LEITURA, INTELIGÊNCIA E DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM
Escrito por Vicente Martins
Seg, 25 de Julho de 2005 03:00
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LEITURA, INTELIGÊNCIA E DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM

Vicente Martins
Fátima Rodrigues

 

 Nas discussões atuais sobre leitura, inteligência e dificuldades de aprendizagem, os estudiosos levantam a tese das múltiplas inteligências que envolvem o processo ensino-aprendizagem. O entendimento é o de quie não se deve mais falar de QI (Quociente de Inteligência) e sim de diferentes inteligências, interesses e aptidões dos alunos.

Sem levar a questão para os extremos, diríamos que o Quociente de Inteligência é um parâmetro importante para avaliação diagnóstica dos alunos para que o professor, em outro momento, explore suas "múltiplas inteligências".

No passado, é verdade, o QI estava associado a rótulos (aluno inteligente, retardado etc); hoje, os conceitos concebidos a partir de uma psicologia clínica foram, do ponto legal (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), alterados para uma visão psicopedagógica: se estamos diante de crianças com dificuldades de aprendizagem, por questões orgânicas ou não, diríamos que estamos também diante de educandos com necessidades educacionais especiais.

Defendemos o QI para a definição segura de um diagnóstico pedagógico em que nós, educadores, excluímos outros fatores etiológicos (privação cultural, déficit visual ou auditivo etc) que podem estar afetando a matemática, leitura, escrita ou ortografia. O currículo por competências e habilidades não descarta a avaliação (ou, pelo menos, não deveria) do quociente de inteligência, que, como sabemos, é um consciente de cognição, do que o aluno é capaz, do que ele tem a oferecer, do que ele é capaz de aprender enquanto sujeito do processo ensino-aprendizagem.

 Outro ponto a ser considerado no conjunto de dificuldades de aprendizagem, particularmente no campo da lectoescrita, diz respeito a fatores como afetivo, timidez e  bloqueios emocionais dos alunos. Estes, no mundo escolar, na maioria das vezes, não são causas do fracasso escolar, mas efeitos de um modelo pedagógico deficitário e fracassado.

Nos modelos atuais de pedagogia escolar,  quem não tem desempenho satisfatório em sala de aula tende a se retrair, a se acanhar, a se bloquear emocionalmente. Ninguém nasce tímido, bloqueado, em se tratando de educação;  a escola -  podemos ter  essa certeza -  é muito responsável pela interdição do corpo e das emoção das crianças. No entanto, não é uma regra. Existem situações, como a que descrevemos, abaixo, cuja timidez é um fator inibidor, realmente, do processo ensino-aprendizagem.

         Para ilustrar o que nós colamos acima sobre as dificuldades de aprendizagem no período escolar, conteremos dois fatos  vivenciados nos processos de aquisição da leitura. Eis o primeiro caso a relatar.

 Em uma escola privada, havia uma aluna na alfabetização  que chegou ao mês de novembro do corrente ano letivo sem conseguir ler nada. A mãe e a própria professores se deram por desiludidas e quando a diretora da escola as chamou para uma reunião, a mãe, em especial, atendeu a convocação na certeza de que filha seria reprovada.

Para sua surpresa, a diretora pediu a mãe da aluna um tempo extra ao período escolar e fez a avaliação dela como um criança plenamente alfabetizada, afirmando gostar -  frisou a bem diretora -  de trabalhar com ela, sozinha, sem a presença de outra pessoa, dos colegas e da professora.

A técnica utilizada pela diretora alfabetizadora-interventora foi a seguinte: deu de presente à aluna  um baú de madeira e disse-lhe que ali estavam os segredos que a mesma  vinha guardando só pra si e, como ela – a diretora - estava lhe dando de presente o baú, gostaria que  aluna dividisse todos eles com a diretora. Surpresa! Quando a  aluna abriu o baú de lá saíram todas as palavras, sentenças e frases trabalhadas na "Cartilha da  ANA e do  Zé (de autoria de duas cearenses, as professoras Rosa Catarina e da Luísa Teodoro) e o que ela jamais havia lido pra ninguém, agora dominava todas. O problema da aluna era na verdade uma profunda timidez.

Segundo relato da mãe, hoje, a aluna é muito boa em tudo que se relaciona com leitura e escrita;  devora livros e revistas, escreve com perfeição. Mas a Matemática é o seu grande calo, eternamente "se arrastando".

O outro caso: uma aluna não aprendera a ler no período normal, na alfabetização, e não conseguira, doutra sorte, escrever coisa nenhuma num espaço menor que 20 cm.  No processo de escrita, não eram letras que fazia, e sim,  algo entre símbolos pré-históricos e essas pichações do séc.  XXI. Relata-nos que odiava  tanto a classe de alfabetização que não conseguia lembrar de nada relacionado com  ela (Cartilha do Fernando, Benedito e Silvinha), embora tenha  muitas e variadas lembranças do Jardim I. Aprendeu a ler em casa com um tio que morava com seus pais, que só tinha cursado até a quarta série, usando um livro chamado "O Jacarezinho Egoísta".

Fazendo o recorte para os nossos dias, é um absurdo que na alfabetização (vale salientar que, hoje, a própria LDB não reconhece mais as chamadas classes de alfabetização)  a escola pense em avaliação para promoção, isto é, de alguém, não ingressar no ensino fundamental (1ª série)  se for "reprovada" na alfabetização.  No primeiro ciclo do Ensino Fundamental (1ª a 4ª série) é lugar para aquisição e desenvolvimento da lectoescrita.

A idéia do baú, de  decantar a alfabetização como lúdico, desvelar o mistério das letras, é realmente interessante para as crianças (e adultos). Em qualquer época, abrirmos o nosso “baú”, para fazermos descobertas do surpreendente e daquilo que adormece em nossa alma  e que, somente, por essa via do imaginário, nos leva a  aprender bem,  uma vez que nós fazemos uma espécie de reflexão de si mesmos:  quem aprender a descobrir os “mistérios da vida”, aprenderá também a desvelar  o reino da linguagem. Não é um mistério saboroso dá som às letras na escrita alfabética?

         Nos anos de experiência em sala de aula, leva-nos a acreditar mais que a leitura é algo inerente à capacidade humana, como é o fazer de ninhos para os pássaros e a construção de teias pelas aranhas. Se isso pode transparecer uma inclinação ao inatismo, não nos parece de todo descartável. Quem duvidará do fracasso de aprendizagem das habilidades cognitivas  se pegarmos uma criança recém-nascida e a colocarmos  fora da civilização, veremos que a única leitura que realmente fará é a do mundo, à guisa da tese paulofreiriana. A leitura só pede ser efetivamente aprendida no lar ou na escola.

 A leitura é uma habilidade adquirida na interação com o outro, com o meio. Daí, falarmos em aprendizado da leitura. O mesmo não diríamos  da escrita, posto que nós nascemos com a disposição de escrever, de rabiscar e isso podemos ver em criança na mais tenra idade. Quem primeiro veio ao mundo da civilização? A leitura ou a escrita? Com certeza, a escrita:  a escrita cuneiforme surgiu, com os sumérios, há 5.300 anos a.C. Do pictograma à alfabetização, foi um longo percurso. Não mais de  100 anos atrás  não se falava tanto de leitura como o fazemos hoje: muitos povos  eram analfabetos. Depois, a leitura - seu aprendizado -  passou a ser um direito de cidadania, de alfabetização.

          Concordamos, por isso, com a hipótese de muitos educadores sobre o acesso ao código escrito: ler é só uma questão de estalo. Pra uns vem logo, pra outros pode demorar um pouco mais. Realmente, ler tem a ver com essa idéia de estalo (o insigt, como diriam os psicólogos). Cremos que o maior responsável pelo estalo é o alfabetizador: se  bem formado, é capaz de prever o momento de estalo do aluno, do seu soletrar, do seu converter letras em fonemas (sons da fala). Muitas professoras, na escola, dizem, em agosto,  assim, para os pais: mamãezinha, lá pra novembro, fique tranqüila,  seu filho começa a ler. Automatizada a conversão letra-fonema, a criança lê (decodifica).

O segundo estalo, mais importante, compreender o que lê, muitas vezes não  é assegurado na educação básica. A  escola tem se mostrado incompetente na tarefa de ensinar a estalar pela segunda vez para levar à criança à contemplação do reino da leitura.

 

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), de Sobral, Ceará.

Fátima Rodrigues, cearense, graduada e pós-graduada em Letras pela UFC. Atua no magistério da rede estadual e municipal de ensino em Fortaleza.