LOGOS
Escrito por Manoel Tosta Berlinck
Qui, 19 de Dezembro de 2002 03:00
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Logos*

 

Manoel Tosta Berlinck*

 

Sob este nome um tanto misterioso, um tanto estrangeiro – partícula da palavra composta psico-pato-logia –, será narrado o caminho em direção à palavra ocorrendo no Laboratório de Psicopatologia Fundamental do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP.

Grupo permanente de pesquisa, iniciado em março de 1995, o Laboratório é, como o nome indica, um local (tório) de trabalho (labor). Assim como há parlatório e mictório, há, também, laboratório.

Trata-se não só de um ambiente como, também, de conjunto de objetos e recursos fazendo parte desse meio no qual o trabalho de pesquisa pode ocorrer. De fato, o ambiente é o inespecífico circundante, permitindo determinadas manifestações vitais. Sendo meio circundante, o ambiente não possui a especificidade formal do objeto, ainda que seja nele onde se reconhece a existência de objetos, ou seja, aquilo em direção ao qual a energia vital, a libido pode se dirigir. O ambiente, de certa forma, se opõe, então, aos objetos, sendo por meio deles que relações, investimentos, trabalhos, desinvestimentos, ócios podem ocorrer. Não há como investir num ambiente a não ser por meio dos objetos que dele fazem parte.

Apesar de sua inespecificidade irredutível, qualquer ambiente apresenta limites bem definidos por bordas além das quais determinada manifestação vital não ocorre. Neste sentido, pode-se falar de um bom e de um mau ambiente.

O Laboratório, sendo um local de trabalho, seria, antes de tudo, um bom ambiente para o trabalho. Resta, entretanto, saber sobre a natureza deste trabalho para a melhor compreensão do que vale dizer "bom ambiente".

O Laboratório de Psicopatologia Fundamental da PUC-SP seria bom local de trabalho da Psicopatologia Fundamental. Esta, por sua vez, é um discurso representativo (logos) a respeito do pathos psíquico.

De pathos, um outro nome um tanto misterioso, um tanto estrangeiro, deriva-se paixão, passo ou caminho, excesso, passividade e, em português coloquial, um certo sentido de pato em que ocorre uma vitimização, um assujeitamento. O "pato", neste sentido, é o que cai estando completamente despreparado para isso. Diz-se, nesta situação, que "fulano caiu como um pato". Quem cai como pato, sente-se um pato, ou seja, sofre deste excesso manifestando-se tanto no despreparo como na própria queda, concebendo-se como vítima ingênua e indefesa. O pato é ingênuo e indefeso exatamente porque vive num ambiente que, não sendo mau, também não é bom. Suas patas, servindo para caminhar e até correr, são mais adequadas para um outro ambiente, um meio aquoso onde o pato cai e bem se adapta nadando com elegância e majestade.

O pato, em terra, é passível de tropeço e queda, interrompendo, imediatamente, sua postura elegante e transformando-se, momentaneamente, numa figura grotesca retomando, em seguida, de forma impávida, seu caminhar.

O humano é um "pato lógico", ou melhor, "psico-pato-lógico". Tropeça em seu caminhar naquilo que manipula com mais elegância e majestade: a palavra. Ao contrário do pato, entretanto, nunca é o mesmo depois do tropeço, pois este acontecimento, produzido pelo sofrimento e, quando ocorre, fazendo sofrer, é o âmbito do significante que solicita logos, palavra representativa.

A clínica psicoterapêutica é o ambiente externo ao Laboratório no qual os tropeçantes, os "patos lógicos" dirigem-se em busca de palavras para o seu pathos, convencidos de que o psicoterapeuta é detentor de um saber esclarecedor. Esta suposição, por sua vez, não é de todo equivocada. O psicoterapeuta se preparou para receber o paciente com uma longa e dispendiosa formação universitária e clínica. Mas assim como os pacientes estão sentindo-se "patos" em relação à sua "lógica" interrompida e detonada pelo tropeço ocorrendo pela manifestação do significante, o psicoterapeuta também se defronta com um mal-estar produzido pelo caráter enigmático do tropeço ocorrido no detonado paciente. O psicoterapeuta, sendo ele mesmo tão "pato lógico" como seu paciente, reconhece aí, de forma íntima, o sofrimento e o desamparo produzidos pelo tropeço. Em outras palavras, a natureza pática do tropeço – denominado freqüentemente de catástrofe ou reviravolta, mas, também, de doença, distúrbio, mal, transtorno etc. - é transferida para o psicoterapeuta de maneira a produzir sensação de vazio significante em que todo o estudado e aprendido em sua formação se desvanece ocasionando estado de não saber, de ter caído como um pato no logos da psicoterapia.

No início de praticamente todo tratamento psicoterapêutico, há, então, um não saber no paciente transferido para o psicoterapeuta, confrontando-se com a condição de porta-marcas, gerando um mal-estar em relação ao sabido.

Este mal-estar possui matriz biológica, pois o porta-marcas é o próprio corpo do psicoterapeuta no qual se manifestam afetos do não saber transferido pelo paciente. Nesta circunstância, o psicoterapeuta sente dor, depressão, angústia e uma ausência de representação de coisas e de palavras que, se tudo correr bem, irá desaparecer posteriormente, dependendo de sua capacidade clínica de escutar, além do vazio, aquilo que o paciente tem para lhe transmitir e for capaz de colocar, de alguma forma, essa memória inconsciente em palavras sistematicamente elaboradas.

O mal-estar possui, dessa maneira, outra matriz, propriamente cultural, pois o psicoterapeuta não encontra imediatamente um logos capaz de representar apropriadamente o tropeço patológico do paciente, manifestando-se, agora, nele, apesar de sua longa e dispendiosa formação. Vivência e logos são redes independentes podendo se conectar eventualmente.

O psicoterapeuta está, nessa oportunidade, ocupado por situação problemática colocando-o em nova posição: deixou de ser portador de um saber e passou a ser alguém em busca de palavra capaz de tratar desse íntimo e avassalador mal-estar, sabendo que não mais a encontrará só nos autores precedentes ou em seu mestre. Sabe ter chegado a temida e ansiada hora de procurar nele mesmo a palavra representativa do vivido na clínica. Sabe ser esta difícil tarefa onde se encontra engajado. Muitas vezes reconhece não ter prática com a escrita e percebe rapidamente a atividade de escritor como laborioso exercício solitário, tão ou mais solitário quanto o vivido na clínica, responsável por essa nova exigência, atormentando-o como um bicho interior, desassossegado, impertinente, exigente. Sabe, enfim, ter havido mudança subjetiva devendo enfrentar, daqui por diante, o longo e tortuoso caminho em direção à autoria.

Em outras palavras, a detonação provocada no vivido da clínica possui não só uma natureza pática, mas é, principalmente, lógica, pois o detonado pela atividade psicoterapêutica é a própria formação que deveria assegurar, imaginariamente, o acesso ao discurso majestoso e impávido de um mestre proposto como irretorquível. A formação garante ao psicoterapeuta a inclusão num logos ortodoxo, ou seja, numa posição lógica irrepreensível, protegendo-o de qualquer tropeço, até o encontro com seu primeiro paciente portador de um mal-estar na ortodoxia do logos. A partir daí, na medida de sua vivência clínica, o psicoterapeuta acumula mal-estar lógico, produzindo nele uma série de mecanismos reativos, indo desde a cega e regressiva adesão militante ao discurso do mestre até a grave desilusão com a psicoterapia e o abandono dessa atividade. Entretanto, o psicoterapeuta sabe estar na contingência de ter de caminhar em direção à palavra bem representativa de seu próprio vivido, tornando-se um autor. Esse caminhar se inicia, então, na catástrofe detonante provocada no seio da ortodoxia que deveria amparar o psicoterapeuta enquanto vive a condição de porta-marcas do transferido pelo paciente.

É nesta ocasião que o Laboratório de Psicopatologia Fundamental pode ser um bom ambiente, pois acolhe o mal-estar solicitando ao psicoterapeuta ingressante um projeto de pesquisa escrito, com um problema de investigação originado na clínica. Não havendo, neste grupo de pesquisa, lugar para a elaboração de discurso desconectado da vivência clínica, nem da chamada "clínica do social" em que o objeto de análise – a sociedade brasileira, a instituição etc. – é abstração coletiva, enfatiza-se a natureza clara e precisa do método clínico, cuja principal exigência epistemológica é a referência ao caso sempre único, até mesmo quando múltiplo.

O problema de investigação é primeiro exercício científico, transformando a situação problemática, o mal-estar com matriz biológica e cultural, numa clara e precisa discrepância entre aquilo que é (a detonação ocorrida na clínica) e aquilo que deveria ser (a palavra inadequada adquirida na formação). Um problema de investigação inaugura uma nova lógica do pathos. Trata-se, agora, de relação em que a palavra é instável, passível de desmentido, de modificação de sentido atestando que o vivido na clínica é um discurso no qual habita o pathos psíquico, não sendo nenhuma garantia contra o tropeço detonador. Assim, não há mais como repetir o dito pelo Senhor Mestre, mas de elaborar posição subjetiva no logos onde há uma constante busca paciente e sistemática pela palavra representativa do vivido, sem a convicção de que a nova casa denominada autoria seja âmbito de proteção e descanso do psicoterapeuta.

Não obstante, a meta, num problema de investigação, é trabalhar em direção à palavra cada vez mais específica e claramente representativa da discrepância e, portanto, do vivido. Escrever não é só um ato singular, pois ocorre numa comunidade de pensamento, de pesquisa e de palavra. Sem a existência dessa comunidade, pode ser que os recursos perceptivos do psicoterapeuta fiquem cada vez mais elaborados, mas, na intensa solidão dessa ilha onde a palavra escrita não se faz necessária por ausência de outro, o mundo percebido não encontra, muitas vezes, a representação de palavra necessária para testemunhar a mudança da posição subjetiva e da especificidade do vivido. Freqüentemente cria-se, em conseqüência, uma cisão entre o vivido na clínica e o discurso extramuros. Depois de longas horas elaborando sua escrita, o autor precisa de leitores com quem possa dialogar sobre seu escrito. Além disso, precisa ler outros autores, com outros escritos, para avivar sua memória da palavra escrita.

Ingressando no Laboratório de Psicopatologia Fundamental, o pesquisador coloca em discussão seu projeto, anteriormente lido e comentado com o diretor do grupo. Trata-se de um primeiro contato com o leitor, ou seja, com quem é capaz de ler, pensar e comentar o lido, visando uma compreensão aprimorada do escrito e o reconhecimento de palavra representativa de autoria. Esse primeiro trabalho é acompanhado de outros textos, pois, no ingresso, cada pesquisador se compromete a escrever dois trabalhos por ano, que são encaminhados para os colegas pesquisadores lerem e comentarem fora do âmbito dos encontros formais do Laboratório. Em cada sessão de trabalho, ocorrendo a cada 15 dias, às quintas-feiras, das 9:00 às 12:00 horas, durante o ano universitário, dois trabalhos distribuídos aos membros do grupo, com 15 dias de antecedência, são discutidos num ambiente onde se buscam palavras enriquecedoras e esclarecedoras, contribuindo para o aprimoramento lógico do escrito apresentado. A autoria revela-se, desta forma, ser um trabalho de pesquisa tanto singular como coletivo e a escrita envolve uma elaboração visando o encontro da palavra a mais exata possível. Há, nesta atividade, um burilar, um trabalhar o próprio texto, só encontrando fim quando há um sossego interior a respeito do que se pretendia dizer. No Laboratório, o pesquisador descobre depressa que a atividade da escrita envolve "10% de inspiração e 90% de transpiração".

O encontro da palavra, laboriosamente buscada, com seu autor é, também, um ato psicoterapêutico, pois quando reconhece a palavra como sua, deixa de ser um ortodoxo, não mais sofrendo por não encontrar na lógica do mestre o vivido na sua clínica. Aprende, assim, que o mal-estar decorre da discrepância entre o vivido e o representado e que o caminho em direção à própria palavra colmata a dor, a depressão e a angústia da detonação, abrindo espaço para outra posição subjetiva.

O caminho em direção à autoria passa, freqüentemente, pela convocação de "juntas médicas" em que diferentes autores oferecem ao pesquisador suas próprias palavras a respeito do problema investigado. Nestas ocasiões, o pesquisador sofre a tentação de escrever entre aspas, colando frases escritas anteriormente por outros.

No Laboratório não há lugar, também, para textos hermenêuticos, pois a psicopatologia fundamental não é considerada atividade de revelação de sentido. A hermenêutica possui um importante lugar no processo de formação do psicoterapeuta, pois é necessário não só aprender a escutar como aprender a ler. A hermenêutica vai constituindo uma posição ortodoxa necessária para a constituição da autoria. Sem uma ortodoxia bem constituída não pode haver detonação lógica no vivido da clínica, pois a falha do discurso do mestre instalada pela formação no psicoterapeuta precisa ser, também, uma catástrofe que o atinge.

Os escritos entre aspas revelam tanto a detonação como o desamparo do autor e a "junta médica" é o reconhecimento do fim da ortodoxia e da inexistência ainda de uma autoria. Esses recursos defensivos protegem o pesquisador do sofrimento causado pela detonação, mas evitam, também, o caminhar em direção à própria palavra. Precisam, portanto, ser elaborados no acolhedor ambiente de trabalho do Laboratório, onde ninguém é portador de um logos com estatuto de verdade magistral.

É necessário observar, entretanto, que alguns psicoterapeutas não agüentam ver textos desconstruídos por colegas e desistem de freqüentar este espaço, evidenciando, desse modo, as grandes dificuldades envolvidas na pesquisa em psicopatologia e que, nem sempre, o Laboratório é um ambiente suficientemente bom.

Os que suportam ver seus textos lidos, pensados, analisados e comentados por colegas vão descobrindo o rico significado de fazerem parte de uma comunidade de trabalho em direção à própria palavra.

Para que esse ambiente esteja minimamente assegurado, ninguém pode fazer parte dele sem ter um projeto de pesquisa escrito e aprovado pelo seu diretor, e qualquer pesquisador tem o direito de vetar a entrada de alguém enquanto estiver desenvolvendo seu trabalho, pois uma comunidade de pesquisa em busca da própria palavra não suporta ameaças de ataques ao pensar e ao livre escrever o pensado.

Ao diretor cabe, por sua vez, ser, ao mesmo tempo, tolerante e exigente. O diretor, muitas vezes, ocupa a incômoda posição do Moisés de Michelangelo analisado por Freud. Há que ser capaz de conter sua ira diante de certas tentações grupais resistentes à autoria, exigindo um constante trabalho de aprimoramento da escrita, revelando aos pesquisadores que precisam ser tão precisos com a palavra como os poetas.

Os pesquisadores, por sua vez, descobrem não serem os únicos detonadaços em seus logos e reconhecem a existência de múltiplos problemas compondo o campo da psicopatologia. Lendo, pensando e comentando os textos dos colegas e de outros autores descobrem questões existentes no vivido da clínica e, assim, aumentam sua capacidade psicoterapêutica, podendo escutar ditos anteriormente ignorados. Noto que o intervalo do café constitui uma outra oportunidade na qual se dizem coisas mais íntimas e menos formais A participação no Laboratório produz ampliação do âmbito da escuta, tratando, assim, da capacidade psicoterapêutica. Os pesquisadores se encontram em outros autores, em palavras que podem emprestar para compor seu próprio discurso, sem estar praticando plágio ou aspas. Reconhecer isso é tomar consciência de fazer parte de uma comunidade mais ampla, com longa e rica tradição. Finalmente, aprendem a sustentar posições dadas por palavras laboriosamente buscadas para representar condignamente o seu vivido. E isso permite uma notável ampliação do campo de interlocução com diferentes que pode contribuir, aqui e ali, para o próprio logos do pesquisador.

A diversidade de posições discursivas habitando a Universidade revela ao psicoterapeuta algo sabido e esquecido na formação: que a Torre de Babel pode ser muito útil para a resolução de um problema de investigação se o psicoterapeuta for capaz de se afastar das palavras do mestre e reconhecer as palavras compondo seu próprio logos nos discursos pronunciados por outros, em outras circunstâncias. Reforça-se, desta maneira, a autoria distante de um ideal de originalidade inexistente tanto na pesquisa científica como principalmente na atividade clínica.

O caminho em direção à própria palavra é um processo de miscigenação de logos constituindo mais um logos. A psicopatologia vem sendo construída e pronunciada desde há muito, sendo reconhecida, por exemplo, em Hipócrates, nos trágicos gregos, em Platão. Pesquisar em psicopatologia quer dizer, então, inserir mais um logos nos múltiplos logos existentes, fazendo parte de uma tradição que precisa ser constantemente reconhecida, já que é assim que se enriquece a própria palavra. Faz parte da pesquisa ler o já escrito sobre o problema de investigação não apenas para constituir uma erudição e um interminável discurso entre aspas, mas para reconhecer os outros logos já construídos por outros. Essas leituras são profícuas na medida da estimulação da memória do vivido e, por isso, devem ser sonhadas no próprio ato de leitura.

Uma rica biblioteca especializada precisa ser acessível ao pesquisador e já se sabe que, aqui, não basta o acesso ao incomensurável mundo de fontes, títulos e textos disponíveis na Internet. É preciso o livro, a revista, o artigo impresso, o objeto de leitura para que esta se faça. É necessário que a palavra escrita pelo outro esteja num objeto possibilitando a intimidade necessária ao sonho na leitura. Nenhuma tela de computador, nenhuma folha saída de uma impressora são suficientes para essa necessária intimidade da pesquisa em psicopatologia.

A construção de uma rica biblioteca é um trabalho coletivo permanente, requerendo muitos recursos financeiros e grandes espaços, além de especialistas na classificação, catalogação e cuidados com as publicações existentes. Uma rica biblioteca não quer dizer um único espaço agrupando todas as publicações existentes no assunto, mas um ambiente bibliográfico, uma rede de espaços em que seja possível o acesso ao procurado para a leitura. Esse ambiente já existe em escala mundial graças aos fantásticos recursos proporcionados pela Internet. Mas é necessário ter uma biblioteca para ter acesso a outras bibliotecas e, assim, melhor pesquisar. Por outro lado, dado o acesso às fontes bibliográficas, é necessário não esquecer que a pesquisa visa o caminhar em direção à própria palavra, pois o pesquisador pode, facilmente, se perder no oceano do já escrito.

O Laboratório de Psicopatologia Fundamental não é um espaço de pertinência. A participação de cada pesquisador tem duração limitada: o tempo necessário para concluir a investigação e elaborar um documento escrito – relatório, dissertação de Mestrado, tese de Doutorado, trabalho de Pós-Doutorado, artigo para revista especializada ou livro. Uma vez concluído esse caminho, o pesquisador encontra-se automaticamente desligado do Laboratório. Este desligamento é muito importante para a constituição de uma autoria, do reconhecimento de ter realizado um trabalho condigno em direção à palavra representativa do vivido na clínica. É, entretanto, notável reconhecer que há uma certa tentação em transformar o Laboratório numa espécie de associação universitária, podendo provocar catástrofe destruidora desse ambiente e mutação para um outro, com outra espécie vivente.

No caminho percorrido até aqui é possível perceber, também, que os trabalhos elaborados pelos pesquisadores do Laboratório deveriam ser apresentados e comentados por outros pesquisadores, já que é pela via da divulgação e do debate subseqüente que se pode reconhecer a relativa pertinência de um logos. Foram criados, para isso, três importantes ambientes extensivos do Laboratório: o Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental, a Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental e a Biblioteca de Psicopatologia Fundamental, série de livros publicada pela Editora Escuta. Por meio deles, os trabalhos dos pesquisadores são divulgados e se enlaçam com outros, escritos por autores que não fazem parte do Laboratório. Vai se estabelecendo, desta forma, uma densa rede discursiva representativa do vivido na clínica, denominada Psicopatologia Fundamental. Esse logos depende da contribuição de múltiplos logos pronunciados e escritos por incumbentes de múltiplas tradições: psicanalistas, psiquiatras, filósofos, jornalistas, artistas; todos revelando suas próprias palavras a respeito do pathos psíquico. Fica evidente, assim, que nenhuma posição conhecida e nenhum discurso elaborado esgota o pathos psíquico, havendo sempre lugar para nova autoria.

Finalmente, a iniciativa do Laboratório da PUC-SP foi acompanhada pela criação de outros laboratórios de psicopatologia no Brasil, pela Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, pela Rede Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental que se transformou recentemente na Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental e pelo Concurso Pierre Fédida de Ensaios Inéditos de Psicopatologia Fundamental.

Assim, até agora, o Prof. Dr. Mário Eduardo Costa Pereira criou o Laboratório de Psicopatologia Fundamental do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP; o Prof. Dr. Ney Branco de Miranda criou o Laboratório de Psicopatologia Fundamental do Instituto de Psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo, a Profa. Edilene Freire de Queiroz criou o Laboratório de Psicopatologia Fundamental e Psicanálise do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade Católica de Pernambuco a Profa. Dra. Mériti de Souza criou o Laboratório de Psicopatologia Fundamental do Departamento de Psicologia Clínica da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual Paulista – UNESP de Assis, São Paulo e a Profa. Dra. Ana Cleide Guedes Moreira criou o Laboratório de Psicanálise e Psicopatologia Fundamental da Universidade Federal do Pará - UFPA. Cada um desses grupos permanentes de pesquisa obedecem a peculiaridades próprias constituindo-se em sua singularidade.

A Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental é publicação trimestral do Laboratório de Psicopatologia Fundamental da PUC-SP, do Laboratório de Psicopatologia Fundamental da UNICAMP e da Rede Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental, cujo primeiro número saiu em março de 1998, contando, já, com o apoio da Fundação de

Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP que vem, periodicamente, reconhecendo sua excelente qualidade científica. A vocação de publicação científica internacional se manifesta claramente a partir do volume 1, número 3, de setembro de 1998, e daí por diante vai se consolidando como espaço para trabalhos de autores nacionais e estrangeiros, realizando, assim, a política editorial visando publicar, prioritariamente, os trabalhos dos pesquisadores dos Laboratórios e da Rede em conjunto com artigos considerados de excelente nível científico escritos por outros autores. Em 1999, ela foi avaliada pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Psicologia – ANPEPP por solicitação da Campanha de Aperfeiçoamento do Pessoal do Ensino Superior – CAPES. Das 49 revistas e periódicos brasileiros nos quais professores ou estudantes dos Programas de Pós-Graduação em Psicologia publicaram no período de 1996-1998, a Revista foi a quinta colocada em qualidade. A partir de março de 2000, todos os artigos encaminhados para publicação passam por avaliação de consultores externos cujos nomes são mantidos em rigoroso sigilo. Em julho de 2000, foi indexada na base de dados LILACS/BIREME – Literatura Latino-Americana da Saúde, da Organização Pan-Americana da Saúde - OPAS e da Organização Mundial da Saúde – OMS. Já estando indexada, também, na INDEX PSI – base de dados dos periódicos brasileiros na área de Psicologia, a Revista passa a ser um reconhecido instrumento de divulgação científica na área da psicopatologia. Ela, hoje, se sustenta com assinaturas, vendas de números avulsos e eventuais auxílios parciais da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP.

O Concurso Pierre Fédida de Ensaios Inéditas de Psicopatologia Fundamental consiste num estímulo à autoria de trabalhos científicos podendo contribuir para o avanço do conhecimento sobre o tratamento e a prevenção do sofrimento psíquico. Na primeira versão do Concurso, ocorrida em 1999, quatro trabalhos competiram pelo prêmio. Em 2000, foram nove as monografias. A versão de 2002 já foi anunciada e o resultado será conhecido no VI Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental, em Recife, PE.

A Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental, criada em 2002, resultando da Rede existente desde 1997 reúne, atualmente, 30 pesquisadores doutores (ou quase doutores) de 22 universidades sendo 25 de 18 universidades brasileiras, 2 da Argentina, 1 do Uruguay, 1 do México e 2 de duas universidades francesas. A Associação é co-responsável pela qualidade científica do Congresso, da Revista e do Prêmio e, além da comunicação eletrônica, publica, periodicamente, o Latin-American Journal of Fundamental Psychopathology on Line e realiza um encontro anual de seus membros.

A construção deste complexo ambiente universitário de pesquisa só está sendo possível graças ao empenho de numerosas pessoas e de recursos fornecidos, inicialmente, por um auxílio temático do CNPq e, depois, por recursos concedidos pela FAPESP. A Fundação Manoel Berlinck e a Fundação Mario Pereira têm, também, contribuído financeiramente para o sucesso deste empreendimento.

O intenso e sistemático trabalho visando à constituição de pesquisadores autores tem sido acompanhado de algumas importantes constatações de ordem metapsicológica. Assim, nestes cinco anos, destaca-se o reconhecimento de que o aparelho psíquico, organização narcísica do vazio, possui função eminentemente defensiva, sendo, por isso, parte inerente do sistema imunológico. Determinadas condições psíquicas podem afetar decisivamente a capacidade do sistema imunológico em proteger o organismo, deixando-o à mercê de ataques virulentos vindos tanto do exterior como do interior.

Gallo e Montaigner já observaram que a ação nefasta do vírus HIV é sensivelmente maior em pacientes deprimidos.

Pesquisa realizada no âmbito do Laboratório de Psicopatologia Fundamental, pela Professora Ana Cleide Guedes Moreira, da Universidade Federal do Pará, revela não ser a depressão mas a melancolia a afecção psíquica responsável por um aumento da insuficiência imunológica, descoberta que conduziu à elaboração de um estado denominado "insuficiência imunológica

 

psíquica". Pacientes deprimidos não melancólicos não apresentam variação notável na suficiência imunológica. Entretanto, pacientes reconhecidamente melancólicos são nitidamente vulneráveis à ação do vírus. Esta constatação clínica possui importante conseqüência metapsicológica: a distinção entre depressão e melancolia solicitando a formulação de dois campos semânticos precisos. Enquanto a primeira é um estado afetando todas as estruturas psicopatológicas, a melancolia é uma neurose narcísica autodestrutiva. Apesar da melancolia apresentar depressão, não pode e não deve ser confundida com este estado, pois isso provoca graves conseqüências clínicas. Entretanto, a confusão entre depressão e melancolia possui uma longa tradição. Assim, já Michel de Montaigne, escrevendo sobre a tristeza, afirmava, por volta de 1580, que os italianos batizaram essa paixão como maldade, fazendo confusão entre estado psíquico e estrutura neurótica.

O autismo também tem sido pesquisado por diversos pesquisadores do Laboratório, como Antonio Ricardo Rodrigues da Silva, Lou Muniz Atem, Veridiana Fráguas e Silvana Rabello. Estas pesquisas têm contribuído para a melhor compreensão sobre a constituição e o funcionamento primitivo do aparelho psíquico.

Depois de sete anos de intenso trabalho, é possível dizer – graças à variedade, à qualidade e à relevância das pesquisas desenvolvidas – que o Laboratório de Psicopatologia Fundamental é um bom ambiente tanto para se caminhar em direção à palavra própria como para se elaborar a vivência clínica.

São estas as considerações que pretendia apresentar e respeito do logos, pois, como é sabido, mas às vezes esquecido, a palavra não é dom divino.

 

* Versão modificada da Conferência apresentada no V Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental, realizado de 15 a 17 de setembro de 2000, em Campinas, SP e do artigo de mesmo nome publicado em Cadernos de Psicologia, revista do Departamento de Psicologia da UFMG, vol. 10, dezembro/2000, pp. 105-116. A versão definitiva encontra-se, também em Edilene Freire de Queiroz e Antonio Ricardo Rodrigues da Silva (Orgs.), Pesquisa em Psicopatologia Fundamental, São Paulo, Escuta, 2002.

 

* Manoel Tosta Berlinck é sociólogo, psicanalista, Ph.D. pela Cornell University, Professor do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP onde dirige o Laboratório de Psicopatologia Fundamental, presidente da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental, editor responsável da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental e de Pulsional Revista de Psicanálise, diretor da Editora Escuta e da Livraria Pulsional, autor de numerosos artigos publicados em revistas nacionais e estrangeiras e de Psicopatologia Fundamental (São Paulo, Escuta, 2000).