O EXCESSO DO ANALISTA
Escrito por Francisco Rodrigues Alves
Sáb, 13 de Setembro de 2003 03:00
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O Excesso do Analista

 

Francisco Rodrigues Alves
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 “Qualquer idéia nova, Mahound, exige duas perguntas. A primeira é feita quando ela é fraca: QUE TIPO DE IDÉIA É ESSA? É do tipo que concede, negocia, acomoda-se à sociedade, quer encontrar um nicho, sobreviver; ou é aquele tipo de idéia idiota, rígida, insistente, maldita, que prefere partir-se a curvar-se com a brisa? – O tipo de idéia que quase com certeza, noventa e nove por cento das vezes, será esmagada, mas que, na centésima vez, transforma o mundo.”

Salman Rushdie, Os Versos Satânicos

 

1.

Os contos do autor Phillip K. Dick serviram de inspiração a uma série de filmes norte-americanos, como Minority Report, Blade Runner, entre outros de grande sucesso. Se fôssemos escolher um deles para um filme psicanalítico, poderíamos recorrer à sua história “Ah, ser um bolho!” (DICK, P. K. 2002). Este traz George Munster – militar ex-combatente de guerra – vítima de uma experiência do exército. O ex-espião se transforma 12 horas por dia em um ‘bolho’, espécie alienígena em guerra contra a Terra. Angustiado, George procura a ajuda de Dr. Jones, um “psicanalista totalmente automático” – que funciona mediante a inserção de uma moeda de vinte dólares. O psicanalista automático telefona para o paciente após sua primeira entrevista, afirmando ter encontrado “ao menos uma solução parcial”. Ele entra em contato com outro psicanalista automático, e apresenta George à Srta. Arrasmith. Esta também se transforma ao longo do dia: originariamente da lua Titã, a ex-espiã ‘bolha’ é vítima de um processo similar. Por recomendação de Dr. Jones, que o sugere ‘fortemente’, ambos se casam (e a história toma um rumo inesperado e pouco feliz).

Deixando de lado alguns detalhes técnicos questionáveis do Dr. Jones, poderíamos isolar a conduta contratransferencial do psicanalista automático. Seria válido seu julgamento sobre o destino de George? Sua atitude, mesmo que não fosse concretizada, seria justificável teoricamente? O bem estar do analisando pode ser avaliado pelo profissional? Até que ponto uma impressão pessoal (ou, no caso, automática), mesmo baseada em teoria, pode ser o índice para uma ação do analista?

            Para trazermos a reflexão a outros campos, até que ponto uma ação do analista pode ser considerada fecunda, útil à análise? Qual o papel de sua reação em relação aos conteúdos dirigidos a si? Será a contratransferência um impedimento à análise, como afirmava Freud, ou uma percepção adicional oriunda do inconsciente? Poderíamos dizer, com alguma ousadia, que a contratransferência é uma idéia insistente, e, por vezes, rígida. Afinal, desde o princípio, a contratransferência é lida como um ‘não saber’ frente ao amor do analisando.

            Certamente, a introdução do binômio transferência / contratransferência na relação médica marca uma idéia que transforma o mundo. É uma nova visão que recai sobre toda relação de confiança profissional, caso estendamos um pouco a concepção clássica de transferência. Se, para Freud, a contratransferência conduz um analista de volta à sua análise, podemos pensar neste momento como um deslizamento inevitável da posição analítica?

A posição contratransferencial nos conduz a um afeto que deve ser essencialmente ético, dado marcar a relação entre analisando e analista. O analista atua um personagem, e, assim, ocupa um lugar na relação. Ele seria alguém marcado por sua escuta, está na posição de analista. Daí a importância de frisar a relação ética estabelecida – os moderadores de sua atuação são ditados por sua subjetividade e formação; é essencial haver um compromisso bem definido.

            A contratransferência toca o analista essencialmente em seu ato. Sendo este ato de tamanha responsabilidade, deve ser calculado (na medida do possível) por seu agente. A ação analítica pode ser marcada por um excesso, tanto de teoria como de subjetividade, uma superposição da experiência pessoal do profissional à busca do particular do seu analisando. Segundo o professor Renato Janine Ribeiro (Ribeiro, 2000. P. 69), os condicionantes ou determinantes de uma ação podem se tornar infecundos quando excedem o ato. Em outras palavras, o resultado de toda uma arquitetura pode ser pouco para o esforço depreendido – “A montanha pariu um rato”. Os psicanalistas devem tomar cuidado com o ‘excesso de teoria’, ou a interpretação analítica pode se tornar uma sobreposição de sentido a um conteúdo a ser desconstruído.

            Na teoria psicanalítica, seu fundador propunha uma suspensão de teoria a cada início de sessão analítica – o analista deveria ouvir o conteúdo do analisando de maneira mais ingênua o possível. Além de sublinhar a necessidade de uma escuta livre de preconceitos, Freud alerta contra o caráter falso da contratransferência, leia-se até antianalítico, dado a psicanálise ser uma busca pela verdade. Um passo possível seria pensar na contratransferência como um excesso de sentido, uma fuga da simplicidade que deve compor o espaço analítico. ‘Simplicidade’ aludindo à priorização da forma ao conteúdo, a radicalidade da enunciação do paciente como superior à multiplicidade de idéias tecida em torno deste enunciado.

            Se a psicanálise freudiana for uma busca pela verdade inconsciente, uma talking cure – a cura pela palavra dita no espaço da associação livre – ao analista cabe combater o excesso de sentido.

 

2.

            Através das diversas correntes da psicanálise é comum encontrarmos termos semelhantes para conceitos totalmente diversos. Cada linha atribui sua particularidade aos termos cunhados por Freud, e os traduz das mais diversas maneiras. Entretanto, o conceito de transferência é lido de forma semelhante pelos diversos leitores da obra freudiana, além de ter se transformado relativamente pouco ao longo da história psicanalítica. A transferência reuniria os afetos que emergem no analisando em relação a seu analista – afetos tomados de empréstimo de outras figuras do inconsciente, transferidos de um a outro. Este analista condensaria – como no sonho – afetos desligados de suas representações conscientes, e tal transmigração criaria o vínculo que possibilitaria ocorrer a análise.

            É comum na teoria psicanalítica a noção da transferência como essencial à análise, como caminho para o estabelecimento do vínculo e abertura para a associação livre. Contudo, tal elo carrega um risco. Caso o afeto torne-se demasiado erótico, ou a análise se fixe neste ponto transferencial, é necessária a interpretação da mesma. Sendo a transferência uma negação da realidade – uma vez que imbui de afeto uma pessoa em substituição ou sobreposição à outra – torna-se, simultaneamente, uma resistência ao processo. Podemos, enfim, pensar na transferência como um paradoxo: por um lado, trata-se de um motor para o ingresso do paciente em análise, caso seja devidamente manejada pelo analista. Por outro, contudo, faz-se um obstáculo, uma forma de resistência ao tratamento. Sendo a psicanálise para Freud baseada no amor à verdade, uma representação encobridora como a transferência traz, em si, uma ameaça a essa busca.

            Para pinçarmos uma definição mais sumária (e não menos precisa) da transferência, podemos procurar o ‘Vocabulário de Psicanálise’, de Laplanche e Pontalis:

 

      “Quando Freud, (...) fala de transferência, (...) designa assim um modo de deslocamento em que o desejo inconsciente se exprime e se disfarça através do material fornecido pelos restos pré-conscientes do dia anterior” (Laplanche e Pontalis, 1997. P. 516)

           

Assim, a visão de transferência como deslocamento não seria aplicável apenas ao sonho, segundo estes autores, mas também aos demais fenômenos transferenciais. Contudo, apesar de ser uma situação de deslocamento, encerra em si uma grande característica de resistência. Os autores acrescentam:

 

“Na origem, a transferência não passa, para Freud, pelo menos no plano teórico, de um caso particular de deslocamento do afeto de uma representação para a outra. Se a representação do analista é escolhida de forma privilegiada, é porque constitui uma espécie de ‘resto diurno’ sempre à disposição do sujeito, e também porque este tipo de transferência favorece a resistência, pois a confissão do desejo recalcado se torna especialmente difícil se tem de ser feita à pessoa visada por ele”. (Laplanche e Pontalis, 1997. P. 516)

 

            Estas considerações poderiam ser um passo para definirmos a transferência na obra freudiana. A partir desse ponto, analisemos a definição de Freud para a contrapartida desta, ou o seu correspondente no analista: a contratransferência.

 

3.

“Contratransferência – resposta emocional do analista ao processo de transferência do paciente, que envolve especialmente a projeção de sentimentos inconscientes do analista sobre o paciente.” (Dicionário Houaiss)

 

            Embora não seja especializado no tema, a definição de contratransferência do Dicionário Houaiss a sintetiza de maneira precisa. Trata-se efetivamente de um conceito de simples descrição, ao menos se tomarmos a perspectiva freudiana. Grosso modo, se analisarmos o significante em si, a idéia pode realmente ser definida da forma acima, ou até mesmo por seu significado etimológico original. ‘Contra’, a partir da raiz latina, sendo “em oposição a, na via contrária de”. Transferência – da raiz ‘-fer-‘ ou ‘ferere’, conduzir algo a‘. Tratar-se-ia exatamente da resposta do analista a algo que o analisando o atribui, essencialmente afetos ou representações inconscientes.

Uma moça chega até o consultório de seu analista e narra a história do rompimento de seu noivado. Afirma tê-lo feito por estar apaixonada pelo profissional, e pede que este a corresponda. Poderia seu analista – como no filme “Poderosa Afrodite”, de Woody Allen – atribuir alguma veracidade àquele afeto, mesmo que para exteriorizar alguma correspondência em si? Podemos complicar a questão: ao relatar o rompimento, o analista se vê identificado ao papel do noivo abandonado, pois vivenciara tal situação no mês anterior, em seu próprio relacionamento. Até que ponto seria capaz de intervir e interpretar a analisanda sem colocar suas próprias experiências contra a individualidade da paciente? Seria legítima alguma atuação de sua parte que a condenasse, mesmo que fosse pertinente à análise? Por outro lado, como lidar com o afeto que eclode em tal situação – seria suprimi-lo a melhor alternativa, ou até mesmo uma alternativa possível? Para Freud, a intervenção é clara. Ao analista caberia manter a neutralidade analítica, descartar qualquer possibilidade de verdade neste amor e conduzir os aspectos de identificação à sua análise pessoal. Daí o caráter de transferência, de empréstimo ilegítimo de um amor dirigido a outrem à figura do analista.

Na obra de Sigmund Freud o conceito ‘contratransferência’ aparece apenas em três momentos, apesar da necessidade de se trabalhar com os sentimentos do ‘médico’ durante a prática analítica surgir na maioria de seus textos referentes à transferência. O termo em si surge, pela primeira vez, em 1910 (“As perspectivas futuras da terapêutica psicanalítica” [Freud, 1910 / 1985]), na fala de abertura do Congresso de Nuremberg da Associação Internacional Psicanalítica (IPA), o segundo realizado por essa instituição. Reaparece apenas em 1915 (“Observações sobre o amor transferencial” [Freud, 1915 / 1985]), em duas partes do texto, sem ser mencionado em nenhum momento posterior de sua obra. Poderíamos mesmo questionar o motivo pelo qual Freud abordou tão pouco o tema.

Em sua origem, a contratransferência é algo a ser sobrepujado. O psicanalista parte de sua análise pessoal para desvendar seus complexos inconscientes, a fim de evitar a influência dos mesmos no tratamento do paciente. Freud introduz neste ponto algo que obriga o analista a retomar o peso de sua análise pessoal – seus complexos não resolvidos poderiam impedir o andamento do trabalho. Marca-se uma diferença essencial entre Freud e as formulações posteriores quanto à contratransferência. Embora não haja ainda a especificidade quanto à interpretação, trata-se de uma posição de alerta frente os afetos que surgem da relação transferencial. Uma falha no encaminhamento dos elementos contratransferenciais seria motivo para interrupção na análise – será que poderíamos sustentar que estes afetos em si poderiam ser utilizados não só para compreensão, mas para a interpretação mesma do analisando?

Para Freud, a contratransferência é um conceito essencialmente limitante, podemos até arriscar o adjetivo superegóico[1]. Na presença de uma reposta contratransferencial o analista cala, mantendo sua posição neutra e abstinente. A posição freudiana neste ponto é bastante específica e precisa: o analista deve permanecer neutro – na medida em que o é possível – aos afetos dirigidos a ele pelo analisando. Outra leitura possível seria da restrição promovida pela contratransferência como essencial à manutenção de uma postura analítica, tomada por Freud como essencial à psicanálise. A neutralidade oposta a uma contratransferência mal elaborada: surge um par que pode chamar a atenção. Podemos hipotetizar que a relação entre estes elementos seria uma oposição, o que nos daria uma visão clara da formulação da contratransferência como perturbação no analista, algo que seria adicionado indevidamente à neutralidade.

Retomaríamos aqui a visão da contratransferência como excesso. Arrisquemos dizer que a ação do analista se baseia na neutralidade, e o analista não coloque elementos seus na dinâmica analítica. Seria bastante visível sua justificativa técnica, especialmente no que diz respeito à interpretação psicanalítica, necessariamente baseada na verdade inconsciente do analisando. Tomando a visão de Jacques Lacan como uma extensão às formulações freudianas, é possível avançar na discussão. Qual seria sua posição frente à contratransferência? É inegável que a leitura lacaniana da obra de Sigmund Freud transformou o estudo da psicanálise. Quais são os pontos de aproximação entre as visões? Em que Lacan avançou sobre o conceito original?

 

4.

Podemos ler a formulação lacaniana sobre a contratransferência em dois tempos. Em seus ‘Escritos’ (Lacan, 1998), o autor trabalha o tema em dois textos: “Intervenções sobre a transferência” (1951) e “Variantes sobre o tratamento-padrão” (1955). Em ambos, o tom dado sobre o conceito é o de manter a especificidade freudiana. A contratransferência é lida como um engano, uma estagnação na dialética analítica. Em um momento histórico de discussão sobre a contratransferência, Lacan opta por manter a formulação freudiana – Paula Heimann acabava de publicar, em 1950, seu texto inovador sobre o tema[2].

Podemos considerar um segundo tempo em 1961, ano de seu seminário VIII, dedicado à transferência. Lacan introduz uma virada na discussão, em um comentário à obra do psicanalista inglês Roger Money-Kyrle. A contratransferência passa a ser articulada a um desejo, e não apenas a um erro do profissional. Se a transferência é ligada a uma suposição de saber no analista, a contratransferência deve se articular a algo que não seja uma maneira rígida de conduta. Em lugar de tratar a relação analítica com base na intersubjetividade ou na comunicação entre inconscientes, Lacan funda a dinâmica analítica na causa do desejo do analista. Tal desejo seria relativo ao final da análise, fundador de uma nova maneira de relação (posteriormente, isso se esclarece no discurso do analista, no qual este opera a partir de um desejo não referente a um outro, mas a promover uma análise). A partir deste novo lugar, um psicanalista abandonaria suas aspirações em relação ao analisando, sem almejar um efeito prét-a-porter. Esta posição nos lembra as formulações iniciais de Freud, que alerta contra o furor curandis do médico. As pretensões de cura – poderíamos estender até a remissão sintomática – seriam indevidas e infecundas. Neste plano, qualquer envolvimento excedente entre os dois participantes da análise seria sobrepujado por um desejo maior, essencial à possibilidade de uma psicanálise.

A contratransferência toma uma especificidade quase adjetiva – falar-se iam de fenômenos contratransferenciais. Não há muito espaço para negociar com este papel: Lacan, em 1955, a define sumariamente como “a transferência no analista” – precisamente, no original, “la transfert chez l’analyste” (Lacan, 1955/1966 P. 339) Esta relativa simplicidade é aplicada em um contexto bastante claro – para o autor, a transferência seria este ponto em que seria preciso intervir, no risco de interromper a dialética analítica não o fazendo.

Se tomarmos o processo analítico como uma nova maneira de ler relações e significar nossos afetos, a transferência cristalizadora torna-se uma parada no processo. A substituição da representação nova por uma antiga e familiar representa um retrocesso, até mesmo um engodo. Sendo a contratransferência a transferência no analista, não é exagerado dizer que contém o risco de tomar como evidente algo que guarda uma complexidade maior. Quando Freud afirma ter subestimado a relação entre Dora e a Senhora K., podemos pensar em sua contratransferência como uma leitura baseada nas informações dadas pelo pai de Dora tomada em detrimento ao conflito que se tecia. Lacan o comenta da seguinte maneira:

 

      “Em razão de sua contratransferência, Freud volta com excessiva constância ao amor que o Sr. K. inspirava em Dora, e é curioso ver como sempre interpreta no sentido de uma confissão as respostas, embora variadíssimas, que Dora lhe opõe.” (Lacan, 1951 / 1998. P. 223.)

 

            A contratransferência se tece em relação a um estreitamento da escuta analítica. Ao analista caberia ouvir com igual crédito a todas elaborações do paciente – Freud o nomeia a ‘atenção equiflutuante’. A crítica de Lacan não recai sobre um comportamento indevido de Freud, mas a uma ênfase dada a certo conteúdo em detrimento a outro. É a definição mesma da contratransferência como preconceito, no sentido literal do termo. Na busca de um sentido ou compreensão, o analista perderia de vista os demais.

            Tomando-se esta abordagem em relação à (contra) transferência, se perde de vista uma dimensão moralista ou banalisadora da análise. A contratransferência não pode ser tomada como uma regra de conduta, mas como uma posição do analista – que, posteriormente, será definida como um desejo. Em seu seminário VIII, Lacan retorna ao tema, e refaz o laço entre a contratransferência e uma escuta fundada em um desejo específico ao analista. A base do analista não é a de uma conduta predefinida ou de regras de abstinência. A contratransferência não se funda em algo a que, mas em uma escolha mais ampla.

 

“(...) Quanto melhor o analista for analisado, mais será possível que ele seja francamente amoroso, ou francamente tomado por um estado de aversão, de repulsa, dos modos mais elementares da relação de corpos entre si, com referência ao seu parceiro. (...)

Se o analista realiza como que a imagem popular, ou igualmente, a imagem deontológica da apatia é na medida em que é possuído por um desejo mais forte que os desejos que poderiam estar em causa, a saber, de chegar às vias de fato com seu paciente, de tomá-lo nos braços ou atirá-lo pela janela”. (Lacan, 1961 / 1992. P. 186 - 187)

 

            Podemos pensar que, neste momento, a noção de contratransferência é restituída em sua fecundidade. Lê-la meramente em termos de fechamento ou repressão de instintos pareceria uma imposição moral e demasiadamente imediatista. Lacan quebra a rigidez que poderia ser atribuída a uma leitura apressada do conceito. O analista não renuncia, e não se trata de priorizar um sentido a outro – sua transferência não se baseia no sentido, mas no desejo. Um desejo particular, específico a cada um, a partir do qual se abre a possibilidade de analisar. A escuta retoma a leveza – a dialética segue seu curso. Os sentidos se sobrepõem sem se excluírem.

 

5.

“Lacan não se acomodou na contratransferência. Ele suportou a interpretação descompleta. A contratransferência é um movimento para completar o sentido. Quando a palavra não é capaz de completá-lo, entra o sentimento do analista completando o que o analisando não pôde dizer.” (Forbes, 1999. P. 27 e 28)

 

`Suportar a interpretação´. Para Jorge Forbes, em uma análise há algo que o analista deve suportar. Durante nossa discussão, a contratransferência foi vista essencialmente como um entrave, até mesmo como um erro do profissional. Será que podemos ver este erro como algo fortuito? Em outros termos, haveria no analista uma intenção que sustentasse a ação dita contratransferencial?

Se Freud coloca a contratransferência como um sentimento que conduz o praticante à sua análise, podemos concebê-la em uma esfera além do questionamento. A contratransferência se apresentaria como um sintoma do analista. Lacan aponta para uma saída – o sintoma do analista deve ser amarrado a um desejo. Se a contratransferência é um erro, deve ser lido a partir do inconsciente, em busca do desejo que o anima. Em lugar de se deixar motivar por padrões rígidos de conduta – chamados por Lacan de “ortopraxias” – o analista conduz sua ação por um desejo, o desejo de analisar. Forbes o retoma conduzindo a discussão à angústia do analista. Ao profissional cabe atentar a algo que ultrapassa o domínio de sua escolha consciente. Há um desejo envolvido no trabalho, portanto, há efeitos decorrentes deste desejo e do encontro das subjetividades.

Por que um sentimento conduz o analista de volta à sua análise? Porque, efetivamente, o profissional não é imune aos afetos que testemunha. O relato do analisando reenvia o ouvinte à sua própria angústia, estabelece um laço baseado no desencontro e diferença absoluta - no vazio da comunicação, o profissional encaixa algo de si. E, neste ponto mesmo de incompreensão – o mal entendido de uma análise – o analista deveria suportar o mal entendido. Quando este preenche o vazio da palavra, aponta para sua angústia, sua dificuldade de suportar seu ato. Em lugar de manter o espaço vazio que o analisando criou, o analista o completa. Poderíamos pensar neste silêncio como essencial à elaboração posterior – o espaço vazio que possibilitaria a criação de algo inédito, por vezes incomunicável. Trata-se do espaço do “entre”, a lacuna a ser preenchida pelo novo.

Isso poderia ser lido de duas maneiras adicionais, ao menos. Um delas aponta para o elo entre analista e analisando. O caráter incompleto da comunicação configura o que chamaríamos de um elo mais fraco. O acordo e a participação das duas partes da relação se encaixam pela via da palavra: o analisando ingressa na relação e a tece por meio de sua fala. Dessa maneira, a impossibilidade de dizer tudo – ou de falar o seu mais essencial – cria um vínculo instável, fugaz. O tempo da sessão se torna ao mesmo tempo infinito e efêmero, pois encerra todo um desenvolvimento completo em si e, simultaneamente, alguns momentos culminando em um elemento que não pode ser transmitido. Não adianta contar a alguém o final de uma sessão propriamente analítica. Trata-se de algo tão individual e particular que não pode ser passado adiante (poderíamos pensar em algo semelhante ao que Thomas Hobbes elaborou sob o nome de marca: um significante ou conceito de tal maneira idiossincrático que seria compreendido somente por quem o cria. Para transmiti-lo, deve ser convertido em um signo, compreensível pelo coletivo – e, conseqüentemente, diferente da visão original). O elo mais fraco seria, por conseguinte, algo positivo à análise. Livre da rigidez de compromissos externos à própria situação dialógica permitiria um espaço efetivo de criação e elaboração de pensamentos inéditos, pequenas marcas transformadas que comporiam uma significação nova diante do desejo. O profissional que investisse no elo forte, regrado pelo contrato, não suportaria o vazio da palavra – tratar-se-ia de uma perturbação ameaçadora à estrutura da relação, frágil graças à sua demasiada solidez.

Outra maneira de ler a utilização da contratransferência como instrumento de compreensão seria pela via da ação. Uma interpretação baseada em um saber do analista possibilitaria um movimento emancipador? Ou, de outra maneira: seria um ato que facilitaria uma ação criativa no analisando? Se pensarmos na criação como algo resultante da originalidade e do desejo do analisando, é difícil sustentar que um pensamento do analista (ou de qualquer elemento externo) possa efetivamente representar um reflexo do inconsciente do analisando. A interpretação analítica seria um ato de dominação e violência se partisse de uma sobreposição de sentido à fala do analisando. Pois, retomando Foucault, o discurso em si já é uma imposição sobre as coisas (Foucault, 1970/1998). Não nos seria necessário um analista para impor uma significação por cima de outra.

Renato Janine Ribeiro[3] questiona a infecundidade de uma ação com poucos resultados. Como poderíamos atuar sem que a acumulação de esforços exceda o benefício do produto final? Na interpretação analítica, podemos perfeitamente aplicar tal raciocínio. Como buscar a intervenção mais enxuta, ágil e transformadora o possível? Se o analista deve suspender a teoria para atuar em sessão, como atingir o ponto de tensão em que a teoria esteja inapreensível no ato e, simultaneamente, seja algo condizente com sua formação e postura? A interpretação, em sua origem, poderia ser pensada como uma remoção de sentido – ao profissional cabe subtrair a significação anterior para permitir a criação de algo novo. Na oposição entre a adição de um saber e a subtração de um sentido, poderíamos situar a celeuma entre psicanálise e as psicoterapias. A postura do médico descrita por Freud opera pela escuta de conteúdos não ditos na fala, primando pela forma do discurso, que conduz a uma verdade oculta. Lacan sustenta esta posição, enquanto outras abordagens defendem que ao profissional caberia adicionar um saber à fala do analisando. Na situação oposta, um terapeuta poderia se atribuir um acesso à verdade do seu paciente, baseado em seu estudo ou, por vezes, sua experiência profissional e pessoal. Esse adicional seria utilizado na situação terapêutica para preencher o espaço de não saber – tratar-se-ia de uma ação ultrapassada enormemente por sua situação de preparo. O terapeuta deveria ter se formado, passado por experiências semelhantes e estar, sobretudo, com acesso pleno a suas próprias emoções. E todo este preparo resultaria... na escuta. A escuta, simples e leve, seria o resultado de toda uma superestrutura que necessariamente se ative em direção de uma interpretação que visa um fim. Tratar-se-ia de uma noção oposta à da psicanálise freudiana, na qual a interpretação é um salto no escuro, lançada em busca de um efeito surpresivo.

 

6.

A contratransferência instaura uma dimensão em que a experiência analítica mostra seu limite. A intervenção baseada nesta corre o risco de ser excessiva, de preencher uma dimensão originalmente vazia, um espaço para a criação. Contudo, poderia ser precipitado dizer tratar-se apenas de um excesso. Tal questão oferece tantos matizes situacionais que poderia tratar-se de uma aporia – a interpretação ou pontuação pode de tal forma ser questionada, que no limite falaríamos de uma intervenção mínima, praticamente uma não intervenção. Embora o exemplo seja extremo, temos um caso que aponta para tal. Jacques Lacan, em seus últimos anos de prática (década de 1970) era conhecido por sessões bastante curtas, tratando apenas do mais essencial de cada um. Suas pontuações eram raras – nascia a clínica do ato psicanalítico, na qual a interpretação consistiria em um movimento oposto ao processo em si. A fala se tornava decomposta em sua parte mais essencial, como era descrita pelos analisandos da época: uma clínica de pura lógica.

Evidentemente trata-se de um exemplo extremo. Não se pode tomar um profissional da envergadura de Lacan, com sua experiência clínica e qualidade intelectual e colocá-lo como standard. Contudo, nos serve para ilustrar uma modalidade clínica que deve buscar ser mais enxuta, precisa, livre dos excessos e elementos dispensáveis da ação.

A clínica passa a ser pensada como uma prática ágil, na qual os excessos seriam impedimento à dinâmica. O modelo da ação compatível a seu preparo nos parece essencial para defini-la. Especialmente se quiser tratar de uma geração em que a relação com o tempo é comprimida pela tecnologia, o tempo on-line, globalizado, fundido em uma simultaneidade planetária. O excesso infecundo passa a ser uma lentificação de algo de uma temporalidade incompatível com as práticas atuais Enquanto as terapias se oferecem como breves e adaptativas, a psicanálise propõe um tempo particular, potencializado. A análise opõe a venda do tempo breve ao tempo que não se pode mais perder de cada um, o tempo infinito.

Não sem motivo, o tempo psicanalítico da sessão é descrito com um termo caro à poesia – escansão. Diz-se da escansão que o analisando ou analista provocam em sessão. Trata-se da busca, em análise, de uma poesia e ritmo pessoais. Jacques-Alain Miller intitula seu Seminário de 2002-2003 “Um Esforço de Poesia” – uma psicanálise deve ser um esforço de poesia, pois sem ela, as significações perderiam seu valor na inserção coletiva.

            O ato do analista pode ser emancipador ou gerador de uma estagnação ou repetição. Pelas referências anteriores, percebemos a estagnação possível quando um conteúdo recebe uma ênfase maior por parte do profissional – tratar-se-ia de momentos em que o analisando é conduzido (ou se faz conduzir) por conteúdos um tanto artificiais, demasiado teóricos. Tal discurso passa a ser voltado para um ideal, eclipsando os conflitos experimentados em sua existência. O movimento de repetição funciona de maneira semelhante – em momentos de grande angústia, conteúdos novos são interpretados com base em modelos teóricos. O analisando chega à análise com um diagnóstico pronto sobre si, e ‘aprende’ a interpretá-los segundo moldes preestabelecidos. A análise não deveria seguir um padrão rígido, e sim permitir sentidos novos, originais, emancipadores de sofrimento.

Dado que o analisando deve ter em sua experiência um meio para resignificar, ou questionar suas conclusões prévias, o profissional deve deixá-lo o mais livre o possível, evitando uma sobreposição de conteúdos seus aos espaços vazios de significação. Além disso, deveria ser capaz de suportar a angústia inerente a este movimento de liberdade das referências usuais – e conduzir o processo de modo que seu cliente também o possa. Desta forma, as condições se tornam favoráveis para o surgimento do ato criador, o efeito com o qual o analisando transforma seu cotidiano e foge à repetição baseada nos ideais, em um ‘ter que’ acrítico e generalizado.

Afinal, uma análise deve servir para se encontrar – o mais rápido o possível – algo que faça a vida valer realmente a pena. E deve ser algo inédito, individual, a receita mais caseira e tradicional de cada um. Se não servir para isso, para que mais serviria?

 

Referências Bibliográficas

 

DICK, Phillip K. Minority Report: a nova lei. Rio de Janeiro, Record: 2002.

 

FORBES, Jorge. Da palavra ao gesto de analista. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor: 1999.

 

FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso (1970) São Paulo, Edições Loyola:1998.

 

Freud, Sigmund – Edição Standard das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro, Editora Imago: 1985.

 

Dicionário HOUAISS da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Editora Objetiva: 2001.

 

LACAN, Jacques. “Intervenção sobre a transferência” (1951) In: Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editora: 1998.

 

_______________ “Variantes do tratamento-padrão” (1955) In: Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editora: 1998.

 

LACAN, Jacques. Écrits. Paris, Seuill: 1966.

 

______________ O Seminário: a transferência -livro VIII. (1961)  Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editora: 1992.

 

LAPLANCE, Jean e PONTALIS, Jean Baptiste. Vocabulário de Psicanálise. São Paulo, Martins Fontes: 1997.

 

RIBEIRO, Renato Janine. “Dificuldades de um Leigo”. In: Inês Borgéa (org),  Oito ou nove ensaios sobre o grupo Corpo. (mimeo) São Paulo, Cosac e Naify: 2000.

 

RUSHDIE, Salman. Os Versos Satânicos. São Paulo, Companhia das Letras: 1998.

 

 

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[1] Referindo-se à formulação freudiana conhecida como ‘segunda tópica’. A organização psíquica estaria dividida em três instâncias, o Ego, Id e Superego. O terceiro seria a instância reguladora, fruto da internalização inconsciente da imagem paterna, e atuaria como disciplinadora e constritiva, opondo-se ao Id, fonte dos instintos. ‘Superegóico’ seria algo relativo à renúncia de um impulso em prol de uma posição condizente com a esfera social ou cultural, reprimindo afetos ou atos mais primitivos.

[2] O trabalho de Paula Heimann, intitulado “On Countertransference” (1950), é considerado o marco para a mudança de perspectiva sobre a contratransferência. Embora Sandor Ferenczi já tivesse teorizado a este respeito, assim como Heinrick Racker, o texto que efetivamente repercutiu sobre a consideração dos afetos contratransferenciais como compreensão do inconsciente do analisando foi o de Heimann. A autora formulou que a partir de uma leitura específica dos textos freudianos seria possível conceber o inconsciente do analista como um receptor de conteúdos não ditos do analisando.

[3]  A referência é seu curso recentemente ministrado na Pós Graduação da Universidade de São Paulo, intitulado “A Cultura pela Cultura”.