O UNIVERSO DO ATO DIDÁTICO: A CRIAÇÃO DE UM LUGAR?
Escrito por Profª Drª. Leny Magalhães Mrech
Ter, 02 de Janeiro de 2001 03:00
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O UNIVERSO DO ATO DIDÁTICO: A CRIAÇÃO DE UM LUGAR?(1)

Leny Magalhães Mrech

Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo

 

O que é a Didática? Qual é o universo da Didática? Qual é o universo do ato didático? Onde podemos encontrá-lo ? Estas são algumas questões que delinearemos nesta comunicação.

CONSIDERAÇÕES GERAIS

O que é a Didática?

Não há um conceito absoluto de Didática, que satisfaça a tudo e a todos. Ao contrário, o conceito de Didática é sempre relativo, dependendo fundamentalmente do prisma adotado por aqueles que a definem no momento. Esta relatividade de conceituação pode ser melhor percebida após a adoção por parte da Didática do conceito de paradigma. Este surgiu, inicialmente, ligado à Lingüística e à Filosofia das Ciências, no século XVIII, significando basicamente uma certa concepção ordenadora do mundo. Mas tarde, com as colocações de Ludwig Wittgenstein, Benjamim L. Whorf e Robin Collingwood, esta noção começou a adquirir os contornos cada vez mais próximos, àqueles que possui hoje em dia. Foi somente com Thomas S. Kuhn, no entanto, que seu esboço assumiu uma forma mais precisa. Kuhn concebeu paradigma como "as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência" . ( Kuhn, 1975)

Nas décadas de 60 e 70 e no início dos anos 80, muitas foram as críticas e revisões do conceito de paradigma. Contudo, é preciso ressaltar que a sua importância se manteve. Um dos aspectos mais importantes do conceito é que ele torna possível desligar dois outros conceitos que, até então, tinham estado sempre atrelados. Ele são os conceitos de teoria e de paradigma propriamente dito. Eduardo Prado Coelho afirma " o paradigma condiciona as teorias, mas não é teoria – está antes dela, acima dela. E o paradigma está representado pelas regras, mas não consiste no que delas se pode enunciar. Insistindo através das regras, ex-siste em relação a elas. Por isso, podemos dizer que o paradigma está também depois da teoria, nas regras que governam a aplicação, abaixo da teoria – sem que esteja". ( Coelho, 1982) Com isto, percebe-se que é do paradigma que a teoria pode ou não surgir; uma vez que nem todo paradigma tem uma teoria, mas toda teoria tem sempre um paradigma por trás.

Com isto, principalmente na década de 70 e no início dos anos 80, o modelo tradicional de Ciência começou a sofrer um forte ataque das novas concepções. A Ciência deixava de ser vista como neutra, chegando a ter algumas vezes sua própria existência contestada. O aspecto onde ela sofreu a crítica mais dura foi o da sua própria legitimidade. Assim, a Ciência entendida como o processo do saber institucionalizado viu as suas próprias bases minadas. Contestava-se, ao mesmo tempo, tanto a sua necessidade quanto o seu próprio processo de pensamento. Este fenômeno teve reflexos bastante exacerbados tanto na Educação de uma forma geral quanto na Didática de uma forma particular. É o momento em que surgem as indagações do tipo – Educação ou Didática para que, para quem ou o que é a Educação/Didática.

Tudo isto trouxe à tona um aspecto muito importante, que é o da discussão a respeito da autonomia da Didática, seus pressupostos e seu campo de atuação. No momento, já não se trata mais de assinalar que a Didática pode ser vista de uma forma diferente, por diferentes investigadores. Isto já é sabido, ou seja, o processo de nomeação da Didática será sempre relativo. O que se discute, atualmente, é a sua própria existência.

Como uma contribuição infinitesimal, apresentaremos agora a nossa concepção a esse respeito.

Uma Didática em si e/ou uma Didática para si?

Foi assinalado o papel desestruturador que a contestação do método científico tradicional trouxe à Didática, principalmente sob a forma de conhecimento específico. Coelho ( 1982: 85 e 86) ressalta que o saber passou a ser contestado duplamente: tanto em seu aspecto mais especulativo quanto em seu aspecto mais emancipador. Passou a existir uma profunda descrença, quando não uma desconfiança frente ao saber geral. Isto acabou por gerar uma situação paradoxal, porque, havendo uma necessidade de um saber cada vez mais abrangente, havia também a necessidade de um saber cada vez mais particularizado. Isto contribuiu para que as fronteiras entre os saberes acabassem por ficar mais tênues. A sociedade passou a exigir que o cientista tivesse características contraditórias, sendo, ao mesmo tempo, um especialista e um generalista. Os enfoques atuais tornaram-se cada vez mais interdisciplinares. O saber tendeu a se deslocar dos indivíduos, para recair nos grupos. Este processo levou a Ciência ao estabelecimento de novos critérios. Um deles foi o da competência. Não bastava que o saber fosse reconhecido como saber, ele precisava levar a algum grau de produtividade. Este fenômeno assolou diretamente à Didática, levando-a a uma concepção pragmatista. Ela só existiria se produzisse. Neste sentido, a Didática deixou de ser avaliada em função de sua própria existência, para sê-lo em função do seu grau de funcionamento prático. Um dos exemplos deste processo foi o deslocamento do eixo da chamada Didática Geral para as chamadas Didáticas Especiais, com as suas conseqüentes metodologias específicas. Ou seja, era preciso que o professor soubesse não só ensinar, mas também soubesse fazê-lo da forma mais precisa e eficaz.

Gostaríamos de assinalar aqui que estamos longe de destituirmos de importância as Didáticas específicas. O que criticamos é o seu enfoque exclusivo. O mesmo queremos acrescentar quanto ao privilegiamento único da chamada Didática Geral. Ambas formam um todo que não pode ser fragmentado, sob o risco de perder a si próprio.

É neste momento que indagamos qual seria a autonomia própria da Didática. Será que tornando o professor e os alunos suficientemente competentes a Didática terá solucionado o problema da sua própria existência? Não acreditamos que isto tenha ocorrido. Não será pela melhor operacionalização de sua prática que a Didática se afirmará. Nem será pela mera criação de novos paradigmas que ela se fundará. O problema da Didática é muito mais complexo. Por um lado, enquanto uma área do conhecimento humano, a Didática tem uma existência em si, objetiva e concretamente. A isto estamos chamando Didática em si. Por outro lado, se não considerarmos a sua existência a partir da colocação anterior, isto é, como uma existência de fato, fica muito difícil percebê-la em função de uma existência de direito. Falta a ela um certo espaço circunscrito "legalizadamente". Isto é, falta a ela um espaço chamado de direito. A partir das colocações de Roland Barthes (1979:69 a 78), ousaremos esboçar uma possível alternativa para a solução deste problema.

 

SEMA, SEMINÁRIO, SALA DE AULA – UM ESPAÇO EM ESTRUTURAÇÃO?

 

Qual é o universo da Didática?

A Didática é uma das áreas, assim como a Lingüística, a Antropologia, a Sociologia e a Psicanálise, pertencentes às chamadas Ciências Sociais ou Humanas. O que as caracterizam é o estudo da sociedade e do homem em seus múltiplos aspectos. Um dos mais importantes é o da linguagem.

E é exatamente na linguagem e na palavra que acreditamos encontrar uma das possíveis respostas ( e nunca a única), do universo da Didática. Para que fique mais evidente qual a nossa concepção de linguagem e de palavra, esboçaremos a seguir uma das suas possíveis definições, extraída das colocações de Jacques Lacan ( 1979:275):

" A palavra institui-se como tal na estrutura do mundo semântico que é o da linguagem. A palavra não tem nunca um único sentido, o termo, um único emprego. Toda palavra tem sempre um mais – além, que sustenta muitas funções, envolve muitos sentidos. Atrás do que diz um discurso, há o que ele quer dizer, e, atrás do que quer dizer, há um outro querer-dizer, e nada será nunca esgotado – se não é que se chega ao fato de que a palavra tem função criadora e faz surgir a coisa mesma, que não é nada senão o conceito".

Com tudo isto, queremos assinalar que a linguagem, através da Didática posta em ação – o chamado ato didático – acaba por criar um outro universo, que é o universo do símbolo, em um sentido mais abrangente. Ou seja, a palavra e a linguagem criam as coisas ( os conceitos, como fala Lacan ) e a si própria. Há, portanto, desde o início, a Didática entendida como o ato de conhecer.

O que é o ato didático?

Afirmamos que o ato didático é a própria Didática em ação. O que isto quer dizer? Quer dizer que a Didática só se realiza verdadeiramente quando há um ato de conhecimento, de qualquer tipo, em andamento. Ou seja, o ato didático nada mais é do que o próprio processo de ensino-aprendizagem. Ele pressupõe alguém ou algo que ensina, o conteúdo dado e alguém que aprende. Pode-se aprender em diferentes níveis, mas sempre existirá um ponto de partida, um meio e um ponto de chegada.

Qual é o universo do ato didático?

Falamos acima que a linguagem e a palavra desempenham um duplo papel – de instrumento de criação e de criação propriamente dita, na Didática. Qual seria, então, o universo do ato didático? É o que examinaremos a seguir.

Em um texto chamado No Seminário , Roland Barthes ( 1979: 69 e 78) articula uma provável resposta à questão que propusemos. A resposta seria que o univrso do ato didático é a criação de um espaço. Por espaço, Barthes entende a criação de um lugar que articula três outros espaços. O primeiro deles ele nomeia espaço institucional , onde " a instituição fixa uma freqüência, um horário, um lugar, por vezes um cursus". Chamaremos este espaço de espaço real. É aquele que independe do sujeito, porém que lhe fornece seus limites básicos: de tempo, de espaço, etc. O segundo tipo de espaço Barthes chama de espaço transferencial . Segundo o autor, é aquele onde as relações ocorrem. Designaremos este espaço de espaço imaginário. É onde todas as imagens do sujeito se formam, principalmente através dos vínculos interpessoais. O terceiro espaço proposto por Barthes é o espaço textual, que é onde se estruturam todos os textos. Nomearemos este último espaço simbólico. É o espaço do pensamento mais abstrato. Todavia, deve-se notar que nenhum desses três lugares tem maior importância do que os outros dois. Cada espaço, afirma Barthes, é, por sua vez, o suplemento, a surpresa dos outros dois ( Barthes, 1979:71) . É da interação entre estes três lugares que se cria um lugar outro, onde realmente o processo de ensino-aprendizagem ocorre. Com isto queremos dizer que, se houver falhas de elaboração num dos três espaços, o processo de ensino-aprendizagem ficará incompleto ou não se realizará. Se o espaço real não for elaborado, o sujeito ficará sem parâmetros "concretos" ( como tempo e espaço, por exemplo) para saber onde está. Se o espaço imaginário não se constituir , o sujeito se isolará em relação às demais pessoas. Se o espaço simbólico não se estruturar, o sujeito não terá uma resposta sua daquilo que foi aprendido. Ele copiará o professor, sem nunca criar algo de inteiramente original.

4. Onde se pode encontrar o ato didático?

O ato didático pode ser encontrado no que chamaremos, a partir de agora, no espaço didático . Este é o espaço de confluência dos outros três espaços ( real, imaginário e simbólico). Não obstante, pudéssemos acrescentar que a sua localização é mais imediata, sempre quando os três espaços anteriores estiverem estruturados.

 

CONCLUSÕES OU INCONCLUSÕES

Esta questão parece-nos fundamental, porque ela nos remete a uma concepção do que sejam a Educação e a própria Didática. Entendemos a Educação como o próprio processo de humanização. Este processo será sempre referido a uma dada sociedade dentro de uma certa época. Portanto, a Educação trabalha sempre com uma concepção de homem pré-datada, isto é, referida à uma sociedade dentro de um período histórico. Com isso, podemos perceber que o período da Idade Média tinha uma concepção distinta de homem, adaptada às necessidades da sua época. Um outro aspecto muito importante é que a Educação trabalha com um fenômeno que não se repete. Por mais que se queira, a Educação, a Didática e a Prática de Ensino trabalham sempre com processos que não voltam a ocorrer novamente. Uma aula nunca pode ser e nem é repetida. Mesmo as aulas gravadas, ao serem reintroduzidas, apresentam diferenças significativas entre si. O aluno ouve o repetido, mas escuta uma outra coisa, a sua diferença. Por isso, para nós, a Didática concentra-se na linguagem, constituída através do ato didático, que apresenta um fenômeno que é sempre novo. É a partir daí que acreditamos ser o lugar didático um espaço em constante processo de estruturação, e nunca um espaço estruturado. Com isso, a Didática poderia ser redefinida como a ciência do novo, a ciência que estuda o acontecimento que nunca se "repete".

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARTHES, Roland – BARTHES – DISCURSO, ESCRITA, TEXTO. Braga, Edições Espaço, 1979, p. 71

COELHO, Eduardo P. OS UNIVERSOS DA CRÍTICA – PARADIGMAS NOS ESTUDOS LITERÁRIOS. Porto, Edições 70, p. 42.

KUHN, Thomas S. A ESTRUTURA DAS REVOLUÇÕES CIENTÍFICAS . São Paulo, Perspectiva, 1975, p. 13.

LACAN, Jacques – SEMINÁRIO I – OS ESCRITOS TÉCNICOS DE FREUD. Rio de Janeiro, Zahar, 1979, p. 275.

(1)Trabalho apresentado no 3o. Seminário A DIDÁTICA EM QUESTÃO. São Paulo, Volume II, 1985, p. 304.