VOCÊ É ISTO
Escrito por Dr. Jorge Forbes
Sex, 25 de Julho de 2008 16:34
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Você é isto

Jorge Forbes

Publicado no livro Da Palavra ao Gesto do Analista

O que o Outro quer de mim

Começo hoje com uma história.

Dois senadores amigos atravessam o túnel que liga a Câmara Federal ao Senado. Passa por eles uma pessoa e um deles, pensando ser alguém seu conhecido, dirige-lhe um cumprimento cordial. Porém a pessoa que vinha em sentido contrário passa reto, sem responder ao cumprimento do senador. O outro senador, para quem tal pessoa era desconhecida, estranha o fato dizendo: "Não entendo. Afinal, você lhe fez cumprimento tão amável, e ela nem lhe respondeu !" Aí diz o primeiro: "Pois é, e ainda por cima, jamais lhe fiz um favor!"

Na semana passada, comecei também com uma piada. Hoje comecei com esta. Agora , se não deu para perceber, foi o meu tom reflexivo que abafou a graça do caso. Tom reflexivo porque resolvi refletir com vocês sobre o comentário surgido do seminário precedente. Foram vários retornos, bastante generosos, que suscitaram a seguinte pergunta: como continuar uma vez que gostaram tanto? Resolvi aprofundar essa questão, do que acontece quando gostam de você, do seu trabalho. É um enorme problema na vida. Vocês sorriem, mas de certa forma é mais fácil quando não gostam da gente. Então, como continuar?

Dei-me conta da diferença entre iniciar e continuar, como também é diferente iniciar e continuar uma análise. Quando se inicia algo, rouba-se algo do campo do Outro - é como eu defino o início de um seminário. Definimos o campo do Outro como estrutura de linguagem e marcamos essa estrutura quando delimitamos um campo. Delimitei o campo do Outro durante duas horas e o nomeei: Da palavra. ao gesto do analista.

Quando se anuncia um campo, toma-se, rouba-se alguma coisa do campo do Outro. Ele fica com alguma coisa a menos - bastante simples. Tinha-se um Outro, faz-se um recorte desse Outro, retira-se algo dele, rouba-se esse Outro. O que recortei - Da palavra ao gesto do analista - é do Outro. Esse Outro já não é o mesmo, já não é mais um todo; ele ficou com algo a menos, ficou descompleto, desejante. Ao roubar algo, cria-se o desejo, da mesma forma que um analista cria a transferência numa análise. E, se agora ele deseja, deparar-se com o Outro desejante, com a sua expectativa, angustia. Para continuar, você terá a partir de agora de lidar com a expectativa desse Outro, com o que ele poderá fazer para reaver o que lhe foi roubado. Por isso faço essa diferença entre iniciar e continuar. Para continuar a partir de agora, a partir de um Outro desejante, é outra história. Nesse momento as fantasias vêm a galope. É difícil continuar, sobretudo uma análise.

Interroguei-me por que isso ocorre, e foi divertido encontrar algumas respostas em francês. Sim, porque fiz até uma pesquisa :lingüística, que pretendo partilhar com vocês. São elucubrações de algumas horas atrás, e me perguntei se deveria trabalhá-las desta forma; se vejo meus filhos obrigados a aprender inglês para entrar na Internet, não vejo por que vocês não poderiam aprender francês para estudar Lacan. Não sei exatamente como seria esta questão em português.

Essas expressões foram retiradas do Littré, o maior dicionário da língua francesa.

1) En vouloir à quelqu'um: literalmente, é querer alguma coisa de alguém, mas na tradução quer dizer "ter um sentimento de rancor em relação a alguém". Fantástico. Querer alguma coisa de alguém é ter rancor.

2)Ne mén veux pas d'avoir agi ainsi: literalmente, "Não me queira por ter agido assim." Quando alguém fica chateado com uma pessoa, esta diz "Não me queira mal, eu não quis lhe fazer isso"; em português se diz "Não me queira mal", adjetivando o querer. Em francês, diz simplesmente "Não me queira."

É uma língua muito própria à psicanálise, ao menos lacaniana. Talvez seja porque realmente não se deve enfrentar o querer do Outro; o do Outro; devemos enfrentar o desejo do Outro. O querer do outro é mortífero, completo; aí você é sempre o pasto, o banquete do querer. O desejo é possível.

3) J'en veux à mon père de m'avoir dit cela: literalmente "Eu .quero em meu pai de ter me dito isso" - e, no entanto, se alguém o disser estará dizendo "Eu não gosto de meu pai."

4) Elle m'en veut, je sens ça: literalmente "Ela me quer, eu sinto isso"; mas quer dizer "Ela não gosta de mim, eu sinto isso.

5) Je lui en veux de m'avoir pris cet objet: literalmente, "Eu quero nele por me ter tomado esse objeto", mas a tradução seria "Eu não gosto dele por ele ter me tomado esse objeto."

6) Ils m'en veulent: literalmente "Eles querem em mim", mas estou dizendo "Eles não gostam de mim."

7) Je m'en veux: a mais clássica; "Eu quero em mim", mas significa "Eu não gosto de mim."

É fantástico esse paradoxo da língua francesa. Não é uma língua muito otimista; a priori, vouloir é ruim. Poderia continuar brincando, uma brincadeira da posição de analisando, da parte daquele que se analisa todas as quartas-feiras ao sustentar um seminário.

Quais são as possibilidades de escapar ao querer? É uma pergunta constante: como suportar a transferência? Como suportar que me queiram? Existem possibilidades histéricas e possibilidades obsessivas.

Uma possibilidade obsessiva de escapar ao querer seria não vir aqui hoje, ficar doente: Se me querem, então eu não vou." É a posição por excelência de Groucho Marx: "Não entro em clube que me aceita como sócio", posição fóbica do obsessivo. Se o Outro me quer, eu desapareço. Outra forma do obsessivo lidar com o querer do Outro é destruindo o Outro e a si próprio, o que dá na mesma posição contrafóbica do obsessivo. O que precisa ser destruído é a expectativa em relação ao querer de alguém.

A posição histérica é a impossibilidade perante o querer do Outro: "Disseram-me que eu disse boas coisas na quarta-feira passada, mas não foram tão boas assim"; ou se fazer feia, por exemplo, "Não sou tão bonita", " Tenho celulite"; ou a famosa brincadeira da adolescente, "Eu uso aparelho", "Usei bota quando era pequena", numa tentativa de dizer "Não espere nada de mim", "Não sou a mulher que você imagina". Formam um par bastante simples: o obsessivo. fóbico e contrafóbico, e a histérica, sempre insatisfeita.

Satisfazer o Outro é também uma das formas de proteger-se do querer desse Outro, corno uma mãe provedora que, ante o choro do filho, por exemplo, tenta provê-lo com água, comida, cobertor, balanço, num sufocamento incontrolável que acaba por tornar o filho asmático. Cena insuportável para a criança e para quem a presencia e que só uma mãe histérica é capaz de fazer.

Outra forma histérica seria eu voltar ao seminário apontando as dificuldades do texto e citar vários autores para preencher a expectativa do Outro que me quer - isso me faz lembrar uma frase que sempre cito, porque gosto muito, de Gregório de Matos, poeta baiano: "O que me quer esse Brasil que me persegue." Ou então "dizer grandes coisas" hoje, levando-os à náusea. Na histeria, leva-se à náusea aquele de quem se gosta. Além dessas posições, pensei também na posição daquele que escuta, dando uma chance para que todos possam ser analisandos. Quais as formas de reagir ao inconsciente?

O obsessivo pode destruir o novo saber dizendo "eu já sabia disso". Ocorre com muita freqüência, principalmente quando convidamos algum colega estrangeiro; muitos se empenham em participar do seminário para poder sair de lá dizendo "eu já sabia disso". É uma pena, perde-se a possibilidade da surpresa quando já se sabe de tudo.

Outra forma de escutar obsessivamente é classificar o novo saber, normatizando-o em relação aos outros saberes, o que o universitário .faz com maestria. Ele classifica o saber, faz bibliografia. Ele é o erudito que soma os diversos saberes, é o mestre dos mestres na medida em que os arruma, em que de qualquer forma não passam por ele, mo também não passam quando ele diz "eu já sei". Não passam por ele, porque ele vira o diretor da cena; os saberes estão lá e ele os arruma em sua estante para quando necessitar.

Uma das posições da histérica perante o novo saber é a intriga, é não escutar o que o Outro diz, mas como o diz, por que o diz, o tom em que o diz, numa tentativa de apreender o que está por trás do que está sendo dito e sempre, evidentemente, com uma parceira ao lado para dizer: "Você viu ?" Ela transforma o novo saber numa coisa não dita, como falava Lacan do não todo da histérica, que sempre aponta por não suportar o novo. A histeria e o cinismo são primos irmãos, pois a pessoa pode se identificar com o novo saber e passar a ser o próprio, identificado. Ao se perguntar o que o Outro quer, a resposta é que ele foi feito para esse Outro e o que o Outro quer é ele mesmo, uma vez que se encontra identificado com esse saber. Dentro desse quadro, acabo de montar uma estrutura paranóica da qual é difícil escapar. De certa forma, ocupa-se uma dessas posições. De que maneira fugir a essa classificação? Fazendo análise, enfrentando de novo um Outro, desconhecido, e saber que aquilo que foi feito anteriormente já não é mais seu, entrou na cultura.

É bom não esquecermos o que nós, analistas, fazemos para escapar do querer do

Outro. Às vezes nos esquecemos do que nós mesmos tínhamos feito. Presenciamos apresentações de colegas e não reconhecemos, no primeiro momento, articulações feitas por nós mesmos anteriormente, até que alguém nos chama a atenção para tal fato. Por outro lado, acontece de colegas se apoiarem no texto do outro, o que é muito comum entre analistas, e não citar o autor, não fazer a .Preferência, como vejo acontecer entre nós, com uma certa freqüência. Essa é uma posição de identificação ao que foi dito, tomando para si um discurso alheio.

Quando se faz alguma coisa por alguém, pode-se receber de volta o rancor, e a história da psicanálise se explica como uma história de rancores. Os americanos criaram o Ql (Quociente Intelectual), criaram o QE (Quociente Emocional); os analistas deveriam criar o QA (Quociente de Análise). Em certas discussões deveria ser exigido um QA mínimo, com um pouco menos de rancor.

Voltando à questão das duas piadas, são variações do tema que apresentei antes: não podemos nomear a morte mesmo quando ela se encontra diante de nós, o que torna a vida menos trágica e mais cômica. O final da análise está do lado do cômico, e não do trágico. Lacan trabalha essa modificação do trágico no cômico no Seminário 7, A ética da psicanálise, no capítulo "Os paradoxos da ética".

Vamos seguir a trajetória iniciada pelo seminário anterior, para introduzir os problemas atuais da interpretação.

A interpretação com Lacan: a interpretação descompleta

Na Associação Mundial de Psicanálise, esse é o grande tema há um ano. Quando falo da AMP, refiro-me às cinco grandes Escolas: Escol da Causa Freudiana de Paris, Escola do Campo Freudiano de Caracas, Escola Européia de Psicanálise, Escola de Orientação Lacaniana d Argentina e Escola Brasileira de Psicanálise.

Na revista da Escola da Causa Freudiana, La Cause Freudienne: Revue de Psychanalyse, em seu último número, "Vous ne dites rien" (n.º 32), algumas dessas questões foram longamente desenvolvidas: "Não se interpreta mais", "Estamos numa época pós-interpretativa" "Os analisandos não se lembram do que os analistas disseram", " Se o sonho já é uma interpretação, por que interpretá-lo?".

Tentarei recuperar alguns passos de Lacan sobre esse problema para avançar teoricamente e dizer de que forma a interpretação hoje pode estar mais do lado do gesto que da pontuação, entendendo o gesto como um corte e a pontuação como uma interpretação semântica. Nota-se na análise, invariavelmente, que o S" é diferente de S' esse é um exemplo de Jacques-Alain Míller -, e a essa diferença chamamos de inconsciente. Inconsciente é o que falta a S' para que ele seja igual a S"; falta um certo saber para que isso se transforme numa igualdade. Utilizei a grafia S' e S" para não confundir com a terminologia lacaniana.

Como lidar com essa diferença? Partiremos de questões mais elementares para nos lembrarmos da definição da interpretação. A interpretação está do lado da expressão ou da compreensão? A interpretação está do lado da expressão. Por um lado, fazer uma expressão, ou se expressar, é colocar em palavras algum tipo de significado. Quando digo "eu me expresso", ponho em palavras alguma coisa a ser transmitida; portanto, expressar seria transformar um significado em significante. É o esquema clássico do que se gostaria de obter de uma interpretação. Interpreta-se classicamente a partir de alguma coisa dita para recuperar o significado, desde que se entenda "recuperar" no sentido de acomodar o novo no antigo. Toda significação é retrógrada.

Alguma coisa é dita correspondendo a um significado (S") que procura recuperar um significado anterior. perdido (S'). Alguém diz alguma coisa, recebe um significado do que é dito que irá recobrir um significado anterior. A pontuação incide sempre sobre a semântica do significante. Por outro lado, existe o caminho oposto, o da compreensão do dito, onde - a partir de um significante - estabelece-se um significado: compreendo-o.

O inconsciente pede a igualdade a um significado anterior. Ele solicita que aquilo que é dito seja estabelecido na cadeia que chamamos de associação livre. Será que teremos de falar mais para procurar o significado perdido, ou será que em algum momento é necessário dar um basta a essa busca e fazer algo diferente com aquele significante que se superpõe ao significado (S/s) que se obtém, que surge em uma análise? Há um basta quando se resolve não necessitar mais do inconsciente.

Insisto naquela pergunta do ano passado. O que quer dizer desabonar-se do inconsciente? Lacan utiliza essa frase em seu Seminário 23, O sintoma ao se referir a James Joyce como alguém desabonado do inconsciente. Se concordarmos com o fato de ser essa via infinita, estaremos apontando para a necessidade de sair desse caminho, de nos desabonarmos do inconsciente, não procurando mais a sutura de S1 com S2 - agora sim em termos lacanianos, entendendo, no momento, Si como o significante novo que se cera numa análise.

Em uma análise lacaniana, algo será dito - um significante novo que surge e que não pode se acomodar na cadeia anterior com o conjunto de todos os outros ditos. Nesse momento. separa-se SI de .S,, faz-se um corte - um dos nomes possíveis da interpretação. A clínica lacaniana caminha da pontuação ao corte. Fazemos uma pontuação quando juntamos um significante com o conjunto de todos os ,:outros ditos. Quando os separamos, fazemos o corte. Precipitei essa questão para retomar a história da interpretação em Lacan. Diante de algo que um analisando diz, o correto, para muitos, seria buscar um significado que recuperasse o anterior. Para Freud e para Lacan, não existe recuperação possível, ideal da clínica ortopédica; nasce-se com uma fratura cujo molde foi para o espaço. Não temos um molde de nos mesmos. As psicoterapias são retrógradas, são ortopédicas, na medida em que buscam corrigir e refazer o passado.

Esta é a interpretação que tende à revelação, a revelar o que foi perdido. A psicanálise nasceu com Freud ao ser revelado o que aconteceu no momento em que Arma 0. começou a ter uma tosse histérica. A interpretação reveladora completa o sentido, acalma o analisando e, por acalmá-lo, é utilizada como manejo da angústia. A pessoa se sente feliz em saber que tem tal atitude porque sua tia, seu pai, sua mãe fizeram alguma coisa. Ela é tranqüilizadora, é culpabilizadora e irresponsável. O sujeito não responde por ela; o sentido se faz nele mesmo e não através do sujeito.

Na interpretação descompleta deve-se entender esse termo em sua dupla vertente: naquela em que o termo descreve a interpretação descompleta -, e na vertente do sentido verbal da ação de descompletar. No âmbito dessas duas idéias, podemos buscar, em Lacan, os pontos fundamentais que alicerçam a teoria da interpretação. Cito três pontos: um de 1955, outro de 1969-70 e o outro de 1972, dando maior enfoque ao Seminário 17, O avesso da psicanálise, de 1969-70. Lacan se refere ao movimento de demissão do uso da palavra na psicanálise a partir de 1920, quando, depois do texto de Freud - Além do princípio do prazer -, os pós-freudianos, por não poderem dizer tudo, lançaram a contratransferência.

Lacan não se acomodou na contratransferência. Ele suportou a interpretação descompleta. A contratransferência é um movimento para completar o sentido. Quando a palavra não é capaz de completá-lo, entra o sentimento do analista completando o que o analisando não pôde dizer. Em 1920, quando Freud anunciou o fim do paraíso da interpretação analítica, surgiu um movimento que juntou a associação livre com a contratransferência e manteve a interpretação que completa o sentido.

Lacan abre uma outra vertente que tem, em 1970, a sua melhor definição, quando ele diz ser a interpretação um meio-dizer. Não há em Lacan nenhuma expectativa de um dizer completo. Foi daí que propus dizer que "A interpretação descompleta", em um texto com esse nome, publicado na revista Opção Lacaniana n.º 12.

A referência da interpretação como meio-dizer pode ser encontrada no Seminário 17, O avesso da psicanálise, onde Lacan fala do meio-dizer, do semi-dizer, ou da função do enigma no semi-dizer (p.34-5): "Enigma colhido, tanto quanto possível, na trama do discurso do psicanalisando [Ou seja, ele busca o meio-dizer naquilo que o analisando está dizendo], e que você, o intérprete, de modo algum pode completar por si mesmo, nem considerar, sem mentir, como confissão." Retiro daqui a idéia de completar/descompletar. Lacan é claro quando diz "não complete uma interpretação", ao se referir ao Édipo, no Seminário 17: "Virem-se como puderem - como fez Édipo -, vocês sofrerão suas conseqüências. Eis do que se trata no enigma." (p.34) Eis do que se trata na interpretação.

Quem completa o meio-dizer sofre as conseqüências. Édipo passou pela esfinge, matou o pai, casou-se com a mãe. porque interpretou daquela maneira. Interpretar é se fazer conseqüência da sua interpretação, o que é muito pesado. A interpretação completa é irresponsável e culposa. "Por que você fez isso?", interpretando o fazer mau, dando o bom caminho perante uma regra que é exterior ao sujeito. A interpretação descompleta não culpabiliza o analisando, ela o responsabiliza. Ele sofre as conseqüências de sua interpretação e, por isso, volta às sessões para saber sobre a interpretação que deu. Talvez haja uma divisão de responsabilidade no início e no final de uma análise. Não digo que seja impossível, mas acho muito difícil o analista não compartilhar a interpretação do final de análise. É uma questão que ponho entre parênteses.

A interpretação completa é a do significante, da associação livre, do repouso, do prazer. Aquilo que não é do prazer é o gozo. Como apontar o que não faz sentido, ou o que faz o sentido do gozo, da jouissance ? Em jouissance, em francês, junta-se "sentido" com " gozar", mas "gozo" em francês é jouissance. Posso brincar com esse termo dizendo que gozo desse sentido; "jouir du sens" - que, de uma forma breve, seria "gozar do sentido". E diferente de ter prazer no sentido; é um desenvolvimento longo de Lacan no Seminário 20, Mais, ainda.

Ao que Lacan chamou de meio-dizer", estou chamando descompleta. Num primeiro momento, ele falava meio-dizer porque meio-dizer, faltava-lhe a outra parte, a verdade. Posso ter uma interpretação que tenha um saber e não tenha uma verdade e outra interpretação que tenha uma verdade e não tenha um saber. O meio-dizer é uma diferenciação entre enunciado e enunciação. Posso dizer -.,alguma coisa e não saber a que aquilo se refere, ou posso ter uma referência e não saber o dito correto para essa referência.

Lacan divide a interpretação descompleta em enigma e citação. ,No enigma há uma enunciação sem enunciado; na citação há um Denunciado sem enunciação. A estrutura é a mesma, porém o local do falta é o que os diferencia. É um enigma quando tenho uma verdade mas não sei a resposta àquela verdade, não tenho como me naquela verdade. No enigma, o que falta é o que representa esse enigma para o sujeito. E o que a esfinge pede: diga-me o que é, porta essa enunciação, essa explicação. Quem veste essa explicação? E a resposta que a pessoa dá é "o Homem". Vocês podem dizer: "mas todos responderiam 'o Homem'." Édipo só se tornou Édipo depois de ter respondido dessa forma. Todos acham que só ..existe essa resposta, mas Lacan deu uma sugestão: À pergunta da Quimera, poderia ter dado muitas outras respostas. Por exemplo, poderia ter dito: - Duas patas, três patas, quatro patas, é o esquema Lacan. Isso teria dado um resultado completamente diferente." .(Seminário 17, p.34) Ele chama a atenção para a responsabilidade de :colocar um enunciado na enunciação.

Na citação, o analista pode citar Lacan, e por exemplo dizer "mas e exatamente isso que você está dizendo que Lacan dizia. O nome de Lacan provoca um efeito de verdade muito grande. completamente @vazia, porque só está sustentando o nome de Lacan. Imagine pessoas num bar, discutindo. Não daria no mesmo dizer Churchill ou Maluf. Quando se cita alguém, gera-se uma expectativa de verdade, mas não existe a verdade, só há expectativa. "É quase uma aula de psicanálise isso que você está me dizendo. Lacan disse tal coisa." Há um efeito no fato de ir ao analista para se analisar e se perceber dando aula de psicanálise. Mas o efeito é para ser produzido fora da sessão.

Lembro de uma pessoa, um obsessivo - completamente embrulhado, pior que o gato Garfield no dia em que resolveu desembrulhar um novelo de lã. Este se embrulha cada vez mais diante de uma menina que quer namorar. Todas as suas tentativas de enfrentar o desejo feminino são desastrosas. Ele tenta vender para as meninas um discurso honesto, vulgar e insosso. Por exemplo, ele achou formidável mandar para essa menina que ele estava paquerando uma revista de circulação nacional, na qual foi publicado um comentário de um livro em que ele teria tido uma participação, com uma dedicatória nada modesta de que o seu valor estava sendo reconhecido. Ele dizia nas sessões "Eu sou famoso, eu sou rico, eu sou bonito, só que todas as meninas se afastam de mim" e "Eu achava que tinha todos os requisitos necessários para que as meninas gostassem de mim". Logo nas primeiras entrevistas, o analista se tornou aquele que sabia o que fazer com o desejo, para que as meninas corressem atrás dele - então, nesse caso, eu poderia citar a mim mesmo.

A menina deveria estar cansada dele, com absoluta razão, e ele não sabia mais o que fazer. Como era fazendeiro, resolveu mandar-lhe um saco de carambolas e me interrogou se seria uma boa mandar aquele presente. Respondi-lhe que sim, mas com o seguinte cartão: "Veja você, saco cheio pode ser gostoso", e, em seguida, interrompi a sessão. Quando retorna me diz: "Não enviei o presente, quando saí daqui já não me lembrava do que você tinha me dito, então tentei recuperar." Ele mostra quinze formas diferentes dessa frase. Uma delas "Peguei esse saco e enchi de carambola, e pensei que seria gostoso" - todas as formas de achatar qualquer possibilidade de paradoxo, de mal-entendido, de desejo. É um exemplo de uma interpretação em citação em que a pessoa tropeça nas próprias pernas, principalmente o obsessivo, porque não sabe o que fazer com ela. O obsessivo sempre acaba com qualquer verdade, com qualquer desejo, já que ele faz a citação nobre, que nunca quer dizer nada.

Esse é um exemplo de citação: tenho um enunciado mas não tenho a enunciação do que ele quer dizer. No enigma, eu tenho um dizer verdadeiro, uma enunciação, e não tenho um enunciado. Lacan, em 1972, em seu texto " L'étourdit", avança em relação ao Seminário 17, O avesso da psicanálise, e dá a classificação do enigma. Ele não retoma a citação, mas retoma o enigma, dizendo ser este um equívoco, e apresenta as três formas de equívoco: homofônico, gramatical e lógico (p.48-9 da versão original de " L'étourdit", publicado na revista Scilicet n.º 4). Para abreviar, o que imaginei no que se refere à transmissão foi dizer que o equívoco homofônico ocorre no âmbito da palavra, o equívoco gramatical ocorre no âmbito da frase, e o lógico, no do contexto.

Um analista pode, pois, destacar o equivoco no âmbito da palavra, da frase e da lógica. Como exemplo do equívoco homofônico, evoco a interpretação de Freud do "familionário". São interpretações nas quais a palavra diz o que não foi feita para dizer: "E aí eu vivi uma situação incesticida", disse-me um analisando. Achei fantástico ele juntar "incesto" com "inseticida".

A interpretação das carambolas é um exemplo de equívoco gramatical. Aquela interpretação é dupla, porque tem alguém que a sustenta, "pode mandar esse bilhete". Além de uma citação, é o analista quem diz, há nela mesma um equívoco: "Saco cheio pode ser gostoso." A pessoa não sabe se é presente ou se não é. E legal a carambola, não é, mas está se referindo a quê? O cara está pedindo desculpas porque é um chato ou está dizendo que quer que ela o agüente? Ou que muita carambola dá dor de barriga?... Sei lá! Pode-se ficar horas tentando entender essa frase, como pode-se ficar horas tentando entender "Les non-dupes errent" e "L'ínsu que salt de l'une bévue s'aíle à mourre", títulos dos seminários 21 e 24 de Lacan que estou trabalhando, ou mesmo o título que dei ao último colóquio: "Psicanálise: problemas ao feminino". Foi engraçado ver a reação das pessoas, mas não dá para retirar o equívoco.

Para ilustrá-lo no âmbito lógico, de contexto, lembro um exemplo descrito no texto "A interpretação descompleta" - No contexto de uma sessão de análise e baseando-me na história de um cliente, pergunto-lhe por que se chama Irving Pereira, ao que ele responde contando sua novela familiar: que ele foi nomeado assim por uma freira americana, amiga da família, que estava em sua casa quando ele nasceu. Ele narra que só entendeu o significado de seu nome quando, nos Estados Unidos, deparou-se com Irving Bank. Houve aí um equívoco de contexto, porque eu sabia que o banco não se chamava Irving Bank, mas Irving Trust Bank, e apontei-lhe o "Trust" que estava faltando. Eu só disse "Trust", e ele exclamou: "É mesmo, ai meu Deus, 'In God we trust'; veja que sacanagem, onde foram colocar Deus - na nota de um dólar!" Na nota do dólar está escrito "In God we trust". Era alguém corri uma problemática obsessiva, cujo sintoma era exatamente o de não poder ganhar dinheiro, porque era pecado, uma vez que tinha sido nomeado por uma freira. No conjunto do seu fantasma, dinheiro era pecado (fantasma clássico nos obsessivos), e, portanto, ele não poderia pecar naquela coisa suja. Uma única marcação fez um efeito brutal sobre a vida dessa pessoa.

Qual a verdade própria ao final da análise?

Para concluir, chamo a atenção de vocês para o esquema que desenvolvi em um artigo, "A Escola de Lacan", publicado no livro A Escola de Lacan e, de uma forma mais elaborada, no Anuário Brasileiro de Psicanálise, sob o título "Opção Escola". Trata-se de um esquema do percurso de um obsessivo e de uma histérica em análise, que utilizo no sentido de ordenar toda essa discussão sobre o gesto.

Homens e mulheres partem de um ponto de todo saber, do discurso do mestre, para um ponto fora do saber, do discurso do analista. Antes de iniciar uma análise, a pessoa pensa que seu problema é encontrar a adequação entre a palavra e a coisa, ou seja, ela tem esperanças de adequar-se ao mundo. Pensa ser a ligação dela com o mundo direta e biunívoca. Se ela ganha bem, ela é feliz; se ela ganha mal, é infeliz. Se a mãe diz "Bom dia meu filho", ele é feliz; se a mãe não lhe diz " Bom dia meu filho", ele é infeliz. O problema da sua existência está numa relação direta entre ela e o mundo, ou seja, entre a palavra e o objeto - o que se chama, em lógica, verdade referencial. Há uma primeira verdade que a pessoa sofre quando vai procurar uma análise. Existe um objeto muito bem definido pelo qual se queixa e do qual ela procura se curar. O mal-estar refere-se a essa coisa ruim que está fora do sistema lingüística que a língua nomeia: "Eu não entrei na faculdade" - trata-se de um objeto estável, fora da língua.

Num segundo momento, quando entra numa análise, ela sai da verdade referencial para a verdade contextual. A verdade não é mais buscada fora da língua, mas na própria língua. A verdade é buscada na associação livre, e não numa referência fora dela. É um exemplo clássico a Carta 69 de Freud a Fliess: "Não acredito mais na minha neurótica", ou seja, não acredito na minha teoria das neuroses. Até aqui Freud pensava que a histérica sofria porque tinha sido seduzida; ao observar que várias histéricas diziam a mesma coisa, Freud só tinha duas opções: ou achar que todo pai era perverso, inclusive o seu, ou que havia algo comum ao discurso das histéricas. Ele percebe que não se refere a um objeto fora, mas que é uma construção própria da pessoa.

Existe uma verdade referida - o pai quis transar - quando a palavra se refere ao objeto. Num segundo momento a palavra se refere a ela mesma, é a verdade do contexto. onde não importa mais se existiu ou se não existiu. Uma análise terminava nesse nível, terminava na língua, nela mesma - e, como a língua nela mesma é inesgotável, uma análise era inesgotável e as pessoas tinham que retomar a análise de tempos em tempos.

A pergunta é se no final de análise o sujeito volta com a língua ao objeto, referencial, ou não. No final da análise a língua vira um objeto. Trata-se de uma sutileza conceitual. A análise deve ter sido capaz de gerar objetos sobre os quais o sujeito vai falar e, como ele desconhece esses objetos, no final da análise ele terá vontade de conhecer. E a pulsão necessária ao final de análise é a pulsão de saber. Talvez aqueles que já tinham essa questão na cabeça tenham podido acompanhar melhor esse raciocínio.

Há muito tempo escrevi um texto com Newton da Costa, o lógico, interrogando sobre a verdade própria ao final da análise. Estamos perto de definir que é quando a língua se transforma, quando a língua se faz objeto. Porque, quando se faz objeto, ela não tem sentido, e, por não ter sentido, passa a ser um significante fora da cadeia, um significante novo.

Eu disse anteriormente que havia uma diferença entre pontuação e gesto. A pontuação é uma prática que incide na verdade contextual, incide na língua mesma,, gerando novos sentidos. O gesto é um elemento de corte. Coloco o gesto no isolamento do significante, não fazendo mais o significante representar o sujeito, mas marcar um ser.

Concluo com um exemplo: uma pessoa com uma insatisfação brutal, de estrutura histérica bastante evidente, depois de algum tempo de análise aferrou-se em dizer que era uma merda. Era uma mulher bonita, simpática e querida, e bastante insatisfeita. Sua forma de insatisfação era dizer, o tempo inteiro, que não estava boa. Tudo para ela estava bom, mas ela vinha dizer que nada estava bom.

Ao despedir-me dela, ao final de uma determinada sessão, dei-lhe a mão e a retirei com uma expressão - um gesto de repugnância, nojo, sei lá. Ela deu um berro assustador, imenso; abri a porta e ela se foi. Mudou completamente. Aquela merda da qual era legal falar não ficou mais interessante depois de alguém literalmente, na letra, tratá-la como tal. A brincadeira acabou em dois tempos. A merda tinha sido deslocada do contexto da significação e passou a ser algo que marcava aquela pessoa: ela era uma merda, não se tratava mais de um sujeito. Como se existisse apenas uma interpretação: "C'est ça", "Você é isto".

São momentos em que alguma coisa cai e muda literalmente a vida de uma pessoa. Lacan diz nos Escritos: são interpretações que podem mudar a história de uma análise, porque sai-se da dependência, do conforto habitual do significante, faz-se o corte e marca-se o ser.

20 de março de 1996