A UTILIZAÇÃO DA MÍMICA COMO RECURSO PSICOPEDAGÓGICO
Escrito por Fernando Prado
Sáb, 11 de Dezembro de 2004 03:00
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A UTILIZAÇÃO DA MÍMICA COMO RECURSO PSICOPEDAGÓGICO

Fernando Prado


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Resumo: Este artigo aborda a utilização do jogo dramático da mímica como recurso psicopedagógico em ações que visam o trabalho sensório-motor assim como aspectos como desinibição e trabalho em grupo, a partir de uma experiência vivida na cidade de Pirapora-MG.

Palavras Chave: Ações Psicopedagógicas, mímica, arte educação, criatividade, psicomotricidade.

 

Em nosso oficio de arte-educadores trabalhamos diariamente com o jogo dramático como mediador da criatividade do sujeito que se manifesta na resolução dos problemas propostos pela própria instrução do jogo. Em sala de aula geralmente os resultados dos jogos são transferidos para um molde estético que irá se caracterizar em cenas e em futuras mini peças ilustrativas, entretanto as possibilidades do uso do jogo dramático não findam por aí, muito pelo contrário. Se dermos um passo atrás perceberemos que o ato de selecionar os jogos compreende em si uma busca por um objetivo. Outro ponto a observar são os resultados, nada estéticos por enquanto, que emergem de simples instruções, mas que se intensificadas podem revelar universos que o aluno mascara no dia a dia.

 

IMITAÇÃO E ENTENDIMENTO DE VERDADE

Segundo Piaget (1962) a classificação dos jogos se dá em: 1) Jogos Sensório-Motores 2) Jogos Simbólicos 3) Jogos de Regras. Respectivamente, os sensório-motores dizem respeito aos indivíduos de 0 a 2 anos, os simbólicos de 2 a 7 anos e os jogos de regras a partir dos 7. Nos concerne abordar os jogos simbólicos e os de regras nesta análise. Uma das formas do sujeito apreender o mundo que o cerca é a imitação, das pessoas, dos sons, das formas e mais adiante de suas semânticas; imitação por princípio é a base das artes representativas que se espelham na vida para ‘criar’ ou como diria Platão (1981) para ‘recriar’, posto que “o conhecimento na verdade é reconhecimento, é retorno, buscar e aprender não são outra coisa senão relembrar” portanto a oportunidade de imitar as formas da natureza sem pré-conceitos configura-se num retorno necessário às raízes, ao que é primitivo. Imitar é, num amplo sento, conhecer e aprender através das formas geradas pelo outro os movimentos e gestos significativos, como feições, palavras, sons, locomoções etc...

Vivemos uma experiência interessante na cidade de Pirapora-MG, possibilitada pelo acordo entre o Grupontapé de Teatro e a empresa Minas Ligas e as instituições Pingo de Mel e Abelha Rainha quando estivemos, em 2003, presentes com uma equipe de arte-educadores trabalhando com um grupo de jovens com queixas escolares e, alguns deles, vandalismo, nossa primeira grande dificuldade foi a disciplina, o interesse e o respeito mútuo em sala assim como com os professores. A violência diária a qual aquele grupo estava acostumado deixava nosso céu plúmbeo de dúvidas. Chegamos a ter graves problemas de depredação e violência dentro do ambiente de trabalho, esta situação ameaçava nossa integridade física e de tal forma o bom andamento da oficina de teatro.

Com o andamento do curso, ao todo 15 encontros, fomos percebendo gradativamente sutis diferenças nos alunos, a agressão gratuita estava se transformado em agressividade1 uma espécie de pedido de socorro que por incrível que pareça nos ajudou muito; desta forma o que era raiva tornou-se afeto, elemento essencial no funcionamento da inteligência do aluno. Nas nossas conversas diárias, em roda, ouvíamos um aluno elogiar a cena do outro e acreditar mesmo que por flashes, que existia uma verdade no que faziam e que podiam ir tateando que ela estava lá em algum lugar dentro deles. Ao final do trabalho nos perguntávamos: “como conseguimos encontrar doçura nestes alunos que nos primeiros dias nos atiravam coisas e eram totalmente indisciplinados?”.

 

TEATRO E A GRANDEZA DE CADA UM

Foi revendo nossos planos de aula que descobrimos a base de todos os nossos jogos teatrais naquela experiência: o corpo, o gesto, a mímica. Sabemos que a linguagem gestual nasceu com o homem primitivo e renasce todos os dias como parte da necessidade do mesmo se expressar, comunicar e ajudar no desenvolvimento geral da comunidade. Os movimentos expressivos fazem parte das danças rituais e das cerimônias religiosas assim como das danças pagãs ao longo da história. Diziam os gregos que o povo freqüentava o teatro para se entusiasmar – do grego ‘en thous’ ou cheio de Deus – e para renovar o “mana” energia vital que habitava cada espectador. Não é à toa que a divindade grega do teatro seja Dionísio, o deus da felicidade, do vinho e do delírio. Sábios os gregos que nos deixaram o legado dos gestos e de sua amplitude semiótica.

O gesto aliado ao que se quer dizer é meio pelo qual se propaga a afetividade e em si abre canais de comunicação entre o ambiente e o sujeito que uma vez ‘entusiasmado’ torna-se mais receptivo às novas informações ou ao confrontamento de opiniões. Abaixo segue um trecho de um manifesto da performer Denise Stoklos sobre o teatro gestual:

Conta a história que os gregos entendiam o teatro como um elemento curativo da alma, em doenças como a falta de compaixão que é tratável, mas provoca grandes dores e gera perversões, inclusive sociais. Conta a história que os médicos receitavam a ida ao teatro junto a poções. As poções só se processariam quimicamente no corpo quando no espírito se operasse também uma transformação. O teatro trazia à cena temas que moviam o espírito da humanidade. O público entrava em contato direto com o que era comum à natureza interior e investigava-se. Os espetáculos vivificavam, portanto, a grandeza de cada um.

Primamos nesta breve análise sobre a utilização da mímica como recurso psicopedagógico pela mesma acepção em que os gregos utilizavam o teatro como ‘homeopatia’ necessária. A mímica é o teatro estilizado, sem falas, sem a necessidade de quem faz se expor através de suas palavras e assim ficar a reboque de críticas caindo no retrocesso do constrangimento e dos olhares baixos. A mímica, se bem direcionada é uma ferramenta que pode auxiliar do diagnóstico ao acompanhamento psicopedagógico como ação de interface entre o que é subjetivo e autônomo e o que é público e heterônomo. Atentamos porquanto dois elementos que podem desvirtuar o processo de atendimento psicopedagógico se mal entendidos.

1)A produção do sentido é singular

2)Não é exigido do aluno que compareça com a qualidade estética exigida no teatro tradicional.

Dizemos isto como quem fala “não faça do seu aluno um Marceu a circunstância aqui é outra. Nas oficinas de Pirapora, tivemos os recursos pedagógicos necessários à quantidade de alunos que tínhamos em sala, alguns bastões, esferas de plástico e dois jogos de tabuleiro. Num primeiro momento nos interessava apenas conhecer o vocabulário corporal da turma por meio de dança livre, em seguida com as cartas do jogo “Imagem e Ação” guiamos um a dinâmica de mímica livre a partir das ações propostas pelas cartas do tabuleiro. É importante lembrar que nem sempre as regras sugeridas pelos jogos disponíveis no mercado servem ao psicopedagogo, deverá este profissional ter o conhecimento prévio do que se irá aplicar estabelecendo regras próprias que sustentem a singular ação psicopedagógica.

 

MÍMICA E UTILIZAÇÃO DO GESTO

Uma vez desinibidos pelo ambiente de alegria e liberdade criado pelo instrutor, passávamos então para a ‘dança pessoal’ que na verdade era a mímica dinâmica, ou seja, deixar que os gestos produzam significado livremente a partir de estímulos musicais ou temáticos, ex: “Prisão. O que é estar preso para você? Vamos tentar esta improvisação?” ou ainda “Ouçam esta música, o bolero de Ravel, e se movimentem de acordo com ela.” Pode-se iniciar com os alunos de olhos fechados ou abertos dependendo da percepção do instrutor do grupo em questão, este procedimento é bem aceito pelas turmas de crianças e pré-adolescentes pela liberdade criativa de quem executa os movimentos, já em turmas de adolescentes a malícia é uma questão a ser considerada na instrução dos jogos e portanto os temas e músicas deverão, talvez, partir do universo do aluno, ex: “ao invés de Ravel, utilizaremos o rapper Eminem...”

Dessa forma fomos nos afastando dos jogos de imitação para aqueles em que o aluno podia ter autonomia sobre seus próprios movimentos, a imitação tal qual a concebemos nos mostra o que está acontecendo neste momento, não o que poderia acontecer, portanto se nos mantivermos apenas nos jogos de imitação o aluno cristalizará a realidade tendo uma falsa idéia de que está desenvolvendo seus potenciais. Como ação psicopedagógica no trabalho com dislexia, lateralidade ou coordenação motora simples, o instrutor poderá partir de objetos concretos para os ‘invisíveis’ da mímica. Apertar uma bola de borracha, jogando de uma mão para a outra, ou em duplas atirando bolas de meia em linhas retas para que o outro as pegue somente com uma das mãos; Pega vareta controlando as articulações e os músculos do braço e clavícula para que as varetas desnecessárias não se movam, todos estes trabalhos podem ser feitos com os objetos reais e repetidos em mímica para dar a dimensão da consciência corporal, não basta fazer é necessário saber o que se está executando e o caminho pelo qual se consegue executar determinada ação. Em mímica, elementos naturais como pressão e peso são é deslocados para outras musculaturas que na vida real não utilizamos para realizar aquele movimento, pensando assim, no trabalho com e sem o objeto estamos desenvolvendo a consciência completa do sujeito, que podemos chamar de psicofísica.

Parafraseamos Piaget quando diz “O homem é sapiens, porque é loquens” em “O homem é sapiens, porque não só porque é loquens!” (MACEDO, 1994.).

Nas oficinas de Pirapora o trabalho com Mímica desenvolveu o afeto, a disciplina e o entendimento corporal, ainda que como fagulhas do que seria o ideal para alunos naquela faixa etária. Pudemos perceber também que a má alimentação e a fragilidade dos núcleos familiares contribuem para o déficit cognitivo e sensório-motor destes meninos e meninas, e que nossa contribuição é um grão na ampulheta, pequeno em proporção mas significativo na contagem do tempo da vida.

 

1-Segundo Alicia Fernandes (In: Paixão de Aprender, 1992) “Agressividade faz parte do impulso de conhecer e a agressão, ao contrário, dificulta a possibilidade de pensar. A agressividade pode estar a serviço da autoria do pensamento (...) a agressão está a serviço da destruição do pensamento...”

 

Bibliografia

FREIRE, Metal. Paixão de Aprender. Petrópolis, Rj: Vozes, 1992.

MARCEAU, Marcel.. Disponível em <www.marcelmarceau.com> Acessado em 25 de Outubro de 2004 às 2:30.

MACEDO, Lino de. Ensaios Construtivistas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1994.

PIAGET, Jean. The relation of affetivity to intelligence in the mental development of the child. In: Bulletin of the Menninger Clicnic – 1962, vol.26, no 3.

Platão. Diálogos. S. Paulo: Hemus, 1981.

Stoklos, Denise. O Teatro Essencial. Denise Stoklos Produções, 1998.

 

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Fernando Prado - Arte educador graduado pela Universidade Federal de Uberlândia com qualificação em Jornalismo pela Faculdade Politécnica do Triângulo. Atualmente cursa pós graduação em Psicopedagogia pela Faculdade Católica de Uberlândia. É professor efetivo da Escola Livre do Grupontapé de Teatro onde ministra oficinas de teatro para atores e não atores.