MATRIZES
Escrito por Francisco Rodrigues Alves
Sáb, 13 de Setembro de 2003 03:00
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Matrizes

 

Francisco Rodrigues Alves
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             2003, o ano da Matrix. As matrizes do pensamento são abertas, escancaradas pelo novo. Perdem-se os referenciais e, como diz Jacques-Alain Miller, vivemos em uma época de híbridos. O psicanalista de hoje, a partir de sua inquietude, vibra. Ouvimos o ‘Non ducor, duco’ dos corações acordados pelos novos ventos. Globalização, a quebra das matrizes de outrora.

            Se os Wachowski Brothers – modernos flautistas de Hamelin – nos anunciam que a Matrix está para cair, outro W, “the W.”, nos diz o contrário (empresto aqui a genial brincadeira do Nouvel Observateur, que diferencia Georges Bush pai e filho pelo W). W. quer que a matriz se reerga, opulenta e tripla, uma torre para cada Bush - não esqueçamos de Jeb! Saddam foge, Bagdá queima, e o mundo se aterroriza com a promessa de uma nova paz acima de tudo e todos. A piada nos acorda – o mundo deve estar louco mesmo se os franceses chamam os americanos de arrogantes...

            Vivemos em tempos paradoxais (desde o começo dos tempos, aliás). De um lado, uma arte inovadora, Wachowskis nos sugerindo que o mundo é mais do que parece e Spielbergs nos dizendo que o futuro a Deus pertence. Outro lado, W’s que pregam a homogeneidade macdonáldica de sua democracia panóptica (Bentham nunca viu tão longe!) – tão parecido com seu oponente! Um pêndulo: Daniel Lindemberg defende a volta dos radicais livres (contra os novos reacionários) e a pureza de idéias. Salman Rushdie reza por uma impureza racial, uma mestiçagem criativa e criadora.

            Novas visões: testemunhamos a entrada triunfal da política na psicanálise. O inconsciente é a política, nos diz o Dr. Lacan, sempre inovador. E se o inconsciente é a política, os psicanalistas irão se aproximar da política. Continuamos fascinados pelo mistério do inconsciente, Freud já nos demonstrava sua paixão pelo impossível.

            Impossível, Real, inapreensível. As aparências carregam uma lógica interna e uma funcionalidade necessária, mas enganam. Há algo que não alcançamos, mas que produz efeitos. Afinal, isso é psicanálise ou cinema?