A TRANSFERÊNCIA DO IMAGINÁRIO
Escrito por Profª Drª. Leny Magalhães Mrech
Ter, 02 de Janeiro de 2001 03:00
Imprimir

A TRANSFERÊNCIA DO IMAGINÁRIO OU O IMAGINÁRIO DA TRANSFERÊNCIA : ASPECTOS DIFERENCIAIS DA ATUAÇÃO DO PSICOPEDAGOGO E DO PSICANALISTA EM INSTITUIÇÃO


Profa Dra Leny Magalhães Mrech
Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo

Um dos problemas mais sérios que enfrenta o psicopedagogo na supervisão institucional é aquele apresentado pelo imaginário. O registro do imaginário tece as relações entre as pessoas. Fala-se de imaginário institucional referindo-se ao conjunto de imagens que a instituição apresenta a todos aqueles que ali trabalham, bem como de registro do imaginário para referir-se ao conjunto de imagens do sujeito. No primeiro caso estamos frente a um imaginário grupal e no segundo frente a um imaginário individual.

1. O IMAGINÁRIO GRUPAL E A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO

Um dos aspectos mais importantes do imaginário grupal é que ele é feito à revelia dos sujeitos. Quando o psicopedagogo trabalha em supervisão é muito importante que ele levante qual é a história da instituição. É através dela que é possível perceber os chamados pontos de emperramento do processo de aprendizagem do grupo. Por exemplo, os professores assinalam que não adianta mexer muito e que as coisas na instituição são o que são. Com esta fala os professores já se colocaram em um plano de impossibilidade. A sua modalidade de aprendizagem já ficou retida e a sua inteligência, bem como a dos seus alunos, ficou aprisionada. Os fócos de impossibilidades grupais são os chamados fócos resistênciais. Ou seja, o grupo define até onde ele acha que é possível ir. Antes de ser uma real estruturação de limites do grupo, este processo revela uma crença, um modo de conceber as próprias relações grupais. Geralmente, a escolha dos limites do processo de mudança está muito abaixo do próprio potencial do grupo.

Em segundo lugar, mesmo que o grupo opte por mudar e acredite na mudança, a alteração da imagem interna, não se dá no mesmo espaço de tempo do que a imagem externa. Isto porque é necessário um longo tempo e um trabalho de divulgação da nova imagem, para que as coisas mudem externamente.

A imagem externa está vinculada aos contextos grupais mais abrangentes. Pode-se dizer que a mobilidade dessas imagens são menores do que aquelas apresentadas pelas imagens individuais ou dos pequenos grupos. A comunidade precisa passar por um processo de redefinição da antiga imagem grupal. Este processo é demorado e algumas vezes há uma recusa da comunidade em mudar a imagem da instituição. Nos casos em que a instituição tem um histórico negativo é preciso que o psicopedagogo vá muito devagar mas, ao mesmo tempo, atue de uma maneira bastante intensificada para que os supervisionandos não percam a vontade de continuar o processo de mudança, face ao processo da anterior esteriotipagem social.

Em terceiro lugar é preciso que o psicopedagogo tenha uma boa teoria que o auxilie em momentos de angústia e desestruturação do grupo. Uma teoria que possibilite que ele não caia nas armadilhas das imagens institucionais.

A instituição constantemente se refaz. A questão está em saber de que maneira ocorre este processo. Se a reformulação segue a imagem anterior o processo será o da reprodução da estereotipia, revelando uma instituição fechada. Se ela permite permite o processo de mudança da imagem, ela tenderá a se apresentar de uma forma mais aberta e permeável.

Maud Mannoni assinalava a importância da instituição passar sempre, através da fala, por um processo de modificação contínuo, onde ela se repensasse. A este processo ela nomeava de instituição estilhaçada. Ela acreditava que quanto mais móvel for a imagem da instituição, mais facilmente ela mudará os parâmetros dos seus participantes. Se acontecer a situação inversa maiores serão as dificuldades que encontrará o psicopedagogo para auxiliar os profissionais a mudarem a sua modalidade de aprendizagem.

Um quarto aspecto a ser assinalado é a importância da alteração contínua da próprio modalidade de aprendizagem do supervisor. O psicopedagogo é o primeiro a ter que se repensar continuamente em um processo de mudança. Se a sua modalidade de aprendizagem estiver solidificada ele não poderá acompanhar as mudanças do grupo e crescer com ele. O grupo pára onde o supervisor resiste. Neste sentido, é preciso que trabalhemos um pouco mais aprofundadamente o registro do imaginário como base para se pensar a questão das imagens individuais.

2. O REGISTRO DO IMAGINÁRIO E A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO

De onde parte Lacan para trabalhar com o registro do Imaginário? Ele parte das colocações de Henri Wallon.

Inicialmente Lacan elabora o registro do Imaginário se estruturando em colocações wallonianas tais como a seguinte:

" Em psicologia é corrente supor-se que o sujeito deve tomar consciência do seu 'eu' antes de poder imaginar o dos outros, que um é conhecido por intuição ou experiência direta e o outro por simples analogia, que constituem dois objetos inicialmente distintos e que pode haver quando muito projeção do primeiro no segundo. Toda uma longa tradição liga a consciência a uma realidade profundamente individual, onde ela representaria um poder de introspeccão. Desta introspecção dependeria o mundo íntimo e fechado da sensibilidade subjetiva. A criança principia pelo autismo e passa pelo egocentrismo antes de poder imaginar os outros como parceiros capazes de encetar relações de reciprocidade." WALLON,HENRI - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO NA INFÂNCIA.Lisboa,Editorial Estampa,1975,p.150.

Na concepção psicológica tradicional o sujeito está fechado para o mundo. No início, não há percepção do objeto, só do sujeito. Wallon faz a crítica desta posição assinalando:

"Na progressão indicada por Piaget, o que é exato é o alargamento gradual do campo onde podem desenvolver-se a atividade e os interesses da criança. Mas não parece que a consciência individual seja um fato primitivo. Não há autismo e egocentrismo: sistema fechado que mais tarde deverá abrir-se às exigências da compreensão mútua no meio social. A consciência não é a célula individual que deve um dia abrir-se sobre o corpo social, é o resultado da pressão exercida pelas exigências da vida em sociedade sobre as pulsões dum instinto limitado que é o mesmo do indivíduo representante e joguete da espécie. Este 'eu' não é então uma entidade primária, é a individualização progressiva duma libido primeiramente anônima à qual as circunstâncias e o desenrolar da vida impõem que se especifique e que entre nos quadros de uma existência e duma consciência pessoais". WALLON,HENRI - ob. cit,p.152.

Para Wallon, seguindo muitas das colocações de Vygotsky, o sujeito se tece no social. Ele é um produto do social. Qual a diferença de se partir de uma posição que privilegia uma concepção que acredita que desde o início o sujeito já está dado bem como o objeto e uma que privilegia a construção do sujeito e do objeto? No primeiro caso, fica-se com as imagens e no segundo com o sujeito. Pressupor que a instituição é um imaginário formado e imutável ( o que vem acontecendo de uma maneira violenta na escola pública, por exemplo), é ficar com as imagens solidificadas e resistenciais da instituição. Neste caso, é dar à instituição uma imagem corporificada, densa, agindo quase como um ser ou uma entidade autonoma. Este foi o erro das concepções reprodutivistas da escola, que acabaram por desencadear uma imagem das instituições escolares, onde nunca haveria uma mudança. Elas seriam sempre a perpetuação do modelo capitalista ou comunista. Na verdade, esta é uma concepção simplificadora que reduz os parâmetros institucionais a apenas uma variável.

A forma mais constante de externalização do imaginário é a de constituir-se em um "ser" - é bastante comum tanto do ponto de vista do imaginário grupal quanto individual. O imaginário caracteriza-se fundamentalmente por tomar a imagem uma representação dura do objeto. É como se a imagem ganhasse um corpo e se constituisse para se contrapor ao próprio objeto. É como se a sombra quisesse se fazer passar pelo sujeito, como se a imagem da instituição quisesse se fazer passar pela instituição.

Lacan assinala que o imaginário é a fonte de alienação do sujeito. É onde ele se paralisa através da visualização da imagem especular. Ou seja, o imaginário atua para que fiquemos presos na imagem do espelho e não na escuta do sujeito ou do objeto.

Por isto é fundamental que o supervisor de psicopedagogia atue fazendo falar à instituição e aos sujeitos que dela fazem parte. Somente a palavra(o simbólico) quebra o circuito de imagens solidificadas.

2.2. Aspectos individuais

No entanto, sem dúvida, é no plano individual e não no grupal que o Imaginário exerce um poder de impacto maior. Segundo Lacan isto ocorre porque há uma confusão bastante grande entre uma série de termos. Para Lacan há dois aspectos básicos que estão em jogo: o primeiro refere-se à confusão entre a consciência e o ego e o segundo entre a consciência e o sujeito do inconsciente.

A consciência foi tida durante muitos séculos como o lugar do pensamento do sujeito. Ela foi fundamentalmente trabalhada ao longo dos séculos pelos filósofos. A consciência sempre foi vista como autoconsciência, isto é, como aquilo que dentro do sujeito se move por si mesmo. Lacan faz a crítica deste tipo de estruturação mental e de construção do pensamento. Ele revela que é como se a consciência se entificasse, a imagem criasse vida e se fizesse passar pelo sujeito. Seja no âmbito do imaginário grupal quanto no imaginário individual a autonomia da forma é um conceito que Lacan sempre criticou. A forma cria uma aparência de vida que se faz passar pela coisa. A forma autonoma é apenas uma imagem vivificada, o que não quer dizer que ela exista realmente, mas que ela tende a assumir uma aparência de existência real. Dizer que uma classe especial é uma "classe de louquinhos" não quer dizer que se aprendeu as bases do seu funcionamento, mas exatamente o seu inverso. O sujeito se prendeu à forma e perdeu o conteúdo. Dizer que uma escola é de periferia e que os alunos são da favela, não quer dizer que se apreendeu a escola e os alunos. As imagens se formaram e se estabeleceram à frente do próprio plano de percepção do professor. Com isto perde - se o professor, os alunos e a escola.

Sob este aspecto é fundamental que o psicopedagogo em sua atuação evite a transferência do imaginário, tanto para o indivíduo quanto para a instituição. Daí a importância dos supervionandos falarem a respeito do seu processo. Deles mesmos tecerem o que está acontecendo com eles. A interpretação do psicopedagogo introduz uma outra imagem, um outro símbolo. É preciso que os supervisionandos se falem para que possam se escutar e estabelecer imagens e símbolos mais próximos da coisa real.

3. O PSICOPEDAGOGO DE ORIENTAÇÃO PSICANALÍTICA

Cumpre ressaltar que há uma diferença primordial no processo de atuação do psicopedagogo de orientação psicanalítica lacaniana. Enquanto o psicopedagogo faz o seu supervisionando falar, o psicopedagogo de orientação psicanalítica precisa fazer um outro trabalho ainda mais específico: é preciso que todas as imagens sejam quebradas. Não deixar que os sujeitos percam a escuta e privilegiem uma imagem ou outra. Isto porque o psicopedagogo de orientação psicanalítica lacaniana trabalha com a dinamização do circuito do imaginário. Ou seja, ele tem por objetivo fazer o sujeito repensar todo o circuito de imagem.

Com isto, gradativamente, o supervisionando começa a perceber que atrás do circuito das imagens há uma matriz simbólica. Em suma, cada supervisionando começa a perceber que tem o seu próprio conjunto de imagens distinto dos demais. Este conjunto de imagens o remete a uma relação e posição inicial em que ele foi colocado pelo Outro. É o momento em que o supervisionando começa a perceber a importância de trabalhar este processo, mais aprofundadamente, em sua própria análise.

Este é um momento de enorme resistência por parte do supervisionando. Ele tende a se vincular ao que ele já conhece previamente. Ele deseja que o psicopedagogo deixe de indicar a mobilidade das imagens. É como se ele precisasse reduzir a velocidade de percepção das imagens, tentando parar o circuito imaginário em algo que ele já viu. Este é um momento que lembra o chamado "medo de aprender" de Bion. Neste nível, as emoções podem emergir, principalmente as mais primárias, tais como: os medos, as angústias, as agressividades de diferentes formas, etc. O supervisionando agride, sente-se mal e questiona para não possibilitar que entre no circuito psicopedagógico aquilo que ele conserva com mais carinho: as suas imagens ideais. Sintetizando, o supervisionando paralisa o processo de aprendizagem do novo para não perder os seus ideais. É o momento em que a supervisão psicopedagógica esbarra no Ideal do Eu ou no Eu Ideal.

O Ideal do Eu surgiu inicialmente na família. Faz parte de todas as imagens que a família acredita terem um valor máximo. Neste sentido, ao seguí-lo o sujeito se sente seguindo algo estável que já conhece. Algo que ele "sente" que é "verdadeiro". Ao seguir o Ideal do Eu o sujeito se sente apoiado pela família e por seus amigos.

O Eu Ideal é o circuito das imagens ideais do sujeito. É aquilo que ele mais acredita e que tem uma ligação imediata com o que ele acha que possui de melhor e pelo qual ele pode, e deve, ser valorizado pelo outro. Quando as pessoas reconhecem a atuação do sujeito e ele se sente "cheio" , "pleno", "o máximo". Na verdade, "aquilo" que foi reconhecido, foi apenas uma imagem. A imagem que o outro fez dele. Uma imagem que o sujeito acredita ser a mesma imagem que ele tem na sua cabeça. Ou seja, em função da existência da linguagem, não se chega aos sujeitos diretamente, mas apenas às imagens e aos símbolos que eles apresentam.

O sujeito está em outro lugar. Para alcançá-lo o sujeito terá que fazer a escansão contínua entre o Eu e o Outro, ou seja, a imagem que ele tem de Eu e a imagem que ele tem do Outro. A imagem que ele tem do Eu Ideal e a imagem que ele tem do Ideal do Eu. Henri Wallon já explicitava este processo: " A elaboração do Eu e do Outro por parte da consciência faz-se simultaneamente. São dois termos conexos cujas variações são complementares e as diferenciações recíprocas. Supôs-se algumas vezes que o Eu era constituído por condensação da sensibilidade mais subjetiva e que o Outro o era por expulsão das imagens exteroceptivas. Esta oposição não é exata. De fato, o Outro faz-se atribuir de tanta realidade íntima pela consciência como o Eu e o Eu não parece comportar menos aparências do que o Outro." WALLON,HENRI - OBJETIVOS E MÉTODOS DA PSICOLOGIA.Lisboa,Editorial Estampa,1975,p.159.

O Eu e o Outro são imagens que construimos de nós mesmos e do Outro. O Eu e o Outro são imagens que foram construídas e que acreditamos nelas, incorporando-as. Um problema fundamental é que geralmente em supervisão essas imagens são tomadas como sendo os sujeitos concretos. Do tipo : "Eu sou assim e você é do outro jeito". "Nós não vamos mudar" . "Você não vai mudar". "Eu não vou mudar". "O aluno não vai mudar". Em suma, o conteúdo do supervisionando torna-se essencialmente resistencial frente à possibilidade de quebra das suas imagens. Neste momento, é possível que haja uma quebra na relação psicopedagógica. É o momento em que, para não mudar, o supervisionando quebra o vínculo transferencial.

É importante perceber que enquanto o psicopedagogo de uma orientação objetiva recebe o conteúdo transferencial em alguns momentos; o psicopedagogo de orientação psicanalítica está recebendo este conteúdo continuamente.

Quando chega o instante de trabalhar com as imagens ideais, o supervisionando começa a receber a agressividade do supervisionando. É o momento que ele deixa de bascular as imagens apresentadas pelo Eu e pelo Outro. Isto é, o Eu e o Outro fazem parte do mesmo bloco. Eles constituem a mesma cena. No Eu o sujeito faz a cena e no Outro ele se observa e se julga. O conteúdo que ele reconhece mais facilmente encontra-se no Eu e o conteúdo que ele reconhece menos encontra-se no Outro. Quando a relação transferencial se intensifica negativamente há uma quebra e uma constituição de circuitos independentes a do Eu e a do Outro. De um processo onde havia o Eu e o Outro mesclados, há uma passagem para ou Eu ou Outro separados.

Lacan dizia que no circuito de alienação o Eu e o Outro estão confundidos. Na operação de separação o Eu e o Outro se diferenciam, sepando-se em dois blocos. Pode-se dizer que no momento da alienação o dentro e o fora, o Eu e o Outro estão sempre confundidos para o sujeito. Na operação de separação o dentro e o fora, o Eu e o Outro se diferenciam.

Tomamos como paradigma aqui o processo de interação do supervisionando com o psicopedagogo. Mas podemos pensar este mesmo processo em situações tais como o vínculo que o professor estabelece com a instituição, com os colegas, com a criança. É importante que o vínculo que se encontra no Outro seja resgatado para que o supervisionando possa perceber o que realmente está ocorrendo.

É um instante onde emerge um conteúdo resistencial bastante intenso por parte do professor. Ele pode se acreditar sem condições de mudar. "Se eu começar a pensar desta maneira, eu me perco". "Se eu olhar o aluno de um outro modo, vou ter que mudar a minha forma de conceber as outras crianças. Ou seja, a mudança instituiria uma outra forma de conceber o dentro e o fora. Assim, muitas vezes, o professor faz uma opção pelo pior. É melhor deixar tudo como está; pois isto funcionou sempre em minha vida. Por que vai deixar de funcionar agora? " . O que o professor não percebeu é que esta sua forma ideal de atuação já se encontra defasada. Ela não está funcionando mais.

Quando a fala se paralisa, o processo de trânsito entre o Eu e o Outro deixa de acontecer e tende a se solidificar. A teoria psicanalítica parte de uma concepção cuja base do circuito de transformação dos sujeitos se encontra no processo de associação livre. Esta remete para o registro do real. Um registro que Lacan designava como o do discurso sem palavras. Com isto queremos dizer que os professores geralmente acreditam nas suas palavras, não percebendo que elas são aparência e verdade ao mesmo tempo.

Através da associação livre uma idéia remete à outra. Uma imagem à outra. Uma imagem ideal remete à outra. E assim por diante. Não há como parar o processo. Não há nenhuma imagem que deva ser privilegiada antes da percepção daquilo que se tece através da palavra. Este processo é bastante comum em situação de sala de aula quando a professora apresenta uma recusa em relação a um determinado aluno. Ela pára de resgatar o seu conteúdo que se encontra no Outro. Até que haja uma ruptura final onde os dois não podem mais conviver em conjunto. A saída que Lacan encontrou de fazer a crítica ao registro do Imaginário não aconteceu ao acaso. Ele se deu conta que enquanto alguns autores acreditavam na imagem, estas pareciam emperrar o próprio processo que se estruturava através delas. Lacan conseguiu fazer a passagem para um mais além da imagem. Diana Rabinovich explicita este processo em Lacan:

" O movimento como tal, a inquietude de alguém que quer ser algo que todavia não é, que quer se tornar outro do que é, é o que caracteriza os distintos momentos da consciência de si, que sempre quer se tornar outra, diferente da que foi em seu passado, assumir outra figura". RABINOVICH,DIANA - LA ANGUSTIA Y EL DESEO DEL OUTRO.Buenos Aires,Editorial Manantial,p.23.

Há no sujeito uma busca da identidade estruturada de forma definitiva. Estruturada de um modo tal que uma vez constituída a imagem primeira, ela tenda a se perpetuar. No entanto, o que caracteriza o ser humano é exatamente esta mutabilidade constante. As imagens não permanecem, as imagens se trocam e se confundem entre si, como reflexos no espelho. A imagem do espelho não é o sujeito, ela revela apenas um reflexo estruturado.

Lacan assinala que é exatamente porque o sujeito não tem identidade é que ele pode identificar-se e assumir as identificações. O papel do psicopedagogo de orientação psicanalítica em instituição é revelar que o sujeito não está na imagem, no processo identificatório, mas em outro lugar, em outra cena.

4. A ATUAÇÃO DO PSICANALISTA EM INSTITUIÇÃO

Enquanto o psicopedagogo de orientação psicanalítica na instituição trabalha com a quebra das imagens e dos estereótipos. O psicanalista atua na instituição a partir de um outro eixo. Por sua formação especializada ele tem condições de trabalhar na escuta de uma frente específica que é a questão fantasmática, vinculada ao desejo do Outro.

Por que Lacan dá importância ao desejo do Outro no processo de estruturação do sujeito e não à imagem? Porque é através do desejo do Outro que se tece o universo do sujeito, o mundo, a cena fantasmática de onde tudo vai se estruturar.

O Outro, no sentido lacaniano, refere-se a uma posição simbólica, a um lugar onde o discurso familiar constituiu o sujeito. Uma posição originária onde o sujeito foi visto, percebido, amado, desejado ou não visto, não percebido, não amado, não desejado. Em suma, o Outro é aquele que me vê, aquele que sabe de mim, aquele a quem eu pergunto e ele responde sobre as minhas coisas. O Outro revela uma posição simbólica de onde o sujeito se escuta e se vê.

Não se trata de um Outro concreto ou de um ouitro especular, que revela apenas como o sujeito se vê no momento. Um dos perigos mais sérios é o sujeito acreditar que este Outro existe, que ele é real. Pois, com isto ele passa a concretizar as suas relações e deixa de perceber que elas são tecidas na e pela linguagem e fala.

A psicanálise revela que é fundamental que o psicopedagogo não se reduza a este processo, ou seja, que ele não se creia o Outro do saber que o sujeito lhe atribui. O saber é sempre suposto. Ele se dá a partir da relação transferencial. Em suma, é preciso que o psicopedagogo não tome o processo simbólico como tendo uma existência real. Não é porque se capturou o sentido e o significado de determinadas ações e sujeitos que nós os apreendemos.

Assim como o psicopedagogo não tem a resposta do sujeito, o psicanalista também não tem. Para onde ele pode remeter o sujeito é apenas para a escuta do desejo e para o registro do real. Sintetizando o pensamento lacaniano Diana Rabinovich revela que :

"O Outro está ali como inconsciência constituída como tal, e involucra o meu desejo em função do que lhe falta e que ele não sabe que lhe falta. No nível do que lhe falta e que ele não sabe, me encontro involucrado da maneira mais pregnante, porque não há para mim outro rodeio que me permita encontrar o que me falta como objeto do meu desejo". RABINOVICH,DIANA - LA ANGUSTIA Y EL DESEO DEL OTRO.Buenos Aires,Manantial,1993,p.14.

O psicanalista na instituição introduz a castração. Ou seja, o Outro também não sabe. E ele também não tem a resposta. Há a constatação da falta. Há a constatação de que a resposta tem que ser buscada em função do desejo do Outro e do desejo do Sujeito, mas que ela é sempre parcial. Ou seja, não há como o sujeito saber e se satisfazer plenamente. No mundo da linguagem lidamos sempre com palavras, com imagens e com símbolos que deslisam continuamente. A coisa que poderia nos satisfazer sempre nos escapa. A castração introduz um processo contínuo no sujeito de escuta do desejo:

"Há uma diferença radical entre a satisfação de um desejo e a corrida em busca do acabamento do desejo - o desejo é essencialmente uma negatividade, introduzida num momento que não é especialmente original, mais que é crucial, de virada. O desejo é apreendido inicialmente no outro, e da maneira mais confusa. A relatividade do desejo humano em relação ao desejo do outro, nós a conhecemos em toda reação em que há rivalidade, concorrência, e até em todo o desenvolvimento da civilização". LACAN,JACQUES - OS ESCRITOS TÉCNICOS DE FREUD.Rio de Janeiro,Zahar,1979,p.172.

O que há por trás do imaginário é o desejo do Outro. O desejo do Outro estrutura a matriz simbólica do imaginário que forma todo o conjunto de imagens do sujeito. É como se o simbólico fosse um projetor que jogasse as imagens em um determinado lugar. Os filmes, as imagens podem mudar. Mas o projetor - a menos que seja mudado de posição - remeterá as imagens sempre para o mesmo local. Não importa que este local não seja o mais visível .O que importa é a posição do projetor.

O conceito de Desejo do Outro introduz uma outra ordem de posicionamento, uma outra postura no sujeito que é a busca pelo acabamento do desejo. Ou seja, saber porque o seu projetor remete a um lugar determinado e apresenta um certo número de filmes. Sem abordar a partir da óptica do psicanalista o processo do sujeito parecerá sempre fragmentário e sem sentido. Um processo contínuo de quebra de imagens. Há uma lógica que o sujeito precisa atingir para saber porque o seu projetor foi colocado de uma determinada forma. Somente estruturando-a através da análise o sujeito poderá perceber que não é ao acaso que o seu projetor foi colocado naquele lugar e que apresenta um determinado rol de filmes. Só atingindo o fantasma primário o sujeito consegue saber a respeito da montagem do imaginário e do simbólico, em função do registro do real. Mas este é um aspecto que só pode ser trabalhado na análise individual do sujeito. Por mais que se delineiem os fantasmas secundários na instituição, eles não conseguem revelar porque certos sujeitos foram atingidos por eles e outros não. Somente o fantasma primário tem a resposta que permite o esclarecimento deste processo. Mas isto só é possível se descobrir na análise pessoal do sujeito.

Texto publicado inicialmente na Revista Brasileira de Psicopedagogia. Revisto e ampliado para a inclusão neste site.