FERRAMENTAS
Escrito por Francisco Rodrigues Alves
Sáb, 13 de Setembro de 2003 03:00
Imprimir

Ferramentas

 

Francisco Rodrigues Alves
Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

 

 

Os psicanalistas têm debatido sobre os horizontes de sua especialidade. Frente ao avanço da prática analítica se faz necessário retomar a antiga questão e distingui-la das psicoterapias. Psicanálise e psicoterapia sempre foram lados de moedas diferentes, embora haja um certo embaraço quando observamos a prática corrente de alguns profissionais. Esta distinção carrega uma novidade, um tema antigo que se retoma e ganha novos argumentos.

Vemos surgir a interrogação na distinção entre a psicanálise e si mesma, a prática do analista e seu laço com a teoria. A psicanálise é marcada por um real, se faz presente em uma relação que não permite hesitação ou titubeio, uma relação se tece fora do sentido. Para pensar neste real, podemos voltar um pouco e discutir algo que já foi assunto de muita reflexão. Ao que faz margem com este real, chamemos de ferramenta.

Uma das coisas que distingue o homem dos outros animais é o uso de ferramentas.O homem operacionaliza os meios em seu redor para promover uma comunicação com os outros ou consigo, deixa marcas e sinais. Por mais que haja sinais entre animais selvagens, o homem parece ser o único a utilizar elementos da natureza – em geral, vegetais ou minerais – para relacionar-se. São os bilhetes deixados na geladeira para lembrar que o gás chegará às 4:00, por exemplo.

Observando o avanço tecnológico, percebemos o impacto obtido pela ferramenta nestas gerações atuais. Computadores manuais cada vez menores e mais potentes são lançados e, imediatamente, tornados indispensáveis ao nosso cotidiano. Ao ver alguém utilizando um destes, é impossível não lembrar de um escriba, anotando em um papiro os desígnios de seu senhor. O movimento, no fundo, é bastante semelhante – há na contemporaneidade uma necessidade enorme de estar munido de ferramentas adequadas (ao trabalho, inicialmente). Questiono se as gerações anteriores à nossa apresentavam esta necessidade de possuir um caderno em sua jaqueta - agora, é essencial um celular e, ultimamente, um computador. A velocidade das relações aumentou rápido demais.

Se antes, a ferramenta era a tinta e o anteparo, atualmente a relação é transmitida por fachos de luz. Para contar algo a um amigo, meu avô escrevia uma carta. Eu, em segundos, envio uma mensagem via e-mail, rápida como um suspiro – se meus contatos forem ágeis, recebo a resposta em alguns minutos. A relação proporcionada pela tecnologia é alienante; todos tivemos a experiência de transitar na época em que telefones portáteis eram supérfluos. Hoje, parece minimamente indispensável o uso ou proximidade do aparelho. Trata-se de gerações tecnodependentes, seduzidas pelo apelo da velocidade e praticidade – somos, talvez, mais funcionais e produtivos graças ao desenvolvimento da ferramenta. Sem dúvida, mais dependentes.

O ponto interessante da ferramenta é que desde o início, esta serve para comunicar algo de um homem para o outro, ou consigo. O homo habilis, ao criar suas lanças, transmite um estilo aos seus pares e ao arqueólogo que a encontraria anos depois – além da relação prática que o utensílio efetua, cria-se uma dimensão de contato entre os homens. A literatura talvez seja o exemplo mais nobre de ferramenta – fantasias e concepções de uma intimidade pessoal encontram uma via material para alcançar inúmeras outras alheias a si. O livro comunica algo do autor para seus leitores, atravessa as barreiras lingüísticas e geográficas para contar um episódio ou marcar uma opinião.

A sedução da ferramenta não se restringe a seu potencial comunicativo. Uma vez que o nosso corpo parece ser um campo nutritivo para a tecnologia, o desvario pós-moderno acaba por tocar o mais íntimo nos homens. Entre o nascido e o comprado, o homem globalizado escolhe o desenho de suas partes, toma medicações que garantem esta ou aquela performance. A industria modifica aquilo que não faz sentido ao cotidiano. Se na Idade Média os sacerdotes tentaram instituir a tristeza como sendo o oitavo pecado capital e falharam, a indústria química moderna triunfou, tornou-a doença e oferece sua cura.

Com os constantes avanços da robótica, estamos no umbral da realização plena da fantasia cibernética obsessiva, a mecanização do corpo. A atmosfera da ficção está nos cercando; logo será possível trocar partes do nosso corpo por aparatos mecânicos diversos, braço laptop ou pernas-geladeira. Aliás, tal distância é tão curta que vemos mulheres e homens transformando totalmente seus corpos ao longo da moda. Os cirurgiões tornaram-se os estilistas definitivos, revestem e vestem as pessoas com os corpos que desejam. O corpo deixa de ser corpo, o corpo é ferramenta.

Outra questão que incomoda hoje é a alienação na ferramenta. Desde sua criação pelo primitivo, o instrumento porta esta capacidade de levar a culpa pelo ato de seu usuário. Cria-se algo e, rapidamente, aparecem os maus usos de suas propriedades. O primitivo inventa um cajado para alcançar frutas na copa da árvore, seu vizinho o furta e inventa a clava, golpeando-o na cabeça. Os modernos inventam computadores ultra-avançados e redes de comunicação global e encontramos os “viciados na internet”, pessoas dependentes desta virtualidade gozoza. São os incapazes de estabelecer relações que não sejam rapidamente, com o clicar de alguns botões, reduzidas a zero.

A ferramenta sempre serviu como meio, como mídia, para a comunicação. Hoje, encontramos a perversão da ferramenta neste uso – o homem pós-moderno torna o acessório uma necessidade. A pessoa que passa as madrugadas de sua vida relacionando-se com outros ‘virtuais’ torna-se dependente da tecnologia; o instrumento de aproximação entre homens passa a ser a única possibilidade de relação, um anexo essencial do contemporâneo.

Recentemente, foi publicada a enorme procura nos Estados Unidos da América pela chamada “psicoterapia virtual”. Incontáveis ‘e-terapeutas’ se cadastram em uma lista para qual um sujeito pode, sem sair de sua casa, enviar seus problemas pessoais e ser tratado sem sair do lugar. Os novos especialistas no campo afirmam que a terapia virtual é o próximo passo – a pessoa mantém sua privacidade intacta, não se expõe ao incômodo de ser vista procurando tratamento e, além de tudo, paga menos. Sim, pois o e-tratamento, além de prático, é mais barato. Mais por menos. Interessantes são os argumentos técnicos que dão base a tal sandice: o corpo teórico existente é utilizável para justificar tal prática. A possibilidade de realizar atos falhos via teclado é um exemplo disto. Impressionante.

A psicanálise deixa de ser uma relação e passa a ser ferramenta. Alguns poderiam objetar que, inevitavelmente, uma relação é uma ferramenta – operamos na transferência, com um Sujeito-suposto-Saber marcando o decorrer da análise, etc. É tempo de pensar se o ato analítico em si não estaria situado justamente fora da ferramenta, em um real da relação. É impossível interpretar um e-mail, é limitado analisar uma seqüência de palavras, por mais íntimas que sejam. A terapia virtual opera no limite da ferramenta, ela é estreita à moldura de uma situação que é puro setting, puro semblante.

A psicanálise não é a ferramenta da clínica. Não se trata de um meio, uma norma ou padrão de relacionamento – é exatamente o oposto. Uma psicanálise sustentada pelo ato analítico é o que escapa à ferramenta, é o impossível da operacionalização. Esse fato, no fundo, alivia – são especiais estes momentos na evolução nos quais inventamos algo que não é voltado para um efeito, e sim para um afeto.