído no site em 18/09/2005

 

Perceber a escola como lugar privilegiado para a construção da igualdade é discurso recorrente das profissionais da Educação, sejam pesquisadoras, técnicas ou professoras[3] de todos os níveis de ensino. E, se por um lado, sabe-se que o discurso constitui parte da realidade, somente ele não basta para transformá-la. Continuamente, há de se voltar a atenção para as práticas e elementos de nosso cotidiano que, ao passarem desapercebidamente, expressam e reforçam concepções cristalizadas acerca das relações que estabelecemos dentro e fora da escola. Faz-se necessário demarcarmos de que igualdade estamos falando, ou seja, quem estamos querendo igualar e em que. E, ainda, quais as ações a serem tomadas para atingirmos tal objetivo.

Ao longo deste texto, estarei referindo-me específica e predominantemente à igualdade no que tange as relações de gênero. Para tal, cabe questionar como se estabelecem tais relações na escola. Como são vivenciadas e percebidas por professoras, alunos e alunas? Qual a importância da adoção de gênero, por parte das professoras, para lidar com o cotidiano escolar? O que é, afinal, gênero? Assim, pretendo fornecer alguns elementos para a compreensão dessas questões ao sistematizar, brevemente, aspectos teóricos considerados básicos para o desenvolvimento do tema; problematizar situações próprias do cotidiano escolar à luz do referencial de gênero; e refletir sobre a adoção deste nas intervenções das professoras na educação de meninos e meninas.

 

Tentativas de apreensão de um conceito de gênero

 

 

Pesquisadoras e grupos de estudos têm buscado estabelecer um conceito do que seja gênero e este é, sem sombra de dúvida, um terreno de controvérsias e até de certa nebulosidade. Contudo, é imprescindível adotar algumas noções acerca de gênero (ainda que iniciais e passíveis de reformulações e correções) para desenvolver reflexões que possam contribuir para o conhecimento e o debate sobre o tema.

Gênero não é sinônimo de sexo (masculino ou feminino), mas corresponde ao conjunto de representações que cada sociedade constrói, através de sua História, para atribuir significados, símbolos e características para cada um dos sexos. Assim, as diferenças biológicas entre homens e mulheres são interpretadas segundo as construções de gênero de cada sociedade. No momento em que uma criança do sexo masculino nasce e ouvimos dizer “É menino!”, assistimos à primeira interpretação de uma série, que, de diferentes formas, moldará suas experiências, vivências, enfim, o modo como dar-se-á sua inserção e participação no meio social. Ser homem ou mulher e pertencer ao gênero masculino ou feminino envolve, em nossa sociedade, criar uma identidade em oposição ao do sexo que não é o seu (o sexo “oposto”), distanciando-se dele e negando-o.

O modo como percebemos cada um dos gêneros pressupõe oposição e polaridade. O feminino é, na maioria das vezes, associado à fragilidade, à passividade, à meiguice e ao cuidado. Ao masculino corresponde agressividade, espírito empreendedor, força e coragem. Muitos são os adjetivos que podemos citar, mas fato é que a maioria dos atributos presentes em um gênero está excluída automaticamente do outro. A idéia de oposição entre os gêneros conduz, dentre várias conseqüências, à outras idéias equivocadas. Citemos duas delas:

ltodos os homens de uma mesma sociedade são iguais, assim como todas as mulheres também o são, como se não houvessem diferenças entre homens e mulheres de uma mesma sociedade e entre homens e mulheres de sociedades diferentes.

los homens sempre dominam e as mulheres sempre são dominadas. E, se por um lado, é verdade que os indivíduos do sexo masculino detêm maior e mais diversificado poder em nosso meio, por outro não há como afirmar que as mulheres não detêm qualquer poder. Ambos os sexos exercem diferentes e variadas formas de poder. O que é importante notar é que o poder é distribuído de maneira desigual entre os sexos e as diferenças sexuais são um forte critério nessa distribuição, tornando-se sinônimos de desigualdades. São exemplos disso as distinções salariais entre homens e mulheres,com a mesma qualificação e ao ocuparem um mesmo cargo, ou a existência de profissões “de mulher” (como é ainda considerado o Magistério) e outras exercidas majoritariamente por homens.

Relativizar e problematizar o que temos percebido, até o presente momento, como diferenças naturais e essenciais não significa anular ou, por outro lado, exaltar as diferenças entre homens e mulheres. A igualdade inclui e depende do reconhecimento da existência da diferença; se os indivíduos e grupos fossem idênticos não haveria necessidade de buscar a igualdade. Contudo, devemos ter claro que as diferenças não são “faltas”, carências ou pontos negativos, são apenas diferenças e não implicam, necessariamente, em desigualdade. O que percebemos como diferenças e a associação destas com a desigualdade (tornando-as, erroneamente, sinônimas) são frutos de construções sociais e históricas.

Questionar o que percebemos como diferenças entre meninos e meninas, homens e mulheres, e como tais diferenças são naturalizadas[4] pode concorrer para a explicitação e luta contra as desigualdades. A fragilidade, por exemplo, será mesmo algo inato nas meninas, assim como a agressividade dos meninos? Por que a função primeira das mulheres é cuidar dos filhos e a dos homens “ganhar a vida”? Por que é “natural” que uma menina queira ser professora e goste de crianças? Por que os meninos “não podem” brincar com bonecas e as meninas não jogam futebol com eles? Por que, em algumas escolas, há uma velada pressão para que as professoras usem aventais e alunos e alunas usem uniformes? Por trás disso estarão apenas as questões que dizem respeito a não sujar nossas roupas de giz e garantir a segurança dos alunos e alunas? O quanto e como a escola é implicada na produção e reprodução desses processos de desigualdade e de diferenciação “cristalizada” dos sujeitos?

Prestar atenção às questões relativas às relações de gênero e sexualidade, assim como desejar construir a proclamada igualdade, envolve lançar mão de novas concepções e de novos recursos de trabalho; problematizar o que, muitas vezes, percebemos como natural e “harmônico”; e considerar elementos que até agora foram silenciados na realidade escolar, como os corpos dos sujeitos envolvidos no processo ensino-aprendizagem, sua sexualidade, seus desejos e sentimentos. Para considerar tais aspectos há de se realizar investimentos pessoais e ter “disposição” para saber como nos constituímos em atores sociais, professoras e professores, mães e pais, filhas e filhos, trabalhadoras e trabalhadores, mulheres e homens. Queremos saber disso? Sobre isso? (Lopes, 1994, p.29).

 

 

 

Cotidiano escolar e Gênero

 

 

Criança com roupa                                                       Criança sem roupa
 
 
 
 

Esta ilustração encontrada em um livro didático soa como algo banal diante de nossos olhos ou suscita algumas questões? Se tomarmos, primeiramente, a figura da menina vestida nos deparamos com um visual absolutamente arcaico e fantasioso, distante do modo como vestem-se as meninas atualmente. Contudo, a cena mais preocupante corresponde à menina sem roupa. Com uma fisionomia envergonhada e constrangida, ela tenta esconder-se e comprime o próprio corpo, expressando, desta maneira, os preconceitos criados e recriados junto às crianças acerca de seus corpos, seus sentimentos e sensações. Vale notar que o sexo da criança retratada é feminino. O que reforça a idéia de que as meninas, mais do que os meninos, devem “preservar” o próprio corpo e guardá-lo dos olhos alheios, e até dos próprios olhos, remontando uma dupla moral que apregoa algum exibicionismo e o “desleixo” para o corpo masculino e o pudor e asseio para o corpo feminino.

Tal ilustração expressa, ainda, um lugar comum nos livros dedicados às crianças: procura-se ignorar a existência do corpo, utilizando-se de estratagemas para disfarçar e esconder as partes ditas vergonhosas e, assim, negar a sexualidade infantil, na tentativa de preservar a criança da sexualidade reservada aos adultos. (Barroso, 1980, p.45)

Ora, ao educarmos, somos responsáveis pelos alunos e alunas como “pessoas inteiras”, unidades que devem ser respeitadas e preservadas sempre e a qualquer idade. Tais pessoas são constituídas por corpos, emoções, desejos, vontades e sensações. Isso não se explica em meio à precisão de determinados conteúdos ou disciplinas, mas se aprende, se conhece e se sente mediante as muitas vivências, aí inclusas as horas passadas na escola. Nessa perspectiva, cabe à escola trabalhar corações e mentes, mas também os corpos; sem perceber estes como meros invólucros.

 

“ ...O corpo guarda marcas, inscritas através da educação: nas proibições, permissões, vergonhas, coragem, medos, dores, prazer, receios, ousadias, distanciamento e aproximações...O corpo tem seus sonhos, projetos e fantasias. O corpo sou eu. Por isso há tanto a conversar, a aprender, a conhecer.” (Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual - GTPOS, 1995, p.44)

 

A questão não se esgota no modo como lidamos, ou melhor, como negamos o corpo na escola; ou como os livros didáticos abordam o tema. Ao contrário, as desigualdades de gênero, as tentativas de ocultar o caráter social e histórico dessas desigualdades (e não natural, como muitos podem ainda querer crer) e, conseqüentemente, a reprodução de tabus acerca da sexualidade expressam-se de diferentes e variadas maneiras, cotidianamente na escola. A construção de homens e mulheres mais livres, criativos e democráticos torna-se um ideal cada vez mais distante de nossas salas de aula.

Quantas vezes já dividimos as crianças, durante algum jogo, em “time das meninas” e “time dos meninos”? Para consolar algum aluno após um rotineiro tombo dizemos “Vamos lá! Menino não chora!”? A escola em que lecionamos ministra aulas de Educação Física separadamente para meninos e meninas? Temos menos tolerância com as meninas diante do que consideramos indisciplina no ambiente escolar, uma vez que as julgamos, as idealizamos e as desejamos mais “quietinhas” e educadas? Ao abordar assuntos como “Família”, apresentamos algo que remonte aos comerciais de margarina que assistimos na televisão, nos quais o pai é o provedor, a mãe dona de casa e os filhos (de preferência um casal) são adultos miniaturizados? Ao tratar sobre “Profissões”, debatemos com alunos e alunas sobre a possibilidade de que aquilo que denominamos por “aptidão” possa corresponder, na verdade, à uma determinação profissional segundo os estereótipos de gênero? Quantas vezes já ouvimos (e acabamos por concordar com) frases como “O problema dessa escola é que tem muita mulher” ou “Essa escola tem problemas porque sempre que muitas mulheres se reúnem sai encrenca e fofoca”?

Questionarmo-nos acerca desses tópicos abre portas para relativizarmos aspectos há muito banalizados no cotidiano escolar e aspectos dados como naturais em nossas vidas também fora da escola. Se nos dispusermos a potencializar a escola como espaço privilegiado de construção da igualdade, nossos questionamentos e reflexões serão acompanhados de ações[5] que expressem os desejos por uma sociedade na qual homens e mulheres possam expressar os seus corpos e expressar-se com os seus corpos; possam usar a imaginação e a criatividade, exercitando-se nas múltiplas e diferentes relações e experiências que poderão ter, sem mais estarem circunscritos em um campo de gênero masculino ou feminino. O Relatório da IV Conferência Mundial sobre a Mulher, realizada em Beijin (China), aponta um caminho:

 

“A criação de um ambiente educacional e social onde homens e mulheres, meninos e meninas sejam tratados/as igualmente e encorajados/as a explorarem completamente seu potencial, respeitando a liberdade de pensamento, de consciência, de religião e de crença, e onde os recursos educacionais promovam imagens não estereotipadas de homens e mulheres pode ter resultado efetivo na eliminação das causas da discriminação contra as mulheres e de desigualdades entre as mulheres e os homens.” (ONU, 1995, p.29)

 

Se quisermos, realmente criar o ambiente educacional e social acima descrito e, conseqüentemente, atingirmos alguma emancipação dos estereótipos de gênero, penso que torna-se imprescíndivel termos professoras e professores conscientes do funcionamento desses estereótipos, tanto na escola como na sociedade em geral e, especialmente, em suas vidas de mulheres-professoras e homens-professores.

É mais difícil, senão impossível, lutar contra os preconceitos de alunos e alunas, se a professora toma atitudes discriminatórias. Como ela criará condições para que as crianças e adolescentes conheçam e lidem com suas idéias, sentimentos, corpos e sensações, sem que tenha conhecido e lidado com ela mesma. Como semear a igualdade em alunos e alunas, se esta ainda não é, na professora, uma árvore frondosa?

Desloco, assim, o foco de nossa reflexão para a questão da Formação inicial e permanente de professoras e professores. Para as professoras e professores em processo de formação e para aquelas/es já em docência, quais as possibilidades que se abrem ao refletir sobre o próprio processo de formação? Qual a relação que se estabelece entre a escolha pelo Magistério e sua identidade de gênero?

Ao refletirem a respeito de sua formação, as alunas e alunos de Magistério e as professoras e professores podem questionar e tentar compreender a que corresponde tal “escolha”. Compreender que, muitas vezes, o “tornar-se mulher” e “tornar-se professora” constituem-se faces de uma mesma moeda, legitimando o consagrado ideário a respeito do que seja “propriamente” feminino. De que maneira a formação oferecida nos cursos de Magistério “complementa” a formação ministrada pela família junto a adolescente de forma a criar e recriar os papéis considerados tipicamente femininos de mãe e professora? Como os alunos de Magistério encaram o fato de abraçarem um curso e uma carreira considerados femininos?

Refletir sobre a própria formação, sobre como se deu a inserção em determinado gênero e como vivencia-se tais estereótipos possibilita a problematização de uma determinada visão do exercício da profissão, faz emergir o ser professor ou o ser professora levando-se em consideração sentimentos e afetos, emoções e desejos, e, como não poderia deixar de ser, levando-se em consideração o sujeito em suas determinações de sexo e gênero, idade, raça/etnia e corpo. Reduzir a vida escolar às dimensões unicamente racionais, além de empobrecer o leque de experiências escolares, beira a impossibilidade, pois professoras e professores são constituídos de inseparáveis esferas pessoal e profissional. Penso que a educação de professoras e professores deva fazer-se tanto pelo conhecimento das disciplinas que se ensina quanto pelo conhecimento de si.

Deste modo, repensar a Formação de Professores/as, à luz das relações de gênero, é parte do caminho que temos que trilhar para construirmos a igualdade na escola. E, ao contrário do que possamos pensar, tal tarefa se perfaz cotidianamente, ao questionarmos o porquê de sermos professoras e de quais elementos reveste-se a nossa docência. Como tornamo-nos mulheres-professoras ou homens-professores? Como vivenciamos nossa identidade feminina ou masculina? Como percebemos e lidamos com nossos corpos e com os corpos de outras pessoas? As respostas à estas perguntas apontam caminhos para a construção da igualdade, caminhos que passam pela revisão das relações de gênero e da sexualidade na escola, e não só nela.

 

 

Referências Bibliográficas

 

 

BARROSO, Carmen. O corpo nos livros infantis. Trabalho apresentado na IV Bienal do Livro. São Paulo, agosto de 1980.

 

GRUPO DE TRABALHO E PESQUISA EM ORIENTAÇÃO SEXUAL (GTPOS). Sexo se aprende na escola. São Paulo: Olho D’Água, 1995.

 

LOPES, Eliane Marta Teixeira. Pensar categorias em História da Educação e Gênero. Projeto História. São Paulo, n.11, 1994, p.19-29.

 

NÓVOA, Antonio (org). Vidas de Professores. Portugal, Porto Editora, 1992.

 

SCOTT, Joan W. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação e Realidade. Porto Alegre,v.20, n.2, 1995, p.71-99.

 

USP/NEMGE/CECAE. Ensino e Educação com igualdade de Gênero na infância e na adolescência - guia prático para educadores e educadoras. São Paulo, Projeto USP/PRONAICA, 1996.


[1] Trabalho apresentado no II Congresso Nacional de Educação (CONED), realizado em Belo Horizonte, de 6 a 9 de novembro de 1997. E publicado no II Caderno de Educação da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Brasília, DF, dezembro de 1998.

[2] Doutoranda da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP).

[3] Adoto o feminino para referir-me às profissionais da Educação pois, como é sabido, é esmagadora a maioria feminina neste grupo.

[4] Naturalizar no sentido de atribuir um caráter inato, lógico e instintivo a processos, características e atividades que são construídas social e historicamente.

[5] Há um pioneiro e valioso guia destinado a educadores e educadoras, no qual são sugeridas muitas atividades e estratégias nesse sentido: Ensino e Educação com Igualdade de Gênero na infância e na adolescência:guia prático para educadores e educadoras. Projeto USP/PRONAICA, São Paulo, 1996.