O PIÁ, O PAI E O PIÁ: PSICANÁLISE, GRUPO E EDUCAÇÃO
Escrito por Irene Carmem Piconi Prestes
Sáb, 29 de Março de 2003 03:00
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O Piá, o pai e o piá: Psicanálise, Grupo e Educação

 

Irene Carmem Piconi Prestes*
Zama Caixeta Nascentes**

 

 

Resumo: Como parte das atividades do Estágio de Psicologia Escolar, o trabalho foi desenvolvido em duas unidades do Projeto Piá Ambiental mantido pela SMMA da Prefeitura Municipal de Curitiba. Partindo de conceitos da Psicanálise e aplicando-os a grupos de pais cujos filhos freqüentam unidades do Projeto Piá Ambiental, foi feito um trabalho de cunho educativo e preventivo no que diz respeito à relação pais-filhos. Educação entendida como esclarecimento de  relação entre a dinâmica psíquica do filho e o lugar dado a ele pelos pais e prevenção o efeito disso sobre pais: a mudança operada no modo pelo qual lidam com os filhos e, por conseguinte, a transformação também nos filhos. Tal transformação será sentida dentro do Projeto, instituição de Educação não formal, sendo este então um outro sentido para o “educativo” com que caracterizamos a natureza do trabalho: seu efeito incidirá no espaço sócio-educativo do Piá. Recortaremos, do conjunto de questões emergidas ao longo de seis meses e nove encontros, a questão do pai: a diferença notada quando da sua presença no Piá e no piá, sua ausência da vida dos filhos, o modo como o discurso da mãe torna presente o pai ausente e, por fim, a destituição da sua autoridade operada pela mãe.

 

*Psicóloga. Mestre em Educação. Professora na UTP; UNIANDRADE. Supervisora do estágio de psicologia escolar.                                                                          

**Professor. Acadêmico do curso de psicologia. Licenciado em Letras e Filosofia. Especialista em Língua Portuguesa (FFCL de Patos de Minas-MG) e Filosofia Política (UFPR).

 

 

Introdução

            Grupo e Psicanálise; Educação e Psicanálise: é possível a aproximação? Sim, e, se não demonstrá-la, pelo menos exemplificá-la a partir de nossa experiência vivida no Estágio de Psicologia Escolar, é o que será feito aqui.

O grupo se constituiu a partir de pais e mães com filhos em uma das duas unidades do Projeto Piá Ambiental onde realizamos o estágio. Embora instável a freqüência, porquanto havia sempre novos participantes nos encontros, sempre existia alguém que já participara de um outro encontro. Logo, formou-se, efetivamente, um grupo, e não precisamos em nenhum momento começar do ponto zero.

Por estarmos numa instituição cuja razão de existir é a educação ambiental, pode-se, sim, falar de um trabalho na área da Educação. Se não se trata de educação no sentido formal (educação infantil, básica ou superior), o Piá Ambiental constitui-se um espaço sócio-educativo, já que, para além do seu específico (educação ambiental) ocupa-se também de uma questão maior, a da cidadania (por isso trabalha com a família,  preocupa-se com a inserção do adolescente no mercado de trabalho). E a Psicanálise?

            Reconhecida sua eficácia para lidar com o intrapsíquico, problematiza-se a validade de transpor para o interpessoal, no nosso caso o grupal, a Psicanálise. Tal problematização, talvez, tenha sido responsável pelos poucos trabalhos na área de Psicologia Escolar (pelo menos em nossa espaço universitário) a serem feitos a partir de um referencial psicanalítico. Qual contribuição deu-nos a Psicanálise quando trabalhamos com Educação e com Grupo se ao longo de sua história ela se consolidou na Clínica e  no trato com as questões do Sujeito? Quem se dispuser a ler este artigo encontrará ao longo dele respostas a essa questão. Para não frustrar os desavisados e os cépticos, já pomos aqui parte da resposta: ajudou-nos a escutar sujeitos - dispensando dinâmicas de grupo como um fim em si mesmo - e ao devolvermos a eles o não dito no seu dizer, a devolução gerava um efeito de grupo, desencadeando nos outros participantes a necessidade de falar também.

 

O Piá

Criado em 1990 pela Prefeitura Municipal de Curitiba e coordenado pela Secretaria de Meio Ambiente (SMMA), o Piá Ambiental é concebido como um programa de educação ambiental em áreas carentes. No ano de 2001, funcionaram ao todo trinta e quatro unidades na cidade de Curitiba, das quais trabalhamos com duas.

A demanda por um trabalho com os pais surgiu de uma atividade desenvolvida em 2000, conduzida por estagiários de Psicologia, com as crianças de algumas das unidades do Projeto Piá. As conclusões apontaram para a pertinência de se estender aos pais algo da mesma natureza. Se não os atinge, torna-se difícil qualquer ação exitosa junto à clientela do Piá. Para levar adiante a proposta é que entramos na história do Piá Ambiental. O projeto previa seis encontros, uma vez por mês, com pais e mães de crianças do Projeto, objetivando ouvi-los na sua relação com os filhos. Partindo dessa escuta, foram trabalhados aspectos da constituição subjetiva da criança (dimensão educativa) para, mediante a compreensão dos processos envolvidos - a importância do desejo dos pais, o lugar dado por eles a esse filho hoje no Piá, as identificações estabelecidas pela criança, a participação do Piá enquanto fornecedor de outros modelos identificatórios e propiciador de um distanciamento dos modelos primordiais fornecidos pela família - nessa subjetivação, os pais se perceberem na relação com a criança, advindo, como efeito, a mudança na criança porque houve um trabalho com os pais (dimensão preventiva), efeito este a ser refletido diretamente na conduta do piá dentro do Piá (outro aspecto da dimensão educativa, pois o resultado do trabalho tem em vista o Projeto enquanto instituição de Educação).

Exceção feita ao primeiro, quando os pais não sabiam do motivo do encontro, todos os outros foram realizados com um público de três a oito pessoas. Considerando o número de matrículas em cada unidade - em torno de noventa - nota-se a baixa representatividade da clientela. Creditamos esse fato à própria novidade do trabalho desenvolvido e aos seus propósitos. Quem quiser resultados imediatos na área da Educação deve trocá-la por outra. Não se pode esperar dos pais compreensão e envolvimento com um tipo de trabalho totalmente novo para eles. Tomar a demanda da coordenação do Piá como demanda deles, pais, também isso é um dos objetivos do trabalho. Logo, não se pode exigir, como ponto de partida, a demanda por parte dos pais. Analisado assim o fenômeno da baixa participação, não o vimos como desalentador, antes como mais uma tarefa inscrita no bojo mesmo do nosso projeto.

 

O pai e o piá

Recortes impõem-se. O pai foi o nosso. Ao longo do trabalho, poucos pais tomaram  parte nas reuniões: em uma unidade, apenas um e somente a uma; noutra, um pai em duas e um outro presente uma vez só. Antes de irmos para o segundo ponto, o pai como comparece no discurso das mães, detenhamo-nos neste.

Repete-se em todos os pais o mesmo fenômeno: pai em casa, paz em casa. Ou seja, a queixa trazida por eles é a desobediência dos filhos à mãe – exceção feita a um dos pais, cuja filha obedece também à mãe – não a eles. É para se perguntar aos textos psicanalíticos: o que é um pai para ser tomado de modo tão diferente daquele pelo qual o filho toma a mãe? Não queremos cair num anacronismo e dizer ser o pai a encarnação da autoridade, cuja presença por si basta para se fazer respeitar. Afirmá-lo parece ser um saudosismo de um tipo de família bastante esfumada hoje. Mas, se não o tomar assim, como entender a repetição na fala desses três pais? Parece-nos ainda valer a concepção psicanalítica do pai como representante da lei, da proibição, enquanto a mãe o é no plano do assegurar as necessidades básicas da criança e do promover-lhe a erogenização do corpo, por mais que estejamos distanciados no tempo e no espaço do tipo de família conhecido por Freud.

         Não só a fala desses pais permite-nos levantar tal hipótese. Há o depoimento de uma mãe a apontar para o mesmo fenômeno. Trazia-nos esta preocupação: os dois filhos mais velhos ultimamente vinham enfrentando-a, questionando suas proibições e não dando ouvido às suas recomendações. Logo em seguida, disse não ocorrer o mesmo com o pai, a quem os meninos de fato obedecem. Embora não tivéssemos ali o pai, a mãe vivia situação semelhante à reportada pelos pais acima. Considerando a importância da Lei na subjetivação da criança, única capaz de fazê-la ceder o seu desejo às injunções do princípio de realidade, nossa intervenção, em ambos os casos, foi esta: indicar à mãe e aos pais a positividade aí existente, o filho obedece ao pai, desfixando-os da negatividade, o filho não obedece à mãe.

Falando do pai respeitado não estamos nós para sustentar a atemporalidade das asserções psicanalíticas acerca do pai enquanto representante da Lei; antes, estamos a preparar terreno para esta questão, a nosso ver muito mais séria, e que se repetiu em praticamente todos os encontros nas duas unidades do Piá: o que acontece ao piá quando falta o pai?

    Porque não tivemos contato com outros pais, mas só os conhecemos pelo que dele nos revelou a mãe, é que antes falávamos de um “segundo ponto”, o pai “como comparece no discurso da mãe”.  Vamos a ele.

De todas as mães com que trabalhamos, apenas duas permanecem no primeiro casamento e não têm “marido-problema”, ou seja, nesse caso o pai está em casa e é autoridade, diferente dos outros em que o marido, por razões diversas mas em especial pelo alcoolismo, é destituído pela mulher, destituindo-se com isso também o pai. Configurando-se como uma autêntica característica do grupo,  temos o fato de as demais mães: a) serem separadas e viverem sem um companheiro; b) estarem num segundo ou terceiro relacionamento – e muitas vezes o pai da criança no Piá não é o atual companheiro – ou;  c) terem  um “marido-problema” (alcoólatra, na maioria dos casos, ou sem iniciativa), desacreditado e descreditado. Possuem em comum esses aspectos, criando assim entre elas elementos de identidade enquanto grupo. Para além da vinculação dos filhos a uma mesma unidade do Projeto Piá, unia-as suas vidas, muitas  vezes historiadas de desgraças e de sofrimentos. Tudo isso dava-nos a certeza de estar diante de um grupo e, por isso mesmo, nossas intervenções ao ouvir o relato de uma aplicavam-se também à experiência de outra, tornando o encontro um efetivo trabalho de grupo e não uma sucessão de escutas e interpretações individualizadas. Às vezes acontecia verdadeiro “roubo de intervenções”, ou seja, diante do relato de alguém, uma das participantes interagia e fazia pontuações que... deveriam ser nossas, não deixando dúvidas da existência de um grupo ali.

Constituídas assim as famílias dessas mães e levando em conta o “pai obedecido e respeitado” de que falávamos antes, põe-se a pergunta: o que acontece aos filhos dessas mães? O problema deles é o da procura pelo pai. Aqui, impõe-se uma pausa para um comentário teórico.

No cap. 9 do seu Seminário 5, ao afastar o “ponto de vista ambientalista” e o conceito de “carência paterna”, Lacan lança a pergunta “que é o pai? Não digo na família, porque na família, ele é tudo o quiser (...) A questão toda é saber o que ele é no complexo de Édipo”. Conclui logo em seguida que “o pai é uma metáfora” e uma metáfora “é um significante que surge no lugar de outro significante (...) A função do pai no complexo de Édipo é ser um significante que surge substituindo o primeiro significante introduzido na simbolização, o significante materno”.[1] Na seqüência do nosso trabalho, quando falarmos do piá procurando o pai ou até mesmo de falta do pai, não é pai conforme definido aqui por Lacan. Se fosse nesse sentido, estaríamos tornando psicóticos todos os filhos das mães ouvidas ao longo do trabalho. Se um outro que não o pai biológico pode exercer a função paterna, a indagação da criança pelo genitor não cessa com a inscrição do Nome do Pai. Seu mito de origem fica mal tecido enquanto não acha o ancestral, poderíamos dizer. É da busca por esse elo perdido da  sua origem que estaremos tratando, não do pai enquanto o terceiro da triangulação edípica; aliás, esse não se busca, é apontado à criança pela própria mãe e se ela não o faz, não lhe sobra depois espaço para sua entrada e o sujeito se estrutura psicoticamente.   

 O que ouvimos das mães separadas - porque a permanência ao lado do marido fazia-as sofrer muito, seja por causa do vício da bebida, seja por causa da violência, quando não o somatório das duas coisas - é a dificuldade, às vezes impossibilidade mesmo,  de se falar do pai ao filho porque o pai é também o marido que as fez sofrer. Noutras palavras, não conseguem separar o ser mulher e o ser mãe. Uma das mães nos contava estar surpresa porque a filha, E., diante da morte do pai com quem não convivia desde o nascimento, não o chorara. Queixava-se a mãe: ela não expressou suas emoções. Perguntamos à mãe se ela expressava suas emoções pelo marido, mesmo separada dele, à filha. Não, respondeu-nos. Pois bem, como queria agora a filha expressando emoção se a mãe nunca o fizera, antes silenciara seus sentimentos enquanto mulher? Ademais, aquele homem morto já era morto enquanto pai há muito tempo, pois se fizera morto também no discurso da mãe; ela não falava do marido em casa e não permitia à filha tomar contato com o pai sequer através da palavra. Tentando dar à filha um pai, a mãe a cercara de pessoas importantes – uma delas o avô materno - (a dinâmica do encontro convidava os participantes a porem numa folha de papel o nome dessas pessoas), conforme ela mesma dissera depois, “é para compensar a falta do pai”. Compensa-se a falta de um pai?

Não, pelo menos é a resposta dada por uma outra filha, J., em idênticas situações – mãe separada. No primeiro encontro de que a mãe participou, dissera ser o avô materno muito atencioso, apontando ser ele quem exerce a função de pai na vida de J. Todavia, noutro encontro, designara-a pelas palavras dengosa e mentirosa. Interrogada sobre com quem teria identificado a filha ao constituir-se assim, a mãe trouxe o pai de volta, mesmo não convivendo com a criança, passando a relacioná-lo ao mentirosa característico da filha. Ouvindo-a melhor, esclareceu-se o modo pelo qual J. pôde achar o pai. Achou-o através do discurso da mãe que, ao censurá-la por mentir, usava sempre a expressão, “você é mentirosa igual ao pai”. Da censura J. só escutou o de seu interesse, “igual ao pai”, isto é, já que o pai não a quer ver e a mãe não a deixa ir vê-lo e sequer sabe dizer-lhe do desinteresse do pai em conhecer a filha, J. arranjou-se com o que lhe restou: o pai apresentado no discurso da mãe como mentiroso. Encontrou-o e fez-se igual a ele; mentindo, diz a sua verdade com a qual constitui o seu mito de origem, “eu tenho um pai”. Ao fazê-lo, responde à mãe não ser o avô um substituto do pai.

Apegar-se a R., um dos voluntários a trabalhar na unidade, foi a resposta dada pelo neto de C. à tentativa da avó de filiá-lo ao avô (a mãe, com outro companheiro, deixou a criança com a avó). No segundo encontro realizado na unidade, a mãe insistia no quanto o menino,  em casa, fala de R.. Às vezes, já deitado, chama a avó para certificar-se de estar ela acordada: põe-se a contar os feitos e os ditos de R., dando a entender claramente em que lugar o coloca. Mais uma vez, diz-se não ao avô, trocando-o ainda que seja por alguém fora da família.  

Também é não a resposta dada por W., em situação semelhante à de J: apontado como mentiroso pela mãe, o encontro mostrou ser essa a forma pela qual ele também achou o pai, pois a mãe, pensando corrigir-lhe o hábito de mentir, também o censurava como a mãe de J., “você é mentiroso igual ao pai”.  A fala das duas mães ocorreu num mesmo encontro, a partir de uma intervenção feita à mãe de J. Identificando-se e reconhecendo-se na interpretação, a mãe de W. pôs-se a falar, exemplificando assim o afirmado no começo deste artigo de que interpretações para o sujeito criavam efeito de grupo, sendo assim intervenções no grupo. Separada do marido, a mãe evitava falar dele em casa. Esconde com isso o pai. Certa feita W. perguntou-lhe se ele tinha um pai. Apontar-lhe o céu e Deus como pai foi a resposta da mãe. W. estava condenado a tomar Deus como substituto do pai tanto quanto J. o avô materno. Salvaram-nos o discurso da mãe: trouxe de volta o pai antes silenciado. Logo, parece, na construção do mito de origem, não haver um substituto para o pai. É procurado sempre.

Diante dos casos de J. e W., discutimos com as mães a inviabilidade do estabelecido por elas: negar o pai. A própria entrada do filho para o Piá reativou – se é que um dia esteve desativada – em W. a curiosidade de saber quem é o pai e no neto de C. a atitude de tomar um outro, R., se não como pai pelo menos como modelo identificatório. Essas foram as mais claras indicações do quanto o Piá Ambiental remexe a constituição subjetiva iniciada na família. Se a família quis esconder o pai, o convívio do piá no Piá mostra-lhe que os outros piás do Piá têm pai. Inevitavelmente, pergunta-se pelo seu pai e indaga a mãe. Esse outro que o gerou não pode ter sido o avô: fracassa-se a resposta da mãe.

Parece não haver substituto para o pai. Há-o para o marido?

Sim, e duas são as possibilidades de se substitui-lo: uma, arrumando-se um outro companheiro; outra, colocando no lugar do marido o filho. Deparamo-nos com as duas situações. Nos dois casos permanece a pergunta: onde ficou o pai agora que o marido foi substituído? Comecemos pela primeira via de substituição.

Como já dissemos, estar num segundo ou terceiro relacionamento era um dado recorrente entre a história dessas mulheres. Como fica a construção da subjetividade do filho nesses casos? Entram em jogo aqui, quando ensaiamos uma resposta a essa última questão, diversas variáveis, como a idade da criança, como seriam estes outros companheiros com quem a mãe se relacionaria. A quem ele tomou como modelo para constituir-se na sua masculinidade? Ocorre nesses casos um fenômeno curioso: a mãe não se dá conta de o filho estar preso à identificação estabelecida lá com o pai, agora não mais o esposo da mãe. Ou seja, a mãe, ao avaliar o comportamento do filho, só olhava para o hoje da relação dela. Não reconhecendo aí ninguém a quem o filho pudesse estar vinculado identificatoriamente, não conseguia entender o comportamento apresentado por ele. Portanto, além dos tropeços com o processo de constituição da subjetividade a partir da tomada de referências masculinas, instaurava-se um outro problema, o da descomunicação entre mãe e filho nessas condições. Ela dificilmente entende a quem o filho hoje está saindo porque ela já não mais está ao lado daquele a quem ele saiu; aquele a quem o filho saiu já saiu da vida da mãe há tempos. Do lado do filho, ele não consegue simbolizar (pôr em palavras) seus processos intrapsíquicos e elucidar a falta de saber da mãe sobre ele, “eu não sei a quem ele saiu”. Se para a estrutura psíquica da mãe é menos complicado trocar de companheiro, se nela a simbolização permite-lhe substituições de forma mais tranqüila, o mesmo não se dá com o filho. Para ele não é fácil substituir referenciais a partir dos quais está se  constituindo. Ao filho só resta uma via para elaborar e dar conta disso que ultrapassa sua capacidade  de lidar com a realidade: formar sintoma, dentre eles o da desobediência e o da agressividade. Como não é entendido nessa linguagem, o filho se sente duplamente perdido, já que à perda do pai soma-se agora a perda da mãe,  pois se estabelece uma distância cada vez maior entre os dois, dado o desconhecimento, pela mãe, do que se passa com o filho.

            O caso de E., mãe de G., serve para ilustrar a desobediência de que falamos acima. Nascido G., E. ficou um ano longe dele, tempo em que o menino esteve com o avô materno. Enquanto vivia com o avô, morreu-lhe a avó materna e, logo em seguida, o avô arrumou uma outra companheira. Há mais de um ano E. convive com outro companheiro e exige do filho obediência a ela e ao novo companheiro. A cada quinze dias, o pai biológico de G. o busca na casa de E. e o leva para passar o final de semana com ele, com o avô paterno e com as “namoradas” dele, o pai. Com cinco anos de idade, já ficou aos cuidados dos avôs maternos, da nova companheira do avô materno, do pai biológico, do avô paterno, do pai substituto – o novo companheiro da mãe – e da mãe: a quem vai creditar autoridade? Não sabe. Como não o fez com ninguém, não  se pode falar em desobediência. Só se pode desobedecer se houver uma autoridade constituída.

            A agressividade do filho, em casa e no Piá, aparece no discurso de uma outra mãe. Quando perguntamos se ela conseguia associar a alguém do convívio do filho esse traço, não soube responder. Disse ser esta a sua surpresa: em casa ninguém é agressivo e não sabe assim de onde o filho possa estar tirando tais atitudes. Na seqüência do seu relato, quando não mais fazia a associação indicada acima - mas, sabemos, fazia-o sem saber que estava fazendo -, trouxe esse fragmento da sua história de vida e que elucidou o modo de agir do filho: quando morava no sítio, o marido – pai do filho tachado de “agressivo” e com quem ela não mais está hoje – tinha o hábito de maltratar os animais; o filho repetia nas brincadeiras o comportamento do pai. Ficava evidente ser a agressividade o traço do pai a partir do qual o filho se identificou a ele, como no caso de J. e W. foi o mentir. Talvez não seja à toa o comentário da mãe de que o filho é agressivo com o padrasto: parece, ao agredi-lo, estar colocando-se no lugar do pai e vingando-o naquele que usurpou o lugar do pai junto à mãe.

Se assim compreende-se a agressividade em casa, a do Piá pode ser pensada como uma forma de se fazer valer esse pai em meio a outros meninos que têm pai. A mensagem da agressão é, portanto, esta: também eu tenho um pai (ainda que tal certeza se ancore na agressividade, única coisa que restou do pai ao filho). Situação bem parecida com a de J., identificada ao pai a partir do mentir: também no Piá ela mente ao falar do que a mãe fez em casa com ela e depois, em casa, mente a respeito do que aconteceu no Piá. Leva-se, pois, o pai para todos os cantos. Enquanto instituição voltada à educação ambiental, o Projeto presta-se ao exercício não só da cidadania e da consciência ecológica mas também do exercício da subjetivação. O Piá torna-se um cenário onde o piá vem pôr à prova o pai que lhe foi legado; os remendos na costura da subjetivação expõem-se no pátio e nas salas do Piá. Por outro lado, ao invés de mostrar esse legado do pai, o piá pode, entre colegas – ao reconhecer que eles têm um pai - e funcionários do Piá, estar buscando o pai negado em casa. Juntos, esses dois fenômenos observados ao longo do nosso estágio não deixam dúvidas de funcionar de fato o Piá como um lugar também da construção da subjetividade; algo de importância muito mais radical, no sentido de vincular-se às raízes de um sujeito, do que a construção de uma consciência ecológica. Não se pode perder de vista essa dimensão, sob pena de, no mínimo, não se compreender as próprias questões com que a instituição se depara no seu cotidiano, uma delas seguramente a da agressividade.

Por fim, um último exemplo de substituição do marido mas que não significou substituição do pai. Tenazmente, o filho agarrou-se à verdade recentemente descoberta de ser outro o seu pai, e não o “atual companheiro” da mãe, por mais que esta queira apresentar-lhe o substituto como sendo o original. Separou-se a mãe do pai há bastante tempo por causa do alcoolismo dele. Dado esse vício, esconde de C. o pai, com receio de uma identificação a partir exatamente desse traço. Um dos tios de C. revelou-lhe a existência do pai, residente noutra cidade, o bastante para agora C. viver dizendo em casa que “tem um pai” e vai visitá-lo qualquer dia desses. Julgamos interessante apresentá-lo aqui porque se alista na mesma fileira dos outros dois já discutidos - o caso de J. e o de W.-  de recusa à substituição. Se à situação edípica basta um outro terceiro que não o pai, como o expõe Lacan no Seminário 5, isso não significa um virar as costas da criança ao pai, ao genitor. Nos filhos cujas mães ouvimos ao longo do nosso trabalho, buscá-lo, saber quem é ele é tão imperativo quanto a substituição do significante materno pela metáfora paterna. Ponderamos com a mãe de C. o fato de o seu silêncio produzir efeito tanto quanto se pusesse em palavras tudo acerca do pai de C.

Neste momento, uma consideração sobre as questões de grupo, dimensão a não se perder de vista posto não se tratar nossa experiência de atendimento clínico mas sim de trabalho de grupo. Semelhante às mães de W., J., E., também a de C., por não suportar o desprazer da lembrança da relação com o marido, priva o filho do conhecimento do pai.  Negam, esquecem, recalcam a experiência dolorosa do casamento, impondo ao filho o ônus da diluição da figura do pai, da qual restam as palavras-desabafos da mãe nos momentos de censura ao filho, “você é igual ao pai”, pondo nesse “igual” o que de pior viam no marido. No inconsciente do filho, esse “pior” sofrerá uma decantação completa, transformando-se no verdadeiro tesouro legado pelo pai a ele. Quando a mãe pensava estar censurando e corrigindo o filho naquele comportamento específico, estava na verdade, fundando-o de vez, porquanto o vincule ao pai e por isso mesmo vinculando o filho ao pai. Retornou o que a duras penas fora sufocado: a mãe verá no filho aquilo que do marido tentara por todas as vias esquecer.  O conflito entre feminilidade e maternidade permanece irresolvido; as mães não o simbolizam. A solução de compromisso acaba sendo a formação de sintoma no filho: em W. e J. o mentir; em E. o silenciar suas emoções diante da mãe e o não chorar a morte do ex-marido da mãe (não se constituiu como pai porque o silenciou deveras) e, dentro da unidade do Piá, achegar-se demais às funcionárias, exigindo uma atenção quase que total, comportamento tomado pela própria mãe como sendo indicação da falta do pai - logo, mais uma vez, um avô não o substitui; e em C. ainda não se formou pois resta-lhe a confiança no adulto - quem sabe o mesmo tio que lhe desvendou o enigma da sua origem -  de ser ouvido no seu desejo de conhecer o pai. Todos são sintomas com os quais o Piá, preocupado com educação ambiental, acaba tendo que se haver também. Criar, através dos encontros, um espaço onde essas mães puderam falar, escutá-las nas suas questões não elaboradas quanto à vida conjugal, tudo isso é desonerar o peso jogado aos ombros dos filhos que freqüentam o Piá. A mudança acaba por acontecer no interior do próprio Piá Ambiental. É por causa dessa dimensão que o nosso trabalho insere-se na área da Educação e não da Clínica simplesmente, ou do Grupo pelo grupo. Desde a origem do projeto, o objetivo era trabalhar os pais tendo em vista os efeitos disso nas crianças do Projeto e os casos que acabamos de expor ilustram como se procedeu à execução desse propósito.

Avancemos agora e introduzamos aquela segunda possibilidade de se substituir o marido:  colocar o filho em seu lugar. Trata-se de um fenômeno diferente daquele dos primeiros meses de vida da criança, quando mãe e filho vivem a ilusão de se completarem, de um ser para o outro o tudo, excluindo-se a falta; situação dual à qual põe fim a entrada do terceiro, o pai ou um outro qualquer a exercer a função paterna, instaurando-se o circuito da troca e portanto a própria ordem simbólica. O fenômeno em questão é o movimento pulsional da mãe em tomar o filho, nunca a filha, como objeto sexual mesmo, falicizando-o, colocando-o num lugar privilegiado, propiciador de um gozo não mais obtido junto ao marido. Acontece, via de regra, quando marido e mulher já não formam mais um casal, um não mais satisfaz o outro. Guarda, pois, semelhanças com a situação dual pré-edípica anteriormente descrita, como se houvesse uma regressão àquele nível primário da relação mãe-filho,  dos dois formando uma célula narcísica.

Ao introduzir esse novo ponto, vemo-nos diante de uma questão conceitual: não se trata mais do mesmo pai antes mencionado. Com efeito, anteriormente mostrávamos como fica o piá diante do pai quando a mãe é separada do pai ou está com um companheiro que não é o seu pai. Aí, pai era tomado como sinônimo de genitor e o piá buscava-o - mesmo já tendo sido inscrito nele o Nome do Pai e, portanto, se estruturado de modo neurótico tanto assim que forma sintomas sob o peso das questões irresolvidas na mãe - a fim de completar o seu mito de origem, pois não foi um avô quem o gerou, sobre isso há um saber inconsciente no piá, por mais que a mãe queira substituir o pai pelo avô. Quando passamos a tratar da mãe que institui o filho no lugar do marido e depois mostraremos esse filho indo buscar fora de casa um pai porque o de casa não pia mais na casa, de qual pai falamos ao falar desse “buscar fora de casa” um pai? Seguramente, não é mais o pai genitor, como nos casos precedentes, porquanto esse o piá conhece, está em casa, embora divorciado do desejo da mãe. Também não podemos afirmar ser o pai enquanto o terceiro lá do complexo de Édipo: os filhos em questão já não estão mais na idade de ter incluído o Nome do Pai no sentido do terceiro instaurador da ordem simbólica; se não estiver mais incluído, está para sempre foracluído. Ademais, como já mencionamos noutro lugar, é impossível “buscar” este terceiro, no sentido de uma ação deliberada partindo do indivíduo, até porque não se tem sujeito ainda antes da entrada da metáfora paterna. Corremos o risco de errar, mas para nós o pai procurado de que falaremos a seguir é muito semelhante àquele do Édipo, não no sentido, insistimos, de agente da castração simbólica, mas no sentido de ocupar-se com a mulher e agüentar a falta feminina a fim de não sobrar tudo para os filhos. Quando o pai em casa se deixa anular pela mulher, os filhos ficam à mercê da mãe e é esse estado de coisas que recusam ao buscar um pai fora de casa. No fundo, fogem da onipotência da mãe, “eu sou tudo para eles”, disse-nos uma delas, numa passagem  da passividade à atividade, pois a verdade aí manifesta é “eles são tudo para mim”, e em especial o filho homem. Qual filho suporta ser “tudo para a mãe”?

Interessa-nos, ao discutir esse ponto, compreender como ficam aí o Piá, o pai e o piá, isto é, os reflexos dentro do Piá desse tipo de relação mãe-filho, e como o piá responde à mãe quando ele mesmo é posto no lugar onde deveria estar o pai..

Num dos primeiros encontros, duas mães trouxeram essa situação. Uma delas é separada. A queixa da mãe era os problemas do filho de 15 anos (sair à noite, envolver-se com turma, chegar e não dizer onde e com quem estava), aquele de quem ela mais gosta – os outros são filhos do sexo feminino. Chamava de “problema” exatamente o esforço do filho de desgarrar-se dela, dizer-lhe não à posição de “o homem da casa” onde ela o punha. Não entendendo tal linguagem, a mãe redobrava-se de atenção, agravando ainda mais o modo pelo qual o filho respondia-lhe negativamente ao retorno àquele tempo inicial da constituição subjetiva em que há entre mãe e filho um gozo pleno sem a ingerência de nenhum terceiro.

Um parêntesis: tentar corrigir o “problema” repetindo precisamente o que o gerou, essa talvez tenha sido a maior das repetições ao longo dos encontros com os pais, uma característica do grupo, portanto. O caso dessa mãe evidencia-o e por isso o mencionamos aqui, embora o filho em questão não esteja no Piá, embora a mãe afirme “ele é ainda uma criança”. Sabemos porque o faz. Em nossas intervenções mostrávamos o círculo vicioso aí existente. Ao fazê-lo executávamos um duplo trabalho de Educação: esclarecer (portanto Educação, no sentido de trazer informação) aos pais a dinâmica psíquica dos filhos e o efeito disso seria sentido no espaço institucional do Piá (logo, Educação, no sentido informal), pois abrindo-se a possibilidade de um novo modo de os  pais lidarem com os filhos, estes se modificam também e, por extensão, seu modo de agir dentro da unidade do Piá Ambiental.

Vamos ao segundo caso, uma mãe no segundo relacionamento, marcada pelo alcoolismo do companheiro, a incomodá-la e desgostá-la muito. Voltou-se então para o filho C. de 17 anos, de quem confessa “gostar muito”, como a mãe anterior. Ao proceder assim, põe no descrédito o marido, impedindo o filho de 06 anos, L., de identificar-se ao pai,   passando a fazê-lo com o irmão mais velho, entronizado pela mãe como substituto do marido alcoólatra. No dia do encontro, chorava bastante, pois C. saíra de casa para ir morar com uma outra mulher. C. rejeitou, portanto, o lugar fálico em que a mãe o colocou; preferiu ocupá-lo mas junto a uma outra. Exogâmico, mesmo contra o desejo e as lágrimas da mãe. Se não houve um homem com quem se ocupou a mãe, houve uma outra mulher, fora do clã, que se ocupou de C., subtraindo-o à  mãe. Diferencia-se esse do caso anterior: a mãe de C. tem outro filho, de 06 anos, matriculado na unidade do Piá, cujo “gênio” (expressão da mãe) tem ficado ultimamente igualzinho ao de C.: agressivo, violento, desobediente. Reflete-se, portanto, diretamente no Piá as demandas da mãe e a sua relação com o falo. Da mesma forma que a mãe anterior, também esta tenta corrigir o problema dizendo a L. para não ficar igual a C. Longe de corrigir, alimenta-o. Primeiro porque se mantém fixa em C., indicando com tal atitude o quão importante ele é. A quem L. vai tomar como modelo identificatório na constituição da sua masculinidade se não aquele a quem voltou o desejo da mãe? Segundo, a interdição da mãe, pedindo para L. não ficar igual a C., só faz crescer a admiração daquele por este. Afinal, C. deve ser possuidor de algo muito valioso, tanto que é buscado pela mãe e é vedado a ele, L., e é isso o que L. quer. É, pois, algo mais que “ter o gênio” de C., é ser o que nele a mãe busca: o falo que poderia satisfazê-la.

Quando introduzimos este novo ponto (o filho ocupando o lugar do pai no desejo da mãe), afirmamos interessar-nos os reflexos disso no Piá e como ficaria o piá ao ser posto no lugar do pai.  Já expusemos a resposta dada por C. à mãe. E L., como respondeu? Seguiu, na íntegra, as pegadas da mãe: voltou as costas ao pai presente em casa, da mesma forma que a mãe voltou as costas ao marido, e dirigiu-se a C., e nisso talvez tenha tido sorte só por pouco tempo, pois agora C. não mais está em casa. Tendo ido a apenas um encontro, não tivemos condições de sinalizar à mãe o porquê de L. estar tornando-se genioso, prevenindo-a de ter um outro filho com os mesmos “problemas” do mais velho.  Certamente no Piá L. continuará a mostrar o “gênio de C.”: agressividade e desobediência.

Não falávamos páginas atrás do filho buscando o pai mesmo quando a mãe apresenta-lhe um substituto? Como agora apresentamos um filho, cujo pai está dentro de casa, e que lhe volta as costas e toma outro a quem se identifica e coloca no lugar de pai? Distorcemos os fatos e os acomodamos às nossas expectativas, ao invés de as revisarmos? Não. Discutimos aqui o caso de L. porque ele ilustra a afirmação da Psicanálise de que a autoridade do pai chega ao filho mediante a mãe e servirá de passagem a um segundo caso também de desautorização do pai através da mãe.

 Retomemos a teoria. Se a mãe não credita alteridade ao marido, o filho não creditará autoridade ao pai. É necessário à mãe reconhecer-se castrada, endereçar a ele o seu desejo para que o filho possa tomar o pai como alguém possuidor de algo valoroso – o falo – ao desejo da mãe, querer identificar-se a ele. Essa identificação é condição para a constituição da masculinidade do menino, pois apossar-se do que no pai é buscado pela mãe é tomar posse do significante do masculino, o falo, e condição também para um dia tornar-se pai, única forma permitida de se deitar com a mãe...do filho, claro. Se a mãe destitui o marido, destituído está o pai, e qual filho vai querer identificar-se a quem nem mesmo a mãe reconhece como importante?  

Tal recorte teórico da Psicanálise ajuda-nos a entender porque L. não liga importância ao pai: a mãe não a dava ao marido. Se nos casos discutidos em páginas atrás, o filho buscava o pai porque ele era ausente em casa, da mesma forma L. - e os casos subseqüentes – também teve que buscar, pois a mãe destituiu aquele que deveria funcionar como pai; noutros termos, o pai de casa está impotente, reduzido a enfeite e prestando-se ao jogo da conveniência social (porque é “feio” separar-se do marido) e econômica (porque o marido não tem onde ir morar ou a casa é dele e a separação implicaria em uma das partes do casal ficar desalojada). Não opera no filho como modelo identificatório. O filho de um pai degradado pela mãe tem de buscar fora de casa um pai tanto quanto o fazia o que desconhece o pai.

Passemos ao segundo caso do piá posto no lugar do marido. Trata-se de uma das mães que acompanhou três dos quatro encontros realizados numa das unidades. No último deles, queixava-se da desobediência dos filhos, dois deles no Piá, ao pai. Conhecendo-a de outros encontros – fálica até demais, tanto assim que duas das filhas adolescentes grávidas, disseram, literalmente, estar dando a ela “bebês”, invertendo-se por inteiro o propugnado por Freud acerca do complexo de Édipo na menina, quando a filha deseja dar ao pai um bebê. Se aqui o bebê é oferendado à mãe, não resta dúvida do diminuto lugar ocupado pelo pai - suspeitamos esconder-se por trás dessa desobediência dos filhos ao pai uma destituição do marido operada pela mãe. Na seqüência do seu discurso, a mãe disse: “eu sou tudo para os meus filhos”. Seguramente, o pai não encontrava espaço nenhum aí. Cortamos a fala da mãe nesse ponto e perguntamos pela relação dela com o marido. De fato, reconheceu, as decisões eram tomadas por ela. Já no final do encontro, lembrou-se de um dia ter dito ao marido “você não me faz falta nenhuma”. Se o marido não faz falta à mulher, também não fará falta ao filho o pai; ao dizer isso ao marido, diz aos filhos que o pai não lhes faz falta, mensagem muito bem compreendida por eles, como o atesta a desobediência de que se queixava a mãe. Esse pai tão sufocado – talvez não seja por acaso a sua asma, dada como razão da não-separação: “ele precisa muito de mim”, comentou - pela histeria da mãe é morto, outro deve ser posto no seu lugar. Os ombros dos filhos acabam por suportar sozinhos a histeria da mãe.

Se desobedecer ao pai foi uma das conseqüências do apagamento do marido, há uma outra trazida pela mãe no último encontro. Uma das filhas adolescentes encontrou um companheiro que a assumiu e o bebê. Foi morar com ele. Depois de pontuarmos à mãe a relação entre marido e pai, perguntamos a ela a idade do “companheiro” com quem a filha foi morar. Trinta e sete anos, respondeu; curiosamente, a mesma idade do pai, acrescentou a outra filha dessa mãe presente também à reunião. Mostramos à mãe não estar buscando a filha (tem quinze anos) um pai, não um marido, já que não encontra dentro de casa o pai.

Como última conseqüência disso, temos a instituição do filho, matriculado na unidade do Piá, no lugar do marido. Num dos encontros a mãe, ao nomear as pessoas importantes para L., 12 anos, disse não gostar ele de muita gente, “não é de qualquer um que ele gosta”, dizia. Naquele momento não compreendemos a verdade aí dita. Ao dizer não gostar o filho de muita gente, estava expressando sua verdade: ela o quer só para si, no lugar de falo. Escrevendo na folha o nome das pessoas importantes para L., incluiu apenas os dois avós, um deles a avó materna, ambos já mortos. Sendo mortos, não lhe disputarão o filho e podem, por conseguinte, figurar tranqüilamente como alguém importante e de quem o filho um dia gostou. Ao lado do nome da filha J., 10 anos e também matriculada no Piá, escrevera o nome das professoras do colégio e das monitoras do Projeto, o mesmo não acontecendo com o filho. Mais uma vez deixava claro não querer dividi-lo com ninguém. Ficar até tarde na rua é a resposta do filho à situação, como veremos depois.

Substituir o marido pelo filho L.: isso fica claro também num comentário feito pela mãe num dos encontros. Ao entrar no chuveiro, L. fica de cuecas a chamar a mãe para esfregar-lhe as costas ou para termometrar a água, uma cena tipicamente de sedução, por parte do filho ou, numa outra perspectiva, sua regressão a um tipo de satisfação pulsional mediante os cuidados da mãe (“esfregar as costas”) com o seu corpo, a exemplo do ocorrido nos primeiros meses de vida. Outro dado a apontar para esse piá-pai foi uma das palavras usadas pela mãe para adjetivar o filho, amoroso. Mesmo reconhecendo no beijo dele um deslavado interesse em amansá-la por estar chegando às dez da noite em casa, a mãe o tem na conta de amoroso exatamente por causa do beijo. Isso porque o filho está aí a ocupar o lugar do marido destituído. Partisse das filhas o beijo para justificar o atraso, aceita-lo-ia como amoroso? Por fim, o que faz essa mãe às dez da noite esperando, na sala, o retorno do filho? Não havendo outro a dar conta, no quarto, do seu desejo, volta-se para o filho.

Se uma das irmãs de L. buscou fora um pai (juntou-se a um companheiro bem mais velho), parece não ser diferente o movimento de L.: busca, fora de casa, um pai, ainda que venha a encontrá-lo no líder do grupo. Envolver-se com drogas e com “maloqueiros” é o grande temor da mãe. Falou-nos disso em dois encontros. É mais uma mãe, não se dá conta de que seu modo de coibir-lhe as saídas noturnas – ser carinhosa com L., dizer-lhe que se ele não a desgostar dá-lhe de tudo – só faz alimentar o problema.

Como a outra filha, J., de 10 anos, reage à desautorização do pai? Um recorte do discurso da mãe aponta-o muito bem. Na comemoração promovida pelo colégio no dia dos pais, ele não queria ir, embora J. insistisse. Por fim convenceu-se, arrumou-se e foi. Numa das brincadeiras no colégio, machucou-se, o bastante para chegar em casa queixando-se de ter ido e repetindo o tempo todo “bem que eu não queria ir; fui e veja no que deu”. Nada mais óbvio a sua má vontade em ir: não é a esposa o “tudo para os filhos”? Vá então ela às comemorações do dia dos pais. Irritada, J. contra-argumentou ter ele ido porque quis, se não quisesse não precisaria tê-lo feito e se foi por que agora reclamava? Arrematou: “Tomara o ano que vem eu não ter mais pai”, escandalizando com o comentário a mãe. Era esse o recorte mencionado antes. Revela-nos a verdade de J.: o marido da mãe está morto para ela enquanto pai. Não é o ano que vem que ela não terá mais pai, já não o tem agora dentro de casa. Está condenada a ter de buscá-lo, como a outra irmã e quem sabe o irmão L., fora de casa.

Da vida dos filhos no Piá a mãe não trouxe muitos detalhes. Por isso, em termos de prevenção, não podemos dizer nada sobre os efeitos, dentro do Piá, da escuta dessa mãe.  Esperamos, no mínimo, que J. não tenha de sair de casa para procurar fora, num companheiro mais velho, o pai negado e, pensando em L., que a mãe, ao restituir ao seu lugar o marido, libere L. para “gostar de outras pessoas” (talvez isso, sim, possa se refletir dentro do Piá e L. possa gostar, pelo menos, das monitoras, excluídas pela mãe como pessoas importantes da vida do filho), para lembrarmos a fala da mãe num dos encontros, conforme expusemos anteriormente. Aqui, a dimensão educativa ficou por conta da compreensão, por parte da mãe, da dinâmica psíquica dos filhos.

 

Conclusão

Se na Psicanálise com criança é comum afirmar ser na maioria das vezes dos pais o problema, devendo ser a eles recomendada a análise e não aos filhos, cremos valer o mesmo quando se trata de Psicanálise e Educação. Ao se depararem as instituições de Educação formal ou informal – caso do Piá – com alunos cuja conduta desafia o seu saber pedagógico, por que se pensa apenas em assistir à criança, ou no máximo “chamar a família” para informá-la não estar indo bem o filho? Depois de ouvir mães e alguns pais dos piás do Piá, saímos mais convencidos ainda de se dever, sim, chamar o pai ou a mãe mas não só para “falar sobre o aluno” e mas também escutar o que eles têm a dizer deles ou do filho – como se propõe para a clínica com criança. Não é a Escola quem deve falar e sim a mãe ou o pai. Quando pode pôr em palavras o de que mais oculto existe, quando é escutado no que dizem de si mas não sabem estar dizendo, então se espantam os fantasmas de suas vidas - especialmente os da vida conjugal -  e o filho não precisa pagar com os sintomas que tanto embaraço causam dentro da Escola, aqui o Piá.

Criar, pois, um grupo no qual essas mães (e os poucos pais participantes) se reconheceram nas suas questões (separação, alcoolismo do marido, desobediência e agressividade dos filhos) tão parecidas – muito mais que o fato de os seus filhos freqüentarem uma mesma unidade do Piá Ambiental –, funcionou, na experiência da qual resultou o presente artigo, como mais uma via pela qual a Educação pode lidar com os problemas do aluno. Antes de ser aluno, a criança é um filho e nesse lugar muitas vezes arca com o que de mal resolvido há na subjetividade dos pais e na relação do casal. A Psicanálise, ao dispor de todo um conjunto de proposições acerca do que é um sujeito e um modo muito particular de escuta, possibilitou-nos ouvir o escondido no dizer dessas mães, mas que se evidenciava no comportamento-sintoma dos filhos. Ao fazer pontuação a uma mãe, outras se reconheciam aí, dados os pontos de contato entre elas – especialmente no concernente à vida conjugal e ao relacionamento com os filhos. Trabalhava-se assim todo o grupo, dispensando-se nalguns momentos nossas intervenções, pois vinham dos próprios membros do grupo. Não parecem, pois, ser tão antinômicos os termos Psicanálise, Grupo e Educação.

 

[1] LACAN. Seminário 5. Rio de Janeiro: Zahar, 2000, p. 180.

 

Referência Bibliográfica

FREUD, S.: Psicologia das massas e análise do Eu. Rio: Imago, 1976, ESB, v. 18. 

_________: A dissolução do complexo de Édipo. Rio: Imago, 1976, ESB, v. 19.

_________: Três ensaios da sexualidade Rio: Imago, 1989, ESB, 2ª ed. v. 7.

KUPFER,  M. C. Educação para o futuro: Psicanálise e Educação. São Paulo: Escuta 2000.

LACAN, Jacques.: Seminário 5: As formações do inconsciente. Rio: Zahar, 1999.