NA NATUREZA, NO HOMEM E NA SOCIEDADE NADA SE CRIA, NADA SE TRANSFORMA... TUDO SE REPETE
Escrito por Vander Ferraz Neves
Qua, 01 de Outubro de 2003 03:00
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NA NATUREZA, NO HOMEM E NA SOCIEDADE NADA SE CRIA, NADA SE TRANSFORMA... TUDO SE REPETE

Vander Ferraz Nevesy

 

RESUMO: Este artigo visou uma junção de uma obra literária com a teoria psicanalítica. A obra escolhida foi O Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago. No que diz respeito à Psicanálise, o trabalho se ateve às contribuições trazidas por Sigmund Freud, Jacques Lacan e Luiz Alfredo Garcia-Roza a respeito da repetição, uma das principais teorias dessa ciência. Na primeira parte foram trabalhados os percursos histórico-filosóficos do tema da repetição desde seu surgimento, passando pelas contribuições da Psicanálise até a deflagração desse tema nos dias atuais. Houve explanações sobre o tema por meio de um levantamento teórico. Já na segunda parte, o trabalho tangenciou-se em realizar uma resenha sobre a obra literária escolhida. A descrição foi feita de forma prática e sucinta, a fim de propiciar ao leitor uma idéia do que representa esta obra de Saramago. Com isso, inicia-se uma tentativa interpretativa e hipotética sobre quais aspectos tratados na sua obra poderiam ter relação com a Psicanálise. Chega-se então a conclusão de que a ilha desconhecida tratada na obra é, na realidade, a ilha do desejo, uma ilha onde não existe a repetição. Na parte final tem-se a continuidade da discussão entre os aspectos da obra e os termos da Psicanálise. Nessa parte também se encontram as considerações finais a respeito do trabalho. O artigo conta também como uma contribuição da filosofia de Friedrich Nietzsche, em relação ao termo eterno-retorno, extensamente trabalhado por este autor.

PALAVRAS-CHAVE: Repetição, Psicanálise, Desejo, Ilha Desconhecida, Inconsciente, Eterno Retorno.

 

INTRODUÇÃO

Este trabalho tem como objetivo principal fazer um recorte a partir da teoria psicanalítica, aliada a uma obra literária e a um trecho da Filosofia de Friedrich Nietzsche.

O tema da Psicanálise trabalhado aqui é a repetição (Wiederholen), que é um conceito produzido por Sigmund Freud em 1914. Esse conceito veio elucidar alguns aspectos da teoria analítica no que tange o inconsciente e a transferência. Todo o primeiro capítulo descreve como surgiu este termo histórica e filosoficamente até chegar naquilo que foi tratado por Freud.

O segundo capítulo apresenta o tema do Eterno Retorno, do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, onde são apontados similaridades com o tema da repetição, trazido posteriormente pela Psicanálise.

A respeito da obra literária, foi escolhida O Conto da Ilha Desconhecida, obra do autor português José Saramago. No terceiro capítulo, há uma resenha dessa obra e a descrição de alguns aspectos que corroboram com a teoria psicanalítica.

A última parte diz respeito às considerações finais sobre este trabalho, constando aquilo que, neste momento, foi criado como similaridade entre a obra de Freud, a obra de Saramago e a obra de Nietzsche.

Não há uma tentativa de esgotar a realidade, ou seja, encerrar o assunto. Mesmo porque, durante as leituras realizadas para a confecção deste trabalho, observam-se vários temas que poderiam ser tratados tanto na Psicanálise, nesta obra literária específica e na filosofia de Nietzsche.

A preocupação maior foi de apontar a tentativa proposta por Freud para o trabalho analítico, em outras palavras, empregar o desejo no contexto de vida do sujeito. Para isso, a obra de Saramago através de uma descrição, aponta uma saída para o desejo de um homem. Ressalta-se que só há vida se houver desejo e, mesmo que esse desejo se formalize, surgirão outros para serem realizados como num processo quase simultâneo.

Podemos apontar como exemplo para esta afirmação, um sujeito que deseja um salário maior do que ganha. A partir do momento que ele o consegue, é natural que ele deseje ganhar mais em detrimento àquilo que ganha. Foi assim na obra de Saramago: o homem queria um barco para ir à ilha desconhecida, conseguiu e acabou criando outros desejos a serem realizados, que serão descritos a seguir.

O encerramento deste artigo vislumbra uma atuação do analista, apesar de em nenhum instante estar embasado em uma experiência clínica. Neste caso, recorro-me a Nietzsche para explicar como seria uma atuação do psicólogo que promove a análise. Para ele, o psicólogo é:

  O gênio do coração que faz amainar todas as vozes altissonantes e vaidosas, que ensinam ouvir em silêncio, que analisa as almas enrugadas, ensinando-lhes um novo desejo: o desejo de ficar quieto e fazer, como espelho d´água onde se reflita o céu profundo e calmo... O gênio do coração que ensina à mão torpe e impulsiva como deve conter-se e ser mais delicada; que sabe descobrir o tesouro oculto e esquecido, a gota de bondade e de doce espiritualismo escondida debaixo da camada sólida do gelo; que é uma varinha mágica que atrai as pepitas de ouro soterradas há muito tempo no lodo e na areia... O gênio do coração de cujo contato todos saem mais ricos, não abençoado e surpreendido, não feliz e oprimido por ter obtido um bem alheio, mas sim mais rico de si mesmo, renovado, reflorido, beijado e compenetrado quase pelo sopro de um zéfiro mais tenro, mais frágil, ainda cheio de esperança sem nome, cheio de intenções, repleto de novas vontades e de novas energias, transbordante de desdéns novos e de reações originais...(NIETZSCHE, 2001: 75)

 

Esta então é obra Na natureza, no homem e na sociedade nada se cria, nada se transforma... Tudo se repete.

CAPÍTULO I – A REPETIÇÃO E A PSICANÁLISE

Trataremos inicialmente o conceito de repetição, a partir da Psicanálise criada por Sigmund Freud; particularmente naquilo que faz ressonância em alguns conceitos trabalhados por Friedrich Nietzsche e na obra literária do escritor português José Saramago – O Conto da Ilha Desconhecida.

Desde os primórdios da humanidade, na confecção das civilizações e na criação de leis houve uma preocupação para que sempre existisse um modelo a ser seguido. Partindo da Mitologia Grega, o começo era o Caos, o primeiro estado primitivo do mundo. Como o fato de existir ainda era uma indeterminação, coloca-se um mito narrando o preenchimento desta lacuna, que tinha o seguinte valor:

  No espírito dos gregos e dos latinos tiveram o valor de dogmas e realidades. Assim, inspiraram aos homens, sustentaram instituições às vezes muito respeitáveis, sugeriram aos homens, aos poetas, aos literatos a idéia de criações e mesmo admiráveis obras-primas.(COMMELIN, 1983: 15)

 

A narrativa da história da linguagem humana começava exatamente neste ponto, sob formas e mais formas de repetição.

  Esses acontecimentos primordiais, uma vez produzidos, transformaram-se em modelos para a conduta dos homens. O homem das culturas arcaicas e primitivas repete esse modelo, sendo que é através dessa repetição que os fatos do cotidiano ganham sentido e realidade. (GARCIA-ROZA, 1986: 27)

Com este acontecimento percebe-se que os feitos dos heróis gregos só puderam acontecer pelo Caos. No decorrer dos séculos, mesmo com as mudanças de grandes paradigmas como o Heliocentrismo, a Religião, a Filosofia, o Renascimento, a Contra-Reforma, o Feudalismo, a Revolução Industrial, o Capitalismo; nenhum fato cotidiano ganhava sentido real se não repetisse um modelo, sempre no pretérito.

De acordo com GARCIA-ROZA (1986), os acontecimentos podem ser considerados sagrados por seguir o original ou profanos por apresentarem-se estranhos àquilo que já vinha sendo repetido. O mundo, no que possui de verdadeiro (ou sagrado), é uma repetição. O que não é repetição permanece imerso no caos, carecendo de sentido e realidade.(GARCIA-ROZA, 1986: 28)

A conclusão, a partir destes dados, é que o tema da repetição tornou-se um dos maiores fantasmas da humanidade, trabalhado por várias teorias com destaque para a Filosofia, a Psicologia e a Psicanálise; sendo esta última o enfoque desta parte do trabalho.

O estudioso da teoria psicanalítica GARCIA-ROZA (1986), ao citar as contribuições do filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel sobre este tema, pontua que o filósofo coloca a verdade nunca como um dado, mas sim, o resultado de um processo que produz esta verdade e a revela. A verdade não possui um outro caminho senão aquele que é provocado por uma experiência que é compreendida na consciência. A verdade só será válida ser for considerada como totalidade. E esta totalidade citada por Hegel obedecia ao modelo grego.

Hegel emprega a distinção entro o finito e o infinito. Uma coisa considerada aparentemente concreta (finita) não possui a maior importância se não empregarmos uma rede de comparações no mundo real. Logo, aquilo que é óbvio só se apresenta desta forma porque é submetido a várias outras denominações que já existiam. De forma resumida, esta contribuição hegeliana nos remete a uma criação de significados a partir de uma repetição.

Já na obra do filósofo dinamarquês SÖren Kierkegaard, o conceito de repetição aproximava-se com aquele elaborado na Psicanálise por Freud, na medida que apresentava esta repetição como não sendo uma reminiscência, uma repetição reprodutiva. Há nesta visão, o questionamento que: "se uma coisa ao ser repetida, se ganha ou se perde?" O ganho aconteceria se houvesse uma fuga à repetição. Kierkegaard, contrário ao pensamento de Hegel, aborda a repetição uma concepção mais cristã e não grega. GARCIA-ROZA (1986) afirma que:

  Não se trata de afirmar uma eterna repetição do mesmo, mais de mostrar que o eterno retorno de que nos falam os gregos apontam para o que podemos chamar de repetição diferencial. Os acontecimentos, quando repetidos, já não são os mesmos. A própria repetição de uma palavra não traz com ela a repetição dos sentidos. (GARCIA-ROZA, 1986: 31)

 

Filósofos como Hegel e Kierkegaard e outros tiveram trabalhos consideráveis a respeito do tema da repetição, cada um com sua relevância. Mas o papel de Freud neste tema vem deflagrar uma visão nunca antes trabalhada. Pelo menos não de forma tão contundente.

Freud, tratando do caso de Dora (1905) – mais precisamente entre época em que publicava a Interpretação dos Sonhos (1900)–, estava com o foco voltado para a recordação dos acontecimentos passados da paciente. Com o abandono desta paciente após três meses de análise, por repetir com ele uma situação que havia vivido com o Sr. K, Freud pontua o conceito de repetição (Wiederholen, que na etimologia do alemão para o latim significa "novo pedir", ou seja, "pedir novamente") constituindo um dos pilares da Psicanálise e de suas técnicas. O tema pode ser entendido pela seguinte citação no texto freudiano de 1914, Recordar Repetir e Elaborar:

  ... a fim de salientar a diferença, podemos dizer que o paciente não recorda coisa alguma do que esqueceu e reprimiu, mas expressa-o pela atuação o atua-o (acts it out). Ele o reproduz não como lembrança, mas como ação; repete-o, sem, naturalmente, saber o que está repetindo. (FREUD, 1914: 165)

Torna-se muito comum então nos consultórios dos analistas os discursos: "não acontece nada de novo na minha vida", "foi Deus que quis assim", "isso foi obra do acaso"; justamente pela repetição.

  Por exemplo, o paciente não diz que recorda que costumava ser desafiador e crítico em relação à autoridade dos pais; em vez disso, comporta-se dessa maneira para com o médico. Não recorda de como chegou a um impotente e desesperado impasse em suas pesquisas sexuais infantis; mas produz uma massa de sonhos e associações confusas, queixa-se de que não consegue ter sucesso em nada e assevera estar fadado a nunca levar a cabo o que empreende. Não se recorda de ter-se envergonhado intensamente de certas atividades sexuais e de ter tido medo de elas serem descobertas; mas demonstra achar-se envergonhado do tratamento que agora empreendeu e tenta escondê-lo de todos. E assim por diante. (FREUD, 1914: 165 – 166)


Toda esta repetição vem de algo primário diferente do que foi tratado no início do Caos na Mitologia Grega: o primário agora se refere a algo do sujeito que faz valer o recalque originário, ou seja, aquilo que propicia o desejo.

  O que se repete são protótipos infantis, de tal forma que o analista, ao ser capturado nestas repetições, toma o lugar da imago paterna ou materna, dando lugar à transferência.(GARCIA-ROZA, 1986: 23)

 

Denota-se com isso a transferência como sendo um fragmento da repetição. Numa entrada em análise o sujeito possui o desejo de enamorar-se, ou seja, supõe-se que o analista irá entendê-lo e curá-lo, causando admiração e a contemplação. O analista utilizando-se de seu manejo começa a tratar este enamoramento, não se colocando como desejo do sujeito. Ele introduz o desejo, criando a resistência; podendo-se ainda dizer que o analista não responde à repetição que o sujeito lhe confere. Por este motivo, o conceito de transferência é completamente diferente do conceito de repetição.

  ... a transferência se torna hostil ou excessivamente intensa e, portanto, precisando de repressão, o recordar imediatamente abre o caminho à atuação (acting out). Daí, por diante, as resistências determinam a seqüência do material que deve ser repetido. O paciente retira do arsenal do passado as armas com que se defende contra o progresso do tratamento – armas que lhe temos de arrancar, uma por uma. (FREUD, 1914: 167)


Podemos ainda afirmar que a repetição é o próprio inconsciente e se dá antes da transferência. Ela é da ordem do real, do ato (acting out) e possui uma inscrição simbólica. Então, o sujeito neurótico, na esperança de repetir o maior e melhor prazer que teve e está recalcado (a primeira mamada na mãe ou naquela que assume a figura), tenta repeti-lo em todas as situações no decorrer de sua vida. Como vimos na etimologia da palavra que repetição significa um novo pedir, conclui-se que ela não existe, o sujeito neurótico simplesmente pensa que todas as situações diferentes se apresentam como iguais.

Neste sentido, a análise teria como objetivo a perlaboração (agir, labor para concluir), em fazer com que o sujeito a partir do tratamento do desejo pela linguagem, através das associações livres e do manejo da transferência, viesse, a saber, de seu desejo destituindo o analista da posição de objeto de amor, racionalizando seu inconsciente.

  A partir das reações repetitivas exibidas na transferência, somos levados ao longo dos caminhos familiares até o despertar das lembranças, que aparecem sem dificuldade, por assim dizer, após a resistência ter sido superada. (FREUD, 1914: 170)

 

Em uma forma rudimentar de resumir, pode-se dizer que o sujeito a partir do sucesso de sua análise, deixa de repetir os acontecimentos de sua vida como profanos; mas, vendo-os agora, identificados com o seu desejo.

  Esta elaboração das resistências pode, na prática, revelar-se uma tarefa árdua para o sujeito da análise e uma prova de paciência para o analista. Todavia, trata-se da parte do trabalho que efetua as maiores mudanças no paciente e que distingue o tratamento analítico de qualquer tipo de tratamento por sugestão. (FREUD, 1914: 171)


Algumas outras teorias e grandes romances literários apontam o amor como solução para o sofrimento do sujeito. Este amor não cura, porque o sujeito já o teve e adoece por ele já que este vem do recalque originário. Então na tentativa de cura proposta, o sujeito ama repetindo este amor primórdio, tendo como grande mecanismo de repetição, a pulsão. O amor não nos retira da roda do tempo para nos remeter a um lugar nirvânico de plenitude e gozo, ele nos mantém no interminável das repetições. (GARCIA-ROZA, 1990: 9)

Este conceito de repetição foi retomado por Freud nos artigos O Estranho de 1919 e em Além do Princípio do Prazer de 1920.

  É a repetição que vai servir de fundamento para explicação da pulsão de morte, algo mais primitivo, mais elementar e pulsional que o princípio do prazer e que se expressa pela compulsão à repetição. A repetição é característica própria da pulsão. (GARCIA-ROZA, 1986: 25)

 

O psicanalista francês Jacques Lacan, no seu Seminário de 1964, aborda o tema da repetição afirmando que na medida em que se forma um pensamento adequado, este deve ter como objetivo evitar reencontrar tudo como se fosse a mesma coisa. Ele pontua que toda teoria da repetição na obra de Freud diz respeito ao encontro do pensamento com o real e explica que repetir não é reproduzir. A repetição aparece primeiro numa forma que não é clara, que não é espontânea, como uma reprodução, ou uma presentificação, em ato. (LACAN, 1964: 52)

Além dessa diferença, LACAN (1964) também cita que a repetição não pode ser confundida com o retorno dos signos, como uma reprodução ou um modo de conduta ou rememoração.

  A repetição é algo que, em sua verdadeira natureza, está sempre velado na análise, por causa da identificação da repetição com a transferência na conceitualização dos analistas. Ora, é mesmo este o ponto a que se deve dar distinção... o que se repete, com efeito, é sempre algo que se produz – a expressão nos diz bastante sua relação com a tiquê – como por acaso. (LACAN, 1964: 56)

 

Observa-se que esta repetição, trazida desta forma pela Psicanálise, muitas vezes possui um disfarce que se utiliza máscaras. GARCIA-ROZA (1986) aponta para uma repetição que é interminável e grande aliada ao conceito freudiano de pulsão de morte. E como vivemos mergulhados num mundo social, cercado de regras das quais nenhuma privilegia o desejo, a saída para a repetição é utilizar-se de máscaras. A repetição é o acting out pelo qual a pulsão aparece e, ao mesmo tempo, está entre linhas.

  A sexualidade humana é, essencialmente, disfarce. Isto quer dizer que a repetição não é representação, a máscara não representa um objeto, ela significa algo... a repetição em sua essência, é de natureza simbólica. (GARCIA-ROZA, 1986: 51)

 

Mundo social... A moda nos dias atuais, depois de todo o avanço cultural-tecnológico, é seguir modelos mais do que nunca. Então, a Psicanálise há quase um século atrás, já afirmava que as pessoas repetem, mas não sabem que estão repetindo. Nenhuma outra afirmação é melhor do que esta para o que está acontecendo hoje.

Andamos pelas ruas e vemos todos usando praticamente as mesmas roupas, falando as mesmas gírias (de preferência, aquelas da última novela das oito) e o que é "diferente" é totalmente isolado e repulsivo. Não há espaço para o desejo, o grande negócio é repetir. É evidente: quem está disposto a se haver com seu desejo, num processo que angustia e tem seus efeitos reconhecidos em longo prazo? Como se faz isto em nossa cultura imediatista, egoísta e alienante?

Não cabe neste espaço discutir qual o melhor caminho, mas, é importante salientar que o sujeito só poderá viver a partir de seu desejo, mesmo este sendo satisfeito apenas com a morte. E viver este desejo só será possível ao sujeito se não houver mais a repetição.

Se a repetição não parece dessa forma explícita, ela, portanto está naqueles discursos que desqualificam o desejo já citados anteriormente: o destino, o acaso, Deus, sorte, mal-olhado, dentre outros. Mais adiante discutiremos especificamente a relação deste conceito trazido pela Psicanálise em analogia a obra de Friedrich Nietzsche – O Eterno Retorno (1881).

CAPÍTULO II – O ETERNO RETORNO

Este é o título de uma obra específica do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, escrita de 1881 a 1888. O objetivo desta parte do trabalho é de apontar uma analogia sobre este eterno retorno, que faz ressonância no conceito de repetição trazido anteriormente pela Psicanálise.

Devido à extensão desta obra de Nietzsche e pela própria extensão deste artigo, usaremos como referência os resumos dos artigos 1, 2, e 7 de 1881.

Vimos na primeira parte deste trabalho que para alguma coisa ganhar um sentido real, ela deverá ter sido repetida para ser considerada. Com a Psicanálise, vimos o desgaste psíquico que isso causa, além das explicações das reações e das alternativas para o trabalho analítico.

O texto nietzschiano corrobora neste ponto com a Psicanálise. Para Nietzsche, a medida de força total (ações) é determinada e não infinita. Com isso as situações, alterações, combinações e desenvolvimentos dessa força são "imensuráveis", mas ainda sim determinada. De acordo com o filósofo, o tempo é que se apresenta como infinito. O tempo torna esta força eternamente ativa e eternamente igual:

  Até esse instante já transcorreu uma infinidade, isto é, é necessário que todos os desenvolvimentos possíveis já tenham estado aí. Conseqüentemente, o desenvolvimento deste instante tem de ser uma repetição, e também o que o gerou e o que nasce dele, e assim por diante, para frente e para trás. (NIETZSCHE, 1983: 387)

 

O que o autor nos diz nesta passagem é que tudo o que acontece já aconteceu anteriormente, devido ao retorno das situações globais dessa força. Se esta situação global se constitui de uma nova forma, diferenciando-se de outra; esta linha de raciocínio nos levaria a pensar em uma gênese igual. Exclui-se com isso todas as alterações ocorridas e impossibilitando a criação de algo novo. Fato que o filósofo considera impossível de se admitir.

Nietzsche já apontava o mal estar em relação a esta questão do retorno dessa força. Ele afirma que esta força não precisa tornar-se "infinitamente grande", pois ela é constantemente igual.

  ... ela é eternamente ativa, mas não pode mais criar infinitos casos, tem de se repetir: essa é minha conclusão. Se todas as possibilidades na ordem e relação das forças já não estivessem esgotadas, não teria passado ainda uma infinidade. Justamente porque isto tem de ser, não há mais nenhuma possibilidade nova e é necessário que tudo já tenha estado aí, inúmeras vezes. (NIETZSCHE, 1983: 387)

 

Voltando à parte anterior, observamos que esta passagem da obra de Nietzsche é bastante pertinente àquilo que a Psicanálise nos diz. As pessoas repetem seus modelos originais na tentativa de satisfazer seus desejos. A idéia de que nada em nossas atitudes parte de algo novo é "imensurável" para o aparelho psíquico.

Até mesmo se pensarmos na construção freudiana da sexualidade sendo colocada por ele como fantasmagórica; ela só se apresenta desta forma porque repete um modelo adulto em uma criança. Daí talvez o grande terror que é a questão da sexualidade para todos os indivíduos e para a sociedade – a repetição (apesar de que sob o ponto de vista cronológico, Freud ainda não havia escrito sobre a repetição na mesma época em que formalizou a dimensão infantil e fantasmática de realidade – entre 1900 e 1910).

Percebemos uma grande influência grega em Nietzsche, por tratar deste repetição como aquilo nos resguarda do caos, no sentido que o mundo só é tratado como sendo real se seus modelos forem se repetindo através dos tempos; obtendo valores dogmáticos.

CAPÍTULO III – A ILHA DESCONHECIDA OU A ILHA DO DESEJO

A Ilha Desconhecida

No capítulo anterior, abordamos o tema da repetição naquilo que envolve a Psicanálise. Foi feito um percurso histórico a respeito do tema, inclusive no que tange a outras ciências e a Filosofia.

O objetivo deste capítulo é de realizar um estudo sobre a obra de José Saramago chamada O Conto da Ilha Desconhecida, de 1998. Uma obra riquíssima que nos remete aos períodos de colonização portuguesa, da monarquia, da tirania que literalmente reinava naqueles tempos. Denota também um estado de alienação de uma sociedade frente ao diferenciado, que neste caso é a ilha e o desejo de um homem de chegar nela sendo tratado com repugnação e descaso.

O livro se inicia com um homem procurando o palácio do rei e lá faz o seu pedido à porta deste local. Portas que no reinado eram muitas, mas, com a insistência deste bater é que o pedido fazia seu percurso: o 1º Secretário ouvia o barulho causado pela aldabra de bronze e chama o 2º Secretário. Este chama o 3º que se põe a solicitar o 1º Ajudante. Daí para o 2º... até chegar na mulher da limpeza. Foi assim que aconteceu com o homem que batia à porta.

Indagado sobre o que queria, o homem logo respondeu que queria falar com o rei e instalou-se no canto da porta, à espera. A mulher da limpeza começou todo o caminho inverso da petição, mesmo tendo alertado ao homem que o rei não poderia vir. Como o homem já demonstrava sinais de que só iria sair daquele local quando fosse atendido, a solicitação retornou ao 1º Secretário.

Pela pragmática dessas portas, o rei jamais iria se expor a um pedido de uma pessoa que iria lhe trazer lamúrias e fazer perder o precioso tempo real que era destinado ao descanso e a contemplação dos obséquios. Passam-se três dias e o rei já preocupado com o mal estar social causado pelos curiosos que ali estavam, resolve atender o homem.

E o rei reapareceu à porta numa situação que nunca ocorrera antes causando um espanto geral ou surpresa desmedida como o autor utiliza. O rei mandou abrir toda a porta, a mesma que parecia intransponível. O homem não se surpreendeu com a presença do rei como se tivesse certeza de que seria atendido. O rei curioso e perturbado com a situação foi logo se dirigindo ao homem fazendo-lhe três perguntas seguidas e ferrenhas: Que é que queres? Por que não disseste logo o que querias? Pensarás tu que eu não tenho mais nada que fazer? (SARAMAGO, 1998: 15) O homem respondeu só a primeira dizendo que queria um barco. O rei estava, a partir deste momento, assombrado com aquilo que ouvira. Não que fosse um pedido impossível, mas por tal audácia e convicção com que foi respondido. Fica evidente então que o rei perguntaria o motivo de tal atitude.

O homem disse ao rei que queria um barco para ir à ilha desconhecida. O rei segurando o riso e imaginando que estava diante de uma pessoa com perturbações mentais, já retrucou afirmando com uma certeza cristalizada que não havia mais ilhas desconhecidas.

  ... Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é esta que queres ir à procura, Se eu to pudesse dizer, então não seria desconhecida, A quem ouviste tu falar dela, perguntou o rei, agora mais sério, A ninguém, Nesse caso, por que teimas em dizer que ela existe, Simplesmente porque é impossível que não exista uma ilha desconhecida. (SARAMAGO, 1998: 17)

 

Uma discussão prolongada se inicia a partir deste momento com o homem: quem é o rei, o que é o rei com seus barcos e o que são os barcos sem o rei? A discussão é interrompida quando o homem reafirma que quer apenas o barco, nada mais que isso. É reiniciada quando há a indagação de quem seria o dono da ilha, caso o homem a descobrisse. E ele afirma ao rei que só são deles as ilhas que estão nos mapas.

Preocupado com a ansiedade que a história estava causando nas pessoas pedintes que se aglomeraram e manifestavam em favor do homem, o rei decreta que o homem iria receber seu barco, diante da confusão estabelecida. O rei afirma que dará o barco, deixando sob sua responsabilidade a tripulação. O monarquista deu ao homem um cartão assinado em que deveria entregá-lo ao responsável pelas embarcações nas docas. Ele pôs-se a agradecer o rei e imediatamente retirou-se das escadarias dando espaço aos outros pedintes.

A aldabra de bronze da porta bateu novamente assim que se fechou, só que desta vez a mulher da limpeza não apareceu para atendê-la. Tinha saído atrás do homem, decidindo abrir mão de seu trabalho no palácio, seduzida por esta tal ilha desconhecida. O homem que estava a demonstrar sua preocupação com a tripulação, mal sabia que já tinha no seu encalço a mulher da limpeza.

  ... O homem nem sonha que, não tendo ainda sequer começado a recrutar os tripulantes, já leva atrás de si a futura encarregada das baldeações e outros asseios, também é deste modo que o destino costuma comportar-se connosco, já está mesmo atrás de nós, já estendeu a mão para tocar-nos o ombro, e nós ainda vamos a murmurar, Acabou-se, não há mais que ver, é tudo igual. (SARAMAGO, 1998: 24)

 

Chegando ao porto, o homem entrega ao capitão o cartão dado pelo rei que trazia a solicitação de dar um barco que navegue bem e seja seguro. O capitão pergunta a ele se sabia navegar sendo respondido que o que haveria de ser aprendido seria no mar. Foi desaconselhado pelo capitão que passava a indagar o motivo de tal solicitação do homem. Motivo respondido, mesmo questionamento: não existem ilhas desconhecidas.

Nesta passagem, o homem retorna o questionamento ao capitão dizendo que se admirava de um capitão fazer tal afirmação sendo que esta seria a função dele, ou seja, ele é que devia procurar ilhas. O capitão escolheu então o barco que iria levar o homem à ilha desconhecida. O fato curioso que acontece nesta passagem é a euforia da mulher da limpeza que gritou que era o seu barco quando o capitão o designou. Era justamente o barco que ela havia mais gostado, espontaneamente.

O homem diante de tal fato pôs-se a recordar que era aquela mulher da limpeza do palácio do rei que reivindicava o direito de ir com ele até a ilha desconhecida.

Observando e confirmando a decisão que a mulher havia tomado, solicitou-a que examinasse aquela espécie de caravela que lhe fora concedida. Entregue a chave do barco pelo capitão, a mulher da limpeza responsabilizou-se das primeiras tarefas e o homem partiu em busca de sua tripulação.

A mulher da limpeza então foi começar a preparação daquilo que seria o transporte para a ilha desconhecida. Tirou os ninhos de gaivota que se encontravam no barco (o que gerou uma intensa batalha com as gaivotas), abriu o paiol das velas e começou a costurá-las e preocupou-se com o que iria servir ao homem quando voltasse de sua busca pela tripulação.

Mais tarde, o homem apareceu no extremo do cais carregando um embrulho, cabisbaixo e sozinho. O embrulho era a comida para os dois e dizia que não conseguiu trazer ninguém para ir com eles à ilha desconhecida.

  ... Não veio nenhum, como podes ver, Mas deixaste-os apalavrados, ao menos, tornou ela a perguntar, Disseram-me que já não há mais ilhas desconhecidas, e que, mesmo que as houvesse, não iria eles tirar-se do sossego de seus lares a da boa vida dos barcos de carreira para se meterem em aventuras oceânicas, à procura de um impossível, como se ainda estivéssemos no tempo do mar tenebroso... (SARAMAGO, 1998: 39)

 

O homem se recusava a falar com as pessoas sobre uma ilha que nem ele conhecia, mas tinha certeza de que ela existia tanto quanto a certeza de que o mar é tenebroso. Ele inclusive rejeita a opção oferecida pela mulher da limpeza de morar ali, afirmando que teria que chegar à ilha desconhecida porque lá quer saber quem é. ...Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa. (SARAMAGO, 1998: 41)

Passado este diálogo, o homem volta seus olhos para a embarcação que acabara de conseguir. Ela estava arrumada pela mulher da limpeza, que inclusive indicou alguns detalhes que ainda precisavam ser acertados, no que tange ao aspecto físico e prático da caravela (barco). O homem admirado olha, repara e diz que é bonita; mas que se não conseguisse arrumar tripulantes teria que devolvê-la ao rei. Imediatamente é retrucado pela mulher que propõe um tempo para esta tentativa. Concretizada ou não, eles decidiram que iriam se lançar em busca da ilha desconhecida. Apesar do risco, esqueceram do assunto e puseram-se a comer o que o homem havia trazido.

Pão, queijo duro e de cabra, azeitonas e uma garrafa de vinho. Esta era a refeição que seria feita sob a luz do luar, reluzente no mar. Durante este evento, repararam ainda mais na caravela que era dos dois ou do homem apenas. E começaram a planejar quando e como sairiam para aquela que seria a mais incrível viagem de suas vidas.

De repente, a luz do luar refletiu diretamente no rosto da mulher (onde no próprio texto, pela primeira vez a mulher da limpeza foi tratada como mulher). A beleza agora já não era mais da caravela. Acabou-se o jantar e veio o sono do dia estafante. Até amanhã, foi a despedida utilizada por ambos, inicialmente.

Mas a mulher voltou, pois esquecera de tirar o avental e de buscar velas para iluminar o local onde iria dormir, a poucos metros do homem. E foi ele quem acendeu a vela e novamente a luz foi ao encontro do belo rosto da mulher. O homem vê-se perturbado por um desejo comum aos homens quando estão sozinhos com uma mulher. Automaticamente os refutou, já que só tinha olhos para a ilha desconhecida. A despedida acontece mais uma vez: a mulher disse para ele dormir bem e ele desejou a ela bons sonhos. Imaginando sobre a situação e o seu desejo diante da mulher, foi-se o homem dormir e logo começou a sonhar.

O sonho basicamente era assim: este homem que pediu o barco ao rei agora estava no seu comando, em alto mar. Atrás do leme, deparou-se com a tripulação que foi buscar e que agora estava no barco o auxiliando. Observava também vários animais, frutas e vegetais; um grupo de mulheres as quais eram cortejadas pelos rapazes faziam-se ali presentes também. Porém, o homem não via a mulher da limpeza. Pensou que ela não estaria lá pelo fato de apenas querer a ilha desconhecida.

Enfim, o homem mal acreditava naquilo que estava acontecendo, mas evidente, estava sonhando. Ele então a avista: é ela, a ilha desconhecida. Foi informado que aquela era uma ilha que constava no mapa e pressionado pela tripulação, não teve outra alternativa a não ser a desembarcar nas docas daquela ilha. Relutou em descer do barco, queria muito a ilha desconhecida. Depois de um tempo, desceu do barco e deparou-se com sua própria sombra. E acordou...

Acordou abraçado a mulher, confundidos os corpos e as beliches. O sol nasceu e os dois puseram-se a pintar na proa do barco o nome da caravela. Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma. (SARAMAGO, 1998: 62)

Esta foi uma resenha da bela obra de José Saramago. Rica e poderosa nas palavras, sábia e perspicaz de sentidos.

A Ilha do Desejo

Diante desta obra e dos assuntos abordados no primeiro capítulo, torna-se prudente uma junção, mesmo a Psicanálise e a Literatura sendo dois mundos tão distantes e ao mesmo tempo tão próximos.

Vimos no 1º capítulo, que é com o abandono da repetição que é possível se chegar ao desejo. Apenas com esse fragmento, a ilha desconhecida torna-se a ilha do desejo. O pedido do homem ao rei, descrito por Saramago, nada mais é do que um pedido para ir ao encontro do desejo, livre da repetição.

Mesmo ganhando o barco, o homem foi questionado várias vezes sobre o fato de não haver ilhas desconhecidas. Evidente, não existe um local onde não haja a repetição. Tudo que é repetido está catalogado no mapa, assim como as ilhas e os modelos gregos citados anteriormente. E também não há ninguém que queira ir em busca da ilha desconhecida (ilha do desejo). Para que sair da terra firme, da terra das repetições, para lançar-se numa aventura que ninguém sabia se existia? Mas o homem desafiou tudo isso, pois sabia do seu desejo e lutou mesmo diante das adversidades que teve; como a de não ter esta tripulação, contar com um barco velho que mais parecia uma caravela e com a descrença de todos a não ser da mulher da limpeza.

O motivo pelo qual a mulher da limpeza seguiu o homem pode ser designado por uma tentativa de não repetir, descrita na obra. A busca da ilha desconhecida era algo de novo para ela. E o desejo aí foi mais forte.

Desiludido ficou o homem, pois não arrumou tripulação. O questionamento surge outra vez: quem é capaz de "pagar o preço" por deixar de repetir e com isso ir em busca do desejo? Naquela situação e na de todos nós, atualmente são poucos. Porém, isso não foi suficiente para desviá-lo do seu objetivo.

Durante a obra, percebemos que na busca de ir à ilha desconhecida, o homem chegou a realização de um desejo. Primeiro sonhou. Para a Psicanálise são nos sonhos que o desejo é satisfeito. E ele foi mesmo: não o de chegar na ilha desconhecida, mas o de buscar si mesmo. Numa forma mais clara de abordar isso, podemos dizer que o desejo do homem era a ilha desconhecida, mas ele foi realizado quando ele viu sua própria sombra no sonho.

Com isso, ele acordou e se viu agarrado à mulher ao amanhecer. Juntos eles dão nome ao barco de Ilha Desconhecida e lançam-se ao mar. Era a Ilha Desconhecida em busca de si mesma. Conclui-se nesta passagem que o desejo nunca é satisfeito, mas apenas pelo fato de sabermos dele porque não repetimos mais e, além disso, de movimentar-se em busca desta satisfação; realizamos vários desejos nestas veredas.

O próprio livro deixa nas entrelinhas este questionamento. Nele, não há informações de que eles chegaram ou chegarão à ilha desconhecida. Mas foram em busca dela, ou seja, em busca de si mesmos. Isto se deve porque ambos não quiseram mais repetir, queriam algo realmente novo. Sabiam das dificuldades, mas também do mais importante: sabiam dos seus desejos.

Se existem ou não ilhas desconhecidas, é no percurso é que se dá nossa vida. Basta a resolução de que podemos ir ou ficar e repetir. Não existe o que é melhor ou pior, o que é certo ou errado; existe o saber sobre o desejo e o não saber do desejo. Daí cabe a cada um diante do sofrimento psíquico, das neuroses e dos sintomas num processo analítico, vir a trabalhar seu desejo e aí sim buscá-lo. Nesta busca, se dá a vida do sujeito.

Faremos, agora, as considerações finais a respeito deste trabalho, relacionando a obra de José Saramago e os conceitos psicanalíticos e filosóficos aqui estudados.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Todos nós vivemos em um local bastante conhecido até em seus mínimos detalhes. Somos criados para sermos educados, gentis, éticos desde quando estávamos na nossa formação familiar (lei). Estamos todos em um mesmo parâmetro, em busca da felicidade. Percebemos aí um discurso no mínimo, utópico.

A vida de uma pessoa adulta normal (neurótica), em sua grande maioria é mais ou menos assim: procura-se uma formação profissional, começa-se a trabalhar, casa-se, procria-se, envelhece-se e morre-se. Parece ruim, mas tem o lado bom da história: os domingos são com os olhos colados nas últimas da televisão, de vez em quando um "jantarzinho" fora com o companheiro (a), existem as viagens com a família nas férias, uma ou duas vezes por semana "fazer um amor", uma vez por mês também tem um cinema ou um teatro para ir, um carro, uma casa, um apartamento na praia (para poucos) e um salário no final do mês, que é fruto do trabalho.

Para algumas pessoas isso está bom demais, não há a necessidade de mais nada. Para quê? E se der algo errado na busca desse ícone de felicidade alienante e repetitivo, as desculpas já estão prontas: "foi Deus que quis assim", "foi um azar danado", "pode ter sido um mal-olhado", "faltou sorte para mim", dentre outras. Além de não irmos ao encontro das ilhas desconhecidas, ou seja, ao encontro de nossos desejos; ainda atribuímos às coisas que estão além da ciência e de qualquer ser humano, o sentido para aquilo que está ocorrendo em nossas vidas, ou seja, atribuímos sentido para o mal estar da civilização.

O problema é que isso chegou ao extremo em nossa sociedade. E parece que algumas pessoas estão deixando de ser cegas para abrir os olhos para o desejo. O romancista português José Saramago já afirma em Ensaio sobre a Cegueira (1995), que a maré branca se espalha apenas com o contato. Começamos a imaginar uma sociedade caótica e massacrante.

  Mas esta cegueira é tão anormal, tão fora do que a ciência conhece, que não poderá durar para sempre, E se fôssemos ficar assim para o resto da vida, Nós, Toda a gente, Seria horrível, um mundo todo de cegos, Não quero nem imaginar. (SARAMAGO, 1995: 59) 

 

A religião surge como um dos grandes artifícios para nos afastarmos da idéia de saber de nossos desejos, por justamente pregar um discurso comum e de massa. E em qualquer uma existe um ideal de felicidade, paz e purificação.

  A religião restringe esse jogo de escolha e adaptação, desde que impõe igualdade a todos o seu próprio caminho para a aquisição da felicidade e da proteção contra o sofrimento. Sua técnica consiste em depreciar o valor da vida e deformar o quadro do mundo real de maneira delirante – maneira que pressupõe uma intimidação da inteligência. (FREUD, 1929: 104)

 

Não queremos aplicar neste trabalho uma leitura ateia. Apenas ressaltar que a partir dos lançamentos ao mar em busca das ilhas desconhecidas, ou seja, com o saber dos nossos desejos, ficamos distantes de atribuir a fatores que fogem à realidade do sujeito a responsabilidade do que ocorre no cotidiano disto ao que damos o nome de vida. É evidente que é dado a cada um de nós a liberdade para escolher uma religiosidade ou uma crença.

  Deus é uma conjectura; mas eu quero que a vossa conjectura se circunscreva ao imaginável. Poderíeis imaginar um Deus? Signifique para vós a vontade de verdade; que tudo se transforme no que o homem pode pensar; ver e sentir! Deveis cuidar até o último os vossos próprios sentidos! E o que chamáveis mundo deve ser criado já por vós; a vossa razão, a vossa imagem, a vossa vontade, o vosso amor devem tornar-se o vosso próprio mundo. E, verdadeiramente, será para ventura vossa! (NIETZSCHE, 2002: 75) 

 

Esta vontade de verdade, o próprio amor e o próprio mundo, trazidos aqui por Nietzsche, dizem única e exclusivamente ao desejo. E para se chegar ao desejo, é preciso que o sujeito venha redirecioná-lo em sua vida, processo que realmente causa angústia, faz sofrer; mas é o caminho mais próximo da verdade desse sujeito, pela complexidade da definição do que é ser homem e mais do que isso, ser um homem que deseja.

Ele se apresenta dessa forma, pois se remete ao terror da castração, às vicissitudes da pulsão. A repetição não atua dessa forma: ela apenas tenta reinscrever um tipo de prazer primário (pulsão sexual) nas ações que tomamos, por meio dos signos.

  O que sem dúvida é marcado pela repetição é Eros, a pulsão sexual. Assim como nosso primeiro encontro amoroso é já uma repetição, repetição de encontros que não foram vividos por nós, os demais encontros também são repetições. O sexual é o que se repete, nos diz Freud. (GARCIA-ROZA, 1986: 51)

 

E a oferta oferecida pela Psicanálise não dá a garantia de satisfação total dos desejos livres da repetição. O trabalho consiste em elucidar este desejo, sublimando estas repetições e decantando o material do inconsciente. Não há como nos livrarmos deste, ou seja, sempre vamos produzir sintomas e outros mecanismos de manifestações do inconsciente. Sempre vamos sofrer em determinadas situações, vamos "travar" em alguns lugares desconhecidos.

  O homem é a corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar; perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar. (NIETZSCHE, 2002: 27)

 

A Psicanálise aplicada em seu manejo transferencial (citado anteriormente), propicia ao sujeito que ele mesmo venha a se encontrar com seu desejo, tirando-o do contexto interminável das repetições. Esta é a tentativa de todo o trabalho proposto por Freud e que ele mesmo realizou.

Em sua obra, muitas vezes nos deparamos com suas mudanças de paradigmas na Psicanálise (1ª e 2ª tópicas, interrupção do tratamento via hipnose e posteriormente sonho, construção de novas hipóteses, dentre outras). Mesmo assim, a Psicanálise continuou seu caminho.

Até mesmo na vida pessoal de Freud, é difícil imaginarmos uma pessoa que teve um câncer diagnosticado em 1923 e ainda ter vivido 16 (dezesseis) anos após esse fato, concluindo sua brilhante obra científica, naquela época. Isso nos leva a crer que talvez aquele que mais escreveu sobre repetição, pouco repetia.

O objetivo deste artigo foi apenas fazer um alerta a alguns fatores cotidianos caracterizados na Psicanálise e na Filosofia aqui trabalhados. De maneira alguma, levantamos soluções mágicas diante da repetição em massa de nossa sociedade contemporânea.

Gostaria de ressaltar, finalmente, que aquilo que o sujeito faz de sua vida está diretamente ligado ao quanto ele repete e ao quanto ele sabe do seu desejo. Cabe a cada um buscar esta sabedoria em busca de si mesmo e de seu desejo.

  Sim, homem sublime: um dia serás belo e apresentarás ao espelho sua própria beleza. Então estremecerá sua alma com desejos divinos, e na tua vaidade haverá adoração! Porque eis aqui o segredo de tua alma: quando o herói a abandona, então que se aproxima em sonhos o super-herói. (NIETZSCHE, 2002: 99)

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COMMELIN, P. Nova Mitologia Grega e Romana. 1983, 1ª edição. Belo Horizonte: Editora Itatiaia LTDA. 318 p.

FREUD, Sigmund. Recordar, Repertir e Elaborar (1914). Rio de Janeiro: Imago, 1974, p. 161-171. (Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas, vol. XII).

_______________. O Futuro de uma ilusão e O mal estar da civilização (1929). Rio de Janeiro: Imago, 1974. 309 p. (Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas, vol. XXI).

GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Acaso e Repetição em Psicanálise – uma introdução à teoria das pulsões. 1999, 6ª edição, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 128 p.

__________________________. Palavra e Verdade na Filosofia Antiga e na Psicanálise. 1990. Rio de Janeiro: Joger Zahar Editor. 123 p.

LACAN, Jacques. O Seminário: Livro 11 – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. 1990, 4ª edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. p. 23-65

NIETZSCHE, Friedrich W. Assim Falou Zaratustra. 2002. São Paulo: Editora Martin Claret. 254 p.

______________________. Ecce Homo. 2001. São Paulo: Editora Martin Claret. 125 p.

______________________. Obras Incompletas – Coleção Os Pensadores: seleção de textos de Gérard Lebrun; tradução e notas de Rubens Rodrigues Torres Filho; posfácio de Antônio Cândido – 3ª edição. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p: 387 a 397.

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a Cegueira. 1995. 4 ª edição, São Paulo: Companhia das Letras. 310 p.

________________. O Conto da Ilha Desconhecida. 1998. 11ª edição, São Paulo: Companhia das Letras. 62 p.

 

y O autor é Psicólogo, pós-graduando em Temas Filosóficos pela Universidade Federal de Minas Gerais. Trabalha com Psicologia Clínica e Organizacional.
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