EUGENIA E GLOBALIZAÇÃO
Escrito por Francisco Rodrigues Alves
Sáb, 13 de Setembro de 2003 03:00
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Eugenia e Globalização

Francisco Rodrigues Alves
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             O termo Eugenia (originado do grego “bom nascimento”) foi cunhado por Francis Galton. Galton, primo distante de Charles Darwin, realizava pesquisas no campo promissor – à época – da genética comportamental. Partindo da idéia da prevalência da natureza sobre a criação, o cientista britânico realizou estudos com gêmeos idênticos e fraternos. Desenvolveu, em seguida, sua tese de que a humanidade deveria melhorar sua linhagem com um programa de reprodução seletiva.

            A tese ecoou. O geneticista americano Charles Davenport, no início do século XX, fundou laboratórios e iniciou campanhas de esterilização seletiva ao longo dos EUA, entre homens e mulheres em prisões e hospitais psiquiátricos. O próximo passo dos eugenistas foi requerir ao governo uma restrição à imigração de raças geneticamente indesejáveis. A eugenia também foi aplicada em massa na Alemanha nazista – acompanhada, inevitavelmente, por uma outra eu-prática: a eutanásia (boa morte).

            O discurso científico da eugenia não vingou – cientistas de todo mundo refutaram as hipóteses e modelos dos eugenistas e abandonaram suas idéias. Contudo, hoje, na era da Globalização, o discurso eugêncio ressurgiu de forma mascarada e fulminante – a tese científica deu lugar à sua vertente mais nociva, o discurso ideológico.

Le Pen e outras almas penadas aparecem hoje nas manchetes com euforia, alastrando o bacilo da eugenia – práticas de ‘higienização social’, nacionalismos radicais, e o ressurgimento de ideais nazistas e facistas ao longo de toda Europa nos arrepiam. Na própria ciência, o racismo se infiltra.

Camuflado pela postura remissiva e detentora de um saber, algumas fatias da medicina clamam o poder sobre a ‘normalidade’ – palavra estranha, misteriosa. Normal é aquilo que está na média, o sumo da adaptação e da identidade. Indivíduos normais, no senso comum, são os que fazem o que os demais também fazem, desejam o que está na moda, compram o mais vendido. O ‘soma’, de Aldous Huxley, nunca foi tão alardeado. O que escapa da norma – o anormal – não deve ser repelido: deve ser tratado, curado, medicado, engessado, silenciado e, em alguns lugares, esterilizado. Ou morto.

E a psicanálise, essa eterna excêntrica – fora dos centros de saber – o que ela diz? Ela diz o que Freud dizia, o que Lacan dizia. Ela diz que o desejo é impossível de normalizar, o muro mais alto só inspira escadas mais longas. O desejo, ao eclodir, traz consigo a repressão a si. ‘Refoulement’, recalcamento, calcar de volta. Só retorna o que uma vez escapou.

A Globalização sublinha as diferenças, ri da verticalização e zomba dos hierarcas. Certamente, tal efeito trará consigo uma exacerbação da intolerância às diferenças, a cruzada pelo retorno da norma, da ordem, do Pai morto, ressucitado, empalhado (ou em-pen-ado), para servir e proteger – serve and protect – a algum semblante que ainda tenha sobrevivido à radical perda das referências fixas. Lacan inclusive, em seu ‘Televisão’, antevê o momento que passamos: adverte o retorno de um “passado funesto”, ao ser questionado sobre a escalada do racismo.

E o psicanalista alerta. Alerta, prossegue com a bandeira de Freud – bandeira que, esfarrapada, foi costurada por Lacan. Sustenta que a humanidade se faz pela diferença, não pela uniformidade.

O combate entre homens e máquinas – previsto e desejado por tantos autores de Ficção Científica – já começou. A psicanálise torce pelo homem.