A PSICANÁLISE E A UNIVERSIDADE
Escrito por Carmen Silvia Cervelatti
Sáb, 05 de Outubro de 2002 03:00
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A PSICANÁLISE E A UNIVERSIDADE

Carmen Silvia Cervelatti
(Membro da EBP-SP)

 

             Convidada a participar de um debate sobre o tema "A Psicanálise e a Universidade" inicialmente fui buscar algumas considerações sobre a Universidade. Freud[i] enfatiza que nela o saber é ensinado a todos, sem distinção, "e que se destina a mostrar à humanidade a que amplitude ela pode compreender o mundo a seu redor, e até onde pode controlá-lo." Jacques-Alain Miller[ii] enfatiza sua função de acolher os saberes, somente aqueles que lhe permitem o mestre.

            Se tomarmos esses dois campos nos é quase imediata a associação com os discursos propostos por Lacan: o do analista e o universitário. É interessante notar que por um giro, de um quarto de volta em sentido horário, o discurso do analista (DA) alcança o universitário (DU), assim eles se avizinham. O mesmo não é possível ao universitário, que só pode acessar o analítico se passar pelos discursos do mestre e da histeria. Esse percurso caracteriza um percurso específico da psicanálise: do inconsciente e da linguagem (DM) à histerização do discurso (DH).

            Enquanto campos que se aproximam evidenciaria uma interseção, uma junção e uma interlocução. A psicanálise assim estaria na universidade, franqueando uma viabilidade. É o que o texto de Miller (1981) aponta quando lembra que na Universidade de Paris VIII, desde 1968, funciona o Departamento de Psicanálise e que "estaria mais inclinado a deplorar a falta de seguidores em outras universidades francesas e em outros países". Lacan esteve na Universidade, lá disse muitos de seus Seminários. Freud obteve o título de "Professor" (na época concedido por instâncias governamentais) mas, em carta endereçada a Fliess, confessou preferir mais pacientes em que pudesse levar a cabo as análises.

O saber da psicanálise poderia ser acolhido pela universidade? "A psicanálise tem ainda algo de teimante e é por essa razão que não lamento que o Departamento de Psicanálise de Paris VIII seja ainda o único. No fundo, espero que a inscrição universitária da psicanálise seja retardada ao máximo. Em todo caso, deve-se dizer que há antipatia entre o discurso universitário e o psicanalítico e há mesmo certos modos de sentir que lhes são contrários. Há sensibilidades diferentes, não há nas duas o mesmo pathos, devemos reconhecer, e é justamente o atrito entre os dois discursos que pode ser fecundo."[iii] Apesar da antipatia, da contrariedade, da diferença (por vezes radical) e do atrito haveria um "namoro" entre os dois discursos.

            No discurso do analista o saber é particular, o "achado" é válido no um por um pois trata-se de um sujeito dividido habitado por um desejo que lhe permite apostar num saber que não sabe de si – reino do mal-entendido e do não-ensinável. Já no discurso universitário o saber é universal, válido e acessível a todos e sem distinção, como dizia Freud; o saber, que prima pela coerência pois aquele que o transmite sabe o que diz, atinge as massas – o saber não engana, reina o bem entendido e é ensinável.

            Freud, em "Sobre o ensino da psicanálise nas universidades" (1918), afirmou que o analista pode prescindir completamente da universidade, sem nenhum prejuízo para si mesmo. Creio que essa posição conserva-se unânime entre os psicanalistas. Se localizarmos o diferencial da formação do psicanalista principalmente em sua análise pessoal e em seu trabalho clínico (sob a orientação e supervisão de psicanalistas por ele transferencialmente reconhecidos) concordamos com Freud: a prática da psicanálise se dá fora do alcance do discurso universitário. Para ele a articulação teórica encontra-se na literatura especializada e nos encontros científicos que aconteceriam nas "sociedades psicanalíticas". Esses argumentos freudianos são baseados em sua proposição de que a psicanálise existiu e continuou sua ex-sistência devido à exclusão das universidades. Essa exclusão, que não é demanda histérica, é que permite, até hoje, que a psicanálise continue a desempenhar sua função. Para Freud é condição para a continuidade efetiva da função da psicanálise que essa exclusão persista.

            Assim o debate foi lançado. Psicanálise e Universidade: exclusão ou inclusão?

 

 

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[i] FREUD, S. "Por ocasião da inauguração da Universidade Hebraica", vol.  , Rio de Janeiro: Imago.

[ii] MILLER, J-A. "A Psicanálise na Universidade" (1981) in Lacan Elucidado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

[iii] Idem, p. 114.