ALFABETIZAR: O DILEMA NOSSO DE CADA DIA
Escrito por Marina S. Rodrigues Almeida
Sáb, 03 de Agosto de 2002 03:00
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ALFABETIZAR: O  DILEMA NOSSO DE CADA  DIA

 

MARINA  S.  RODRIGUES ALMEIDA
Psicóloga, Pedagoga  e Psicopedagoga
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         Refletir sobre essa questão, a alfabetização , veio pelo fato de estar  trabalhando numa instituição pública, NUMAPS- Núcleo Municipal de Atendimento Psicopedagógico, organizado e coordenado por mim desde 1997, que atende  crianças de 6 a 12 anos com dificuldades de aprendizagem, da Rede Municipal de Ensino  na cidade de São Vicente . Neste local  intervimos nas áreas psicopedagógica e fonoaudiológica .

Nos últimos anos observamos que a faixa etária entre  10 a 12 anos tem  chegado ao  nosso serviço apresentando sérios  problemas com alfabetização encontram-se num período alfabético-silábico, e essa demanda  vem crescendo significativamente , levando-nos a pensar sobre quais os fatores que poderiam estar interferindo neste processo  e como poderíamos intervir do ponto de vista educacional.

Sabemos que para aprender a ler e a escrever precisamos pensar sobre a escrita, pensar sobre o que a escrita representa, como a mesma representa graficamente a linguagem, que por sua vez está diretamente ligada aos pensamentos afetivos e que  foram processados singularmente.

Portanto estamos propondo a idéia de que há uma cadeia de significantes e significados, co-ligados por relações afetivas, sócio-culturais, interacionais, construídas ao longo do desenvolvimento humano. Sem dúvida não descartamos as possibilidades orgânicas e demais variáveis que possam interagir no processo da alfabetização/alfabetizador, porém nos deteremos neste recorte, já que as demais variáveis não fazem parte do escopo deste artigo.

         Hoje temos uma variedade  de teorias, técnicas e modelos para a alfabetização e por outro lado encontramos ainda  uma demanda de alunos que não se “encaixam” em nenhum destes modelos conhecidos.

         Chegamos ao ponto, o “conhecido”, muitas vezes  a procura de algo familiar transforma a prática educativa em regra , levando a imposição, a rigidez conduzindo a falta de resultados no processo de alfabetização.

Nestes momentos o educador se depara com  sentimentos de impotência,  desânimo, irritação, etc. Por outro lado no  aluno,  iniciam-se  ou acentuam-se os comportamentos de apatia, agressividade, desinteresse, baixa freqüência às aulas, etc. Sem que se percebam  educador/aluno estão presos na normatização do Sistema Educacional.

Encontramos então um impasse nessa relação professor/aluno, ambos paralisados e oprimidos  pelo desejo do conhecimento perdido?! O que fazer?

Vamos  refletir um pouco do ponto de  vista cultural, a pós-modernidade,  sendo pensada como intensificadora desse processo.

A característica da sociedade  pós- moderna é  a fragmentação social, o individualismo, o consumo  mercantil-tecnológico, a classe média, a flexibilidade das idéias e dos costumes, a liberação sexual, a educação permissiva, o desejo pelos bens de serviço no lugar do poder, o mundo das especialidades e ou especialistas, etc..

.O indivíduo  vive um tempo fugaz, hendonista e narcisista,  mexendo com suas perspectivas e referências diante do conjunto social. A história, a democracia, a família, a religião e a ética tendem a esfriar, os indivíduos estão se concentrando em si mesmos, hiperprivatizando suas vidas, o que conta é o aqui-agora.

Esse panorama reflete a  nossa realidade atual, e revela a realidade  de quem são nossos alunos, esses muitas vezes  impregnados por uma cultura paralisante.

Segundo BAUDRILLARD*(1993), a sociedade vive com o advento da pós-modernidade, um imenso processo de  destruição de significados, igual a anterior destruição das aparências provocada pela modernidade.

O que parecia estar seguro e representar algo de certeza, perde as certezas. No pós-moderno, as informações se tornaram produto de manobra, os fatos são transmitidos  através de uma comunicação racional, banal, perdendo o sentido e o conteúdo emocional.

Tudo isso  fazendo parte dos noticiários (imprensa falada/escrita), das novelas, dos desenhos, dos filmes  veiculados pelos meios de comunicação de massa, como exemplo predominante à televisão. Equipamento eletrônico presente na grande maioria das casas dos  brasileiros e muitas vezes sendo a única fonte de relação/informação com o mundo.

A pós-modernidade tem como característica  colocar a prova os avanços da ciência, questionando constantemente, gerando paradigmas e pluralidade de pensamento, porém revestida como mercadoria de consumo e poder.

Sendo assim, a educação faz parte desta dinâmica também, para falarmos em Alfabetização é imprescindível falar do Alfabetizador.

Precisamos considerar a “produção do saber escolar”,  em que  condições  desenvolvem a formação profissional e a humanização do conhecimento no mundo contemporâneo, tarefa essa nada fácil para o Sistema Educacional!

Portanto propomos o modelo do EDUCOMUNICADOR, segundo a autora JACQUINOT**(1998). “Não é um professor especializado encarregado do curso de educação para os meios. É um professor do século XXI, que integra os diferentes meios nas suas práticas pedagógicas.”

Essa nova identidade profissional tem a dupla função teórica, unir as ciências da educação  com as ciências da comunicação. Tentaremos neste papel  unir os vários aspectos da aprendizagem , buscando nos meios de comunicação de massa, como por exemplo à  televisão sendo a coadjuvante desse processo facilitador.

Sendo assim, necessitamos  nos destituir  dos  pré-conceitos sobre a TV, mas considerá-la como a aliada mais próxima da comunicação, linguagem e modelos identificatórios que nossos alunos possuem em seu cotidiano, aliás muitas vezes  fazendo o papel de companhia na ausência dos pais.

Sabemos por meio de pesquisas já realizadas que o público de alunos que assistem à televisão, independente de sua faixa etária, têm uma identidade formada sob diferentes aspectos, história pessoal ,  camadas sociais diferentes, mas destacamos particularmente o saber: que é fragmentado, pautado na imagem,  no imediatismo e destituído de significados.

O educomunicador,  portanto  tem esta função,  fazer as  inter-relações destas  culturas.

Muitas escolas da nossa Rede Municipal, possuem equipamentos eletrônicos, como TV e vídeo-cassete, porém o que notamos é o uso ineficiente e/ou raramente utilizam-se deles como recursos pedagógicos em sua sala de aula, também muito pouco é aproveitado das comunicações orais  que os alunos trazem sobre o que assistiram na  “telinha”.

Os alunos chegam à escola dominando a  linguagem oral (variante empregada por seu grupo social), influenciada pelo padrão familiar, televisão e membros da sociedade que estão culturalmente inseridos. Essa linguagem tem uma  função para a vida infantil :sua adaptabilidade  à realidade, facilitar os relacionamentos, expressar seus  sonhos, desejos, opiniões, bem como seu ingresso à vida ajudando na conquista de sua autônoma.

Portanto temos  um fato a  considerar: as crianças já chegam a escola com relativa desenvoltura, cabe ao professor dar continuidade a essa linguagem sem interrompê-la de forma brusca, impondo as normas do  padrão culto (variante normatizado pela cultura).

A intervenção mediadora do professor pressupõe  transformar os  conjuntos de fragmentos e informações  trazidos pelo aluno (cultura, emoções, linguagem, etc...)  transformando-os em um conjunto integrado, e é sem dúvida uma das tarefas mais difíceis da escola atualmente.

Notamos sem dúvida, que as escolas e educadores que apresentarem menor resistência para admitirem que a apropriação do conhecimento e dos valores mudaram sobre a influência  pós-moderna, terão maior chance de modificarem o quadro atual de alunos com inibição na alfabetização e conseqüentemente conseguirão sucesso na alfabetização.

Segundo JACQUINOT (1998), historiadores e filósofos mostraram muito bem que a escrita e depois a impressão não mataram o saber, contudo modificaram a referencia do saber, isto é, as condições de sua transmissão, através da aprendizagem que era mecânica,  por repetição,  memorização, correspondente da linguagem oral. Ao aparecer a imprensa, valorizou-se o sentido da visão em detrimento dos outros sentidos, donde o interesse  foi delegado a imagem simbólica.

Os educadores  ao   iniciarem  um  trabalho de alfabetização com seus alunos  devem aproveitar o máximo da linguagem oral, através das quadrinhas, parlendas, músicas, canções ou fragmentos de assuntos televisivos, que  em geral eles sabem “de cor” ou memorizam com facilidade, porque  a transmissão é mecânica e  se aproxima da linguagem utilizada.

Num segundo momento, a utilização da imagem televisiva, programas, filmes, fotos, embalagens, marcas ou logotipos, permitem que o aluno imagine o que poderia estar escrito ou  poderá criar um texto com seu próprio conteúdo interpretativo.

Estudos em diferentes  línguas têm mostrado que, de uma correspondência inicial pouco diferenciada, o alfabetizando progride em direção a um procedimento de análise, e passa a  corresponder recortes do falado a recortes do escrito.  É um processo paulatino, mas os alunos irão percebendo as diferenças de modalidades culta e oral e irão generalizando no seu cotidiano.

Destacamos que essa postura educativa se fundamenta na  utilização da diversidade das realidades sociais e culturais, implicando na mudança do papel do professor como  detentor do saber, cujo papel será então o de mediador. Também o uso dos recursos televisivos ou da imprensa, deverão se pautar numa atividade crítica, por exemplo: “aprender a responsabilidade do contexto da  escrita”, “aprender a distinguir um fato de uma opinião de massa”, etc.

Segundo a autora, o educomunicador  reconhece que não há mais monopólio da transmissão de conhecimento, e que não é só o professor que tem direito da palavra. Os professores que introduziram os meios na escola, a imprensa, a televisão, puderam perceber que isso provoca uma mudança nos objetivos e métodos de ensino.

Enfim, os educadores precisam admitir que as novas gerações possuem outras formas de aprendizagem.

Uma escola transformadora é uma escola consciente de seu papel político, cultural, ético, na luta contra as desigualdades sociais e econômicas, sua função deverá ser de instrumentalizar seus professores para que possam promover condições mediáticas, com o objetivo da formação dos cidadãos do século XXI.

Obs.:*

*Baudrillard, Jean. Televisão Revolução, in Parente, André. Imagem  Máquina. R..J. Editora 34, 1993

 **Geneviève Jacquinot, Professora da Universidade de Paris

I Congresso Internacional de Comunicação e Educação.- 1998

Tema proferido: O que é um educomunicador ?

 

SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS:

 

O Que é  Pós-Moderno?

Jurandir Freire Costa

Ed. Brasiliense

 

Rede Imaginária: Televisão e Democracia

Adauto Novaes

Ed. Companhia das Letras

 

Sociedade da Informação ou da Comunidade?

Ismar de Oliveira

Ed. Cidade Nova

 

A Criança e a TV

Raquel Soifer

Ed. Artes Médicas

 

Alfabetização de Jovens e Adultos e Televisão

Maria Clara Pierrô

Revista Comunicação e Educação /Abril de 1995

Ed. Segmento

 

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