SCHREBER REVISITADO: VERIFICAÇÃO DE HIPÓTESES SOBRE O CASO DO JUIZ CONDUZ A ELETRIZANTE RACIOCÍNIO
Escrito por Dr. Luiz de Souza Dantas Forbes
Dom, 17 de Agosto de 2003 03:00
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SCHREBER REVISITADO
Verificação de hipóteses sobre o caso do juiz conduz a eletrizante raciocínio

 

Dr. Luiz de Souza Dantas Forbes

 

Esta nova incursão em território schreberiano é comparável a uma excursão pela arqueologia da psicanálise.  Mas, para não perdermos o rumo nessas paragens tão decantadas e todavia, mal conhecidas, devemos respeitar as balizas impostas por nosso roteiro.  Pretendemos rever, sob nova perspectiva, lugares já visitados, e esclarecer, quem sabe, alguns pormenores ainda obscuros, ou descartados como insignificantes, das peripécias enfrentadas por Schreber.

Com esse propósito em vista, vamos palmilhar com o infeliz senhor presidente de tribunal, Daniel Paul Schreber, os mesmos caminhos por ele já dantes percorridos; vamos seguir suas tristes andanças pelos manicômios onde ficou recolhido, solitário, por anos a fio.  Para tanto, é suficiente ler com atenção, com olhos de ver, e muita paciência, o monumental legado de Schreber à ciência médica - e não somente à psicanálise.  Esse depoimento, minucioso e verídico relato de sua vida quotidiana no hospício, Schreber começou a redigi-lo quando ainda internado (em 1900) e o concluiu já morando em sua própria casa, tendo recuperado, em ação judicial por ele mesmo conduzida, seu direito à vida particular, com plena capacidade civil.

 

Freud e Jung

 

Colocado o ponto final em seu manuscrito, inestimável tesouro de informações psico-patológicas, teve também, Schreber usando o bom senso, a oportuna idéia de juntar-lhe documentos a respeito de formalidades jurídicas de sua internação, incluídos aí os relatórios, sumamente importantes, dos médicos-legistas. Tudo isso foi editado na Alemanha, com o título "Memórias de um doente dos nervos".  O livro teve boa aceitação, sobretudo nos meios psiquiátricos, e chegou às mãos de Jung, na Suíça, em 1910.  Empolgado com a leitura, Jung logo escreveu a Freud, na Áustria para lhe pedir, com empenho, não só uma opinião pessoal sobre o livro, mas também uma análise aprofundada, para publicação.  Nessa época, o diálogo epistolar Freud~Jung era muito ativo, e íntimo... era o tempo da escola risonha e franca.  Não vamos recapitular fatos já sobejamente conhecidos, mas sem dúvida alguma, Freud, tendo atendido o apelo de Jung, sofreu duro impacto ao reconhecer na figura central das "Memórias" um antigo desafeto seu, passados 25 anos: o mesmo Flechsig, citado na carta de Paris para sua noiva, em 4 de novembro de 1885, como "o meu rival" que trabalhava em Leipzig!  Freud porém superou brilhantemente essa aborrecida surpresa, estudou as "Memórias", e produziu as famosíssimas "Observações psicanalíticas sobre a autobiografia de um caso de paranóia". Esse contratempo não afetou em nada a justeza da avaliação de Freud, que, sobranceiro, portou-se com admirável discrição, mas fornece uma explicação cabal para a relutante demora de Freud na conclusão do encargo aceito com tanto interesse.

Enquanto Freud preparava vagarosa e cuidadosamente seu trabalho sobre as "Memórias" prosseguia sua correspondência com Jung: ambos se divertiam empregando, como se fossem cúmplices, diversos "schreberismos", nome por eles forjado para designar expressões vocabulares inventadas por Schreber, tais como: "homenzinhos feitos atabalhoadamente", "por que você não fala bem alto?", "nervos apensos", "língua fundamental", e muitos outros.  Em verdade porém, as cartas foram se espaçando, e o contexto era menos pessoal.  Em dezembro de 1910, todos os psicanalistas reunidos no congresso de Munique aplaudiram o exaustivo trabalho de Freud: isto é, todos menos Jung.  Na carta de 19 de janeiro, Jung mantém absoluto silêncio sobre o assunto.  A decepção de Freud foi grande, é caso para cair do cavalo.  Pois ainda é pior: além da queda, coice.  Na carta de 19 de março Jung tem o desplante de escrever: "Só agora me chegaram às mãos as provas (tipográficas) de seu Schreber, e posso então apreciá-lo. É não só engraçadíssimo, mas também, muito bem escrito".  O fato é que nunca mais Freud se referiu a Schreber, a não ser, de maneira oblíqua, na décima conferência de sua Introdução Geral à Psicanálise: "lembro-me da fantasia de um paciente insano, muito interessante, que imaginara uma "língua fundamental".  "Jung jamais se conformou com o sucesso de Freud no caso Schreber, e 40 anos depois, em 1952, jogou em cima do caso a última pá de cal, conforme lhe parecia: "Freud na ocasião descreveu o caso Schreber de modo bem pouco satisfatório, depois de eu ter chamado sua atenção para o livro"!

 

Schreber, de novo, recorre a Flechsig

 

Depois desta digressão demorada, mas, elucidativa, regressamos ao começo do livro para acompanharmos as desventuras do nosso cavaleiro da triste figura.  Uma rebelde e pertinaz insônia começou a afligi-lo, em conseqüência de estresse intelectual,em fins de outubro de 1893, deixando-o incapaz de cumprir suas funções de juiz presidente da corte de apelação de Dresda, para o qual fora recentemente nomeado.  Não obtendo melhora, Schreber decidiu procurar o Prof.  Flechsig, que, oito anos antes conseguira livrá-lo de uma situação mórbida semelhante à atual, e de quem guardavam, ele e sua esposa, gratidão profunda: o diagnóstico firmado por Flechsig nesse episódio mencionava "hipocondria".  Tal diagnóstico, à luz do desenvolvimento posterior das condições psíquicas do paciente, tem sido muito criticado: mas qual o médico que não cumpriria seu dever de abrandar o diagnóstico escrito, para evitar ao cliente o constrangimento da divulgação de seu mal?  Tendo assim decidido, Schreber passou um telegrama a Flechsig, (estamos na era pré-telefônica ... ) para preveni-lo de sua visita, e tomou o trem para Leipzig, hospedando-se na casa de sua mãe.  Consultou então Flechsig, dele recebendo promessa animadora de rápida cura, com aplicação de novo e potente sonífero.  Infelizmente as providências tomadas não deram certo e, na noite seguinte, muito agoniado, Schreber tentou suicídio, e foi então removido para o hospital de Flechsig.  Internado para tratamento intensivo, Schreber foi aos poucos se compenetrando de uma suposta hostilidade de Flechsig, manifestada das mais diferentes maneiras.  Convicto das más intenções de Flechsig, o sofrido juiz encontrou afinal uma explicação satisfatória: Flechsig era certamente emissário do diabo para atormentá-lo sem descanso. Sabendo da existência, na "língua fundamental" de inúmeros eufemismos, pareceu-lhe uma boa idéia, para aplacar a sanha de seu perseguidor, de lhe mudar o nome, de Paul Emil para Teodoro ou seja: presente de Deus.  E assim passou a chamá-lo.

 

Pequeno Flechsig!  Pequeno Flechsig!

 

Passado um mês, Schreber é transferido para o setor psiquiátrico da universidade de Leipzig, mas nele permanece a mesma obstinada aversão a seu constante perseguidor.  Agora, de pé, horas seguidas, tanto de dia como de noite ele grita, vezes sem conta: "pequeno Flechsig", dando acentuação especial à palavra "pequeno". (Uma explicação necessária: ele naturalmente grita em alemão: kleiner, mas não está fazendo comparação com ninguém, nem referência a outra pessoa, pois em alemão o adjetivo, sem artigo, toma no masculino a desinência "er".) Ele repete incansavelmente as mesmas palavras, em altos brados, obrigando a vizinhança a reclamar às autoridades.  Distribui também insultos e desafios, inclusive ao sol; tudo isso de modo insuportável, ad nauseam. Ora, como é possível um homem, apavorado diante de um emissário do diabo, enfrentá-lo impávido? pois sem dúvida o emprego aí da palavra "pequeno" visava rebaixar, ridicularizar o oponente, não era portanto um termo carinhoso... A razão do aparente e súbito destemor de Schreber para nós é simples, quase infantil, mas depende da cultura, fora do comum, do mesmo Schreber.  Ele usou um subterfúgio: traduziu para o vernáculo o prenome de seu arqui-inimigo: Paul, ou Paulus, em latim, virou "pequeno".  Na estrada de Damasco, o inimigo de Cristo, para marcar sua conversão e sua humildade, trocou Saulo por Paulo.  Chegamos então a uma nova situação: Flechsig está sendo ofendido, mas não pode ficar ofendido, pois está apenas sendo chamado!  Mas talvez haja ainda outra idéia por trás dessa virada.  Que pretende Schreber?  Invocar ou ínvectivar?  Proclamar ou reclamar?  Aproximar ou apostrofar?  Há uns laivos de ambigüidade, de sado-masoquismo, até de incerteza sexual, nesse episódio todo.  Acrescentamos: Schreber é Daniel-Paul; a mãe de Schreber é Pauline.

 

Teologia de Schreber

 

Este assunto requer investigação cuidadosa e profunda, visto influir decisivamente nas concepções delirantes de Schreber sobre o universo como um todo, e sobre o nosso mundo, em particular.  A teologia schreberiana é absolutamente sui-generis.  Influenciado pela tradição persa e pela mitologia greco-romana, Schreber admite como princípio estabelecido a bipartição divina, um Deus para os povos morenos (Ariman - Zeus e Júpiter) e outro Deus para os povos claros ou louros :Ormuzd - Poseidon e Neptuno).  Por outro lado, Deus (qual?) precisa de Schreber (quando transformado em mulher) - para criar uma nova humanidade: esse mesmo Deus pouco entende de homens, pois lida mais com cadáveres!  Deus fala a língua fundamental, aliás, um "alemão um tanto arcaico, porém sempre vigoroso, notável por sua grande riqueza em eufemismos (por exemplo, veneno por alimento)".  Em consideração a essa língua fundamental não se deve empregar expressões como Deus inferior ou Deus superior, pois esses termos são latinos.  Deus se comunica com os homens pelos "nervos", confundidos com projeções ou emanações.  O lado teológico da vida era preocupação permanente em Schreber: no episódio dos pássaros falantes, miraculados, ele menciona "cristandade" e "Ariman" nos cinco exemplos escolhidos das milhares e milhares de palavras ouvidas por ele.

 

Há sinais de doença neurológica em Schreber?

 

Deixando para outra oportunidade o estudo das convicções espirituais excêntricas de Schreber, vamos pesquisar a possibilidade de estar ele acometido de uma enfermidade neurológica.  Uma informação preliminar é necessária: ao tempo da hospitalização de Schreber, neurologia era palavra bem nova: o dicionário francês de medicina, de Littré e Robin, de 1880, nem a menciona.  Doente de nervos podia ser hemiplégico, tabético, parkinsoniano, ou portador de paralisia geral; e médico de nervos podia ser especialista em nevralgias, ou em hipocondria, confinando aqui com o psiquiatra: mais adiante, iremos perceber a importância desta informação.

Schreber diversas vezes descreve as figurinhas humanas que apareciam diante dele, de dia ou de noite.  Eram "homenzinhos" de apenas alguns milímetros de altura, e viviam uma breve existência na sua cabeça onde por fim desapareciam.  Outras vezes estas figurinhas humanas eram almas, despencando, centenas ou até milhares delas na sua cabeça.  Estas visões, para ele um tormento insuportável, entram perfeitamente na categoria de alucinações liliputianas, fenômeno altamente característico de uma lesão nas vias extrapiramidais, na imediação do mesencéfalo.  Um outro sintoma muito desagradável afligia Schreber: ele era compelido, sem poder escapar desta injunção interior, a repetir centenas de vezes a mesma palavra, ou a mesma frase, incompleta, até a exaustão.  Ele dá inúmeros exemplos desta situação constrangedora. É mesmo possível que esse tipo de coação psíquica tenha influído naquela exclamação já citada: "pequeno Flechsig "- Este sintoma chama-se palilalia, assim definida na Neurologia de Grinker: "Repetição involuntária de sentença ou palavra, 2, 3, ou mais vezes, aumentando o ritmo, à medida da repetição".  Kinnier Wilson, competentíssimo neurologista inglês, especialista dos gânglios basais cerebrais, em sua Neurologia (p. 913) concorda com a definição acima de palilalia, e dá exemplos observados em seus pacientes.

Ora, pensamos nós, se Schreber exibe, indiscutivelmente, esses dois relevantes sintomas, vamos procurar se ele também comparece com a micrografia.  Procurando nos volumes ao nosso alcance, acabamos localizando um autógrafo de Schreber, uma breve alocução por ele pronunciada no batizado de uma sobrinha-neta (ele não teve filhos) em 1904.  Nosso palpite deu absolutamente certo.  Lá está, no livro Psychosis and Sexual Identity, da State University of New York Press, página 292, a reprodução do manuscrito de Schreber, aqui impresso agora: esperamos não haver dúvida em considerar esta peça um exemplo típico de micrografia!

Na micrografia a escrita fica miúda, apertada, a haste das letras sobe muito pouco acima da linha horizontal, as palavras vão ficando ilegíveis: isso tudo é bem aparente nesta apresentação do autógrafo de Schreber.  Tudo está confirmando um comprometimento dos núcleos basais do cérebro, mas não vamos cair nessa de'afirmar atabalhoadamente resultados improvisados.  Vamos reler o laudo do médico-legista Dr. Weber, à procura de informação adicional.  No primeiro exame foi registrado tremor acentuado das mãos, e uma certa rigidez na atitude.

A conjunção destes vários elementos clínicos permite estabelecer para o caso neurológico de Schreber o diagnóstico retrospectivo de síndroma extra-piramidal, de tipo parkinsoniano.  Pode até parecer ousadia apontar a existência de tal afecção mórbida no presente caso, se tantos comentadores capazes jamais se referiram a essa possibilidade: podemos porém supor que todos se ocupavam somente com a situação mental do presidente Schreber e não deram atenção nem às alucinações liliputianas nem à palilalia.  E os fatos estão aí, irrefutáveis.

 

De novo, os pássaros falantes

 

Apenas uma curta anotação sobre esse assunto já bem conhecido, para explicar de modo mais acessível o comentário de Lacan, no Seminário 3, dedicado a Schreber.  Não se dá o caso de uns pássaros falarem uma coisa, entendida como outra coisa pelos outros pássaros.  Falam os pássaros, uns de acordo com o Deus superior, outros de acordo com o Deus inferior: mas todos falam para o ouvinte, sentado no jardim, ao cair da tarde, imerso em seus vagos pensamentos: e é este ouvinte, no caso o presidente Schreber que, devido à assonância muito próxima das palavras (e à má pronúncia dos pássaros, meros repetidores) pode fazer confusão entre:

 

Santiago ou Cartago

Chinês de idade ou Cristandade Calmo luar ou Falta de ar

Ariman ou Aqui, à mão

Pesa-envelopes ou Peso de seu Lopes

 

É inadmissível a tradução de "Atemnot" (falta de ar) para "dyspnée" feita na edição francesa de Freud Schreber, visto os pássaros falantes não conhecerem a língua grega.

 

Porventura, Schreber terá ouvido falar de Freud?

 

Realmente, tudo indica ser esta uma pergunta ociosa: os dois nunca se viram.  Freud soube da existência de Schreber em 1910 quando Jung lhe solicitou a análise das "Memórias"; já então Schreber estava hospitalizado, em fase final, falecendo em abril de 191 1. Mas, Schreber, alguém lhe teria falado de Freud?  Esta é a pergunta.

As confusas páginas 49 e 50 das "Memórias" não decidem a questão, muito pelo contrário.  Centenas, ou milhares de visitantes o procuravam todos os dias, escreve Schreber: acabavam todos desaparecendo em sua cabeça, como se fossem engolidos.  Muitas dessas pessoas eram ligadas à vida religiosa, quase todos católicos, bispos, cardeais, até o Papa: todos sumiam naquele Maelstrom em que se transformara sua cabeça: "Um dia duzentos e quarenta monges beneditinos, conduzidos por um reverendo padre cujo nome era qualquer coisa como Starkiewicz" irromperam todos juntos em sua cabeça.  Depois vieram outros, "um especialista de nervos, de Viena, cujo nome por coincidência era idêntico ao do padre beneditino acima nomeado", e, "em sua qualidade de neurologista parecia encarregado de dirigir províncias divinas, localizadas em territórios eslavos na Áustria, disso resultando luta pela hegemonia, nascida da rivalidade com o professor Flechsig".  Desta trapalhada toda, vamos destacar alguns pontos.  Noi-ne muito parecido com Starkiewicz é, na pronúncia, Darkshewitsch, neurologista russo, companheiro de estudos de Freud.  No começo desta "excursão" à alertamos sobre confusão entre "especialista de nervos", "médico de nervos", "neurologista".  Esse Darkshewitsch sabia da rivalidade de Freud com Flechsig.  Um ponto também a considerar: nas "Memórias", traduzidas, aparecem 240 ou duzentos e quarenta monges, porém no original, há que se pronunciar - zwei hundert vierzig - e imediatamente aparece assonância com Flechsig, aliás permanentemente ativo na cabeça de Schreber.  Sabemos ainda: Darkshewitsch estagiou em Viena, mas foi médico na Rússia.  Perguntamos pois outra vez: estaria acaso Schreber aludindo ao especialista vienense de nervos, Professor Freud?

Estamos chegando de volta, de nossa excursão schreberiana.  Quem sabe, em outra temporada, repetindo a excursão, tenhamos oportunidade de visitar outros pontos do roteiro.

 

 

Dr.  Luiz de Souza Dantas Forbes é neurologista, Membro da Escola Brasileira de Psicanálise