O OLHAR, QUE ANTES ERA CARO, AGORA É PAGO
Escrito por Francisco Rodrigues Alves
Sáb, 13 de Setembro de 2003 03:00
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O olhar, que antes era caro, agora é pago.

 

Francisco Rodrigues Alves
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            De tanto querer olhar, acaba-se cego – o voyeurismo cresce, e seu prazer é ilusório. O que parece uma máxima da oftalmologia reflete uma utilização moderna da tecnologia, causa de uma retirada de responsabilidade do sujeito.

            A televisão brasileira atravessa uma verdadeira revolução com o lançamento na última temporada de inúmeros ‘reality shows’ – o nome, evidentemente em inglês, poderia ser traduzido como ‘shows de realidade’. Índices de audiência jamais atingidos e uma maçiça publicidade demonstram o novo interesse da população. Tal novidade é um fenômeno mundial; no Brasil, a novidade chega com certo atraso.

O objetivo das séries varia: sobrevivência ou convivência - os shows atraem sobretudo pelo circo humano das relações. Exibidas pela TV e Internet, os telespectadores acompanham não só o cotidiano dos personagens (sem excluir cenas de cama, mesa ou banho), mas decidem qual dos protagonistas vai ficar até o último dia – um Juízo Final virtual, cada personagem se defende do exílio para o anonimato (em geral, acompanhado de um convite para ensaios fotográficos mais reveladores). Evidentemente, o mais interessante são as brigas e romances, que movimentam largo mercado na mídia.

            Apesar da idéia ter sido lançada como novidade, não causou surpresa. Na época de uma sociedade que faz apologia ao obsceno social - o panóptico cotidiano - nada mais óbvio. Há algum tempo, o filme “The Truman Show” tratava exatamente disso: um filme pouco engraçado, retratando a revoltante situação de um garoto que cresce observado por telespectadores, em um estúdio simulando o mundo. A surpresa aparece justamente no final, quando o espectador se flagra participando da mesma invasão que o revolta durante o filme.

            Voyeurismo, resgate do interesse na banalidade cotidiana, escapismo narcísico – não importa o nome dado, a idéia é um sucesso de mercado. O efeito por trás de tanta audiência é a sensação de intimidade – artistas se tornam pessoas comuns, modelos mostram-se “como são”. Embora seja conhecido o fato de que a produção interfere ativamente no comportamento (e intrigas) dos participantes, o imaginário do “ver sem ser visto” conduz o olhar além da reality, até alcançar o show. Não há verdade no Real.

            A utilização da Internet ou televisão para um voyeurismo “seguro”não é inédito. Originais de um país que desenvolve e orgulha-se de suas “smart bombs” (uma bomba disparada a quilômetros do alvo, matando centenas de pessoas como se fosse um videogame), o uso das câmeras digitais para a exposição do obsceno é antigo. Inúmeros “sites” americanos oferecem há anos um serviço (pago), no qual o expectador acompanha a vida de modelos ou atrizes em seu cotidiano. O olhar, que antes era caro, virou pago: por alguns dólares, um homem relativamente normal pode ver uma mulher falando ao telefone, indo ao banheiro ou tirando a roupa ao vivo e a uma distância segura. Nasce, com esta tecnologia, um voyeurismo desprovido de culpa, social e anônimo.

            Para a psicanálise, a ruptura da confiança no “capital social” tratado por Fukuyama – sintomatizado em transgressões “sociais” - não passa de uma reação a um controle total da liberdade e uma vigilância generalizada, que enclausuram o sujeito em uma segurança de renúncia ao contato. O interessante nessa observação analítica é responder ao argumento hipócrita de que a tecnologia perverte o homem. Desde Freud, perde-se esta ingenuidade; é essencial apontar que é o neurótico o perversor da tecnologia. Essa perversão tecnológica não satisfaz o desejo do sujeito nem ameniza sua culpa – a situação protética do drible da responsabilidade só agrava o curto-circuito do gozo, angustiando um homem a ponto de abdicar de sua própria vida, a fim de ser um dedicado espião do cotidiano alheio.