A DOCA E A DOXA
Escrito por Francisco Rodrigues Alves
Sáb, 13 de Setembro de 2003 03:00
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A Doca e a Doxa

Francisco Rodrigues Alves
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            Na década de 1960, um menino caminha pelas docas portuárias da cidade de Santos, no litoral de São Paulo. Ele observa os estivadores através de seus óculos, incoerentes com a paisagem simples e rústica. Embora seja de família tradicional e filho de um dos maiores eruditos da região, o rapaz se aproxima dos trabalhadores. Ele os escuta, se educa naquela simplicidade tão diferente do mundo em que habita. Nas palavras, musicas e sons daquele lugar duro, o jovem escorrega de seu universo cultural e penetra em um jardim secreto. Não há oposição evidente – mesmo em seu gesto de pura rebeldia adolescente, descobre a sabedoria escondida (ou evidente) nas palavras simples, antigas deste meio. As rodas de samba, as histórias das docas, a diferença. À autenticidade da voz carregada de experiência contrasta a carência de vocabulário – esta cena ensinou ao jovem algo que carregaria para toda sua vida: a palavra é magia, sua beleza é acessível a cada um proposto a escutá-la.

            A voz do povo é a palavra de Deus, segundo o adágio. Jacques-Alain Miller nos recorda, em sua aula de 15 de maio de 2003, no seu curso intitulado “um Esforço de Poesia”, a validade do ditado. Contudo, é necessário prestar atenção em que Deus se fala. Nesta aula, o psicanalista relembra que não há só um Deus.

            Sem reavivar politeísmo algum, Miller traça um diálogo entre dois intelectuais: Sigmund Freud e Jacques Lacan. Freud dedicou muitos textos a pensar a relação entre a religião e a psicanálise. Para Freud – segundo Miller – a religião seria lida como sintoma. Neurose obsessiva, em sua face de rito. Um meio para se renunciar à pulsão. Trata-se do Deus antigo, zeloso, no original, retomando a ambigüidade etimológica do termo. Zelo, ciúme e fúria, oposto a zelo como cuidado do objeto de amor. O Pai, potencializado, que olha os filhos mal comportados através de seus olhos ingênuos (dado não ter perspectiva, pois é onipresente). Ele zela, mantém a ordem hierárquica do mundo caótico dos homens, personifica o próprio hierós – o sagrado. Há também, para Freud, o Deus da alucinação, promovendo fenômenos transcendentais – a divindade do carismático, experimentando o contato não intermediado pelo sacerdote.

Aparte o Deus efusivo da psicose, Freud trata com mais detalhe a instituição ilusória da hierarquia. A divindade hierárquica autoriza o fiel a uma renúncia de seu gozo – você tem o direito de permanecer calado. Calado e inerte, obscurecido em uma posição de “não posso, não consigo”. Jorge Forbes, em seu recente Seminário, tocou com bastante precisão esta posição subjetiva. É a neurose por excelência: o obsessivo delega seu desejo a um outro invisível que o bloqueia. Ele adia, suspende sua palavra, aguardando o bom momento para agir.

            O Deus hierarca baseou nossa sociedade, foram estabelecidas em Seu nome ordens, modelos de conduta. Há uma boa hora para tudo, e o bom burguês é aquele que renuncia pela causa nobre. Afastado do mundo, ele espera. Forbes o demonstrou analisando a vertente dita normativa do Direito, fundado na regra comum. Há a estrutura da sexualidade, na qual a época da renúncia ao gozo toma o nome de latência. Miller o aponta nesta aula, e Forbes atenta para os novos movimentos da juventude, quando a latência cessa de fazer sentido. Será que poderemos ainda vender a crise da adolescência aos jovens a quem tudo é permitido?

            De volta à aula citada, há a posição de Jacques Lacan. Existe um Deus além do hierarca, uma face não dedicada ao zelo, mas ao gozo. A divindade dos santos – em seu Seminário XX, sobre o corpo. O psicanalista legitima a experiência religiosa. Seria mais interessante abrir o leque ao invés de procurar a psicose. Surge o Deus-dito, um Deuzer. Este fica na fala, escorrega entre os significantes – é a magia das palavras, a letra que toca o corpo. É o Deus cartesiano, ineliminável.

            Podemos aliá-lo à divindade da poesia, o sorriso do menino ao escapar da chatice estéril das hierarquias esnobes. O novo rico é essencialmente plano, dotado de uma complexidade emaranhada, enquanto o estivador carrega as palavras secas, duras. Em seus braços e história traz uma experiência eminentemente poética. Por não ter os meios pré-fabricados de contá-la, a transmite com leveza e rapidez, para relembrarmos Italo Calvino. Na palavra pura, se ouve a presença deste dizer divino, ingênuo. A poesia das costas cansadas daquele que não tem para quem nem porque reclamar – sabe que a vida é uma só, conhece os sons das docas, o sorriso sincero do menino...