ALGUMAS REFLEXÕES A RESPEITO DA VIOLÊNCIA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA
Escrito por Leny Magalhães Mrech
Seg, 05 de Dezembro de 2005 03:00
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ALGUMAS REFLEXÕES A RESPEITO DA VIOLÊNCIA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA*1

 

Leny Magalhães Mrech*2

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer à direção da EBP pelo convite de participar desta mesa.
Irei trabalhar por tentativas, visando refletir a respeito de algo que tem me chamado à atenção que é um psicanalista na cultura, um psicanalista na civilização. No caso, este trabalho parte da minha perspectiva como psicanalista e professora. Os meus encontros e desencontros com as articulações entre a Psicanálise, a Educação e a Cultura.

A palavra “violência” é oriunda da raiz latina violar que classicamente apresenta os seguintes sentidos ofender com violência, transgredir, profanar, exercer violência sobre, forçar, coagir, fazer uma ação impetuosa.
Falar de violência na sociedade atual implica em abarcar todos estes sentidos e aprofundá-los em uma gama ampla, onde o real surpreende sempre pelo ineditismo de uma ação que pode ser cada vez mais violenta.

Há uma violência no mundo atual que se estende ao âmbito das relações com a criança, o adolescente, o adulto e o idoso. Que se estende para a natureza e a fauna. Que atinge o ar e a água. Em qualquer lugar do planeta a violência do ser humano deixa suas marcas.

A UNESCO tem discutido recentemente que acabamos de entrar na era da moeda azul. A água tornou-se a moeda de troca no futuro. Ela norteia a própria vida na terra. Sem ela a vida na terra seria impossível. Há uma violência contra a água e o ar.

Há uma violência contra a fauna e a flora. Há uma infinidade de espécies que estão desaparecendo rapidamente. Nos próximos vinte anos, segundo os antropólogos, espera-se o desaparecimento dos grandes símios, dos tigres asiáticos, das baleias, dos ursos.
Contudo, é ainda em relação aos seres humanos que os problemas ficam mais graves. No século passado vivemos o holocausto. A tentativa de destruição de uma raça. Mas, a violência do ser humano contra o ser humano não parou aí.

O narcisismo das pequenas diferenças revelado por Freud tem aparecido na política a partir de práticas segregatórias e destrutivas. A perseguição dos armênios. O envenamento por gás de populações inteiras em guerras surdas que a mídia descobre no só-depois. Os suicídios maciços atrelados a práticas religiosas. Nos atentados terroristas.

A violência contra a criança, o adolescente, a mulher e o idoso tem sido tão constante que acabaram gerando Estatutos. O Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei 80069, publicado em 13 de Julho de 1990. O Estatuto do Idoso. O aparecimento do dia 25 de Novembro, como o dia internacional da Não-Violência contra as mulheres.

Sequer o lazer escapa. A violência tem aparecido em relação aos desportos e em relação aos animais domésticos. Muitos cães e gatos, após terem sido comprados, tem sido abandonados à própria sorte por seus donos. Há um aumento de animais domésticos mal-tratados na rua.
Constata-se que o circuito da violência não fecha. Ao contrário, ele se amplia em um leque de detalhamentos que espanta pela crueldade.

Estamos em um novo milênio. O terceiro. Um século onde a ilusão de que estas coisas possam ser um produto temporário já não existe mais.
Um véu foi retirado. Não se acredita mais na pureza do ser humano. O que se percebe é que a violência faz parte do ser humano. Algo que não pode mais ser negado e que se apresenta como evidência e como produto das infinitas ações que fazemos no planeta.

A vingança hoje faz parte das ações de boa parte da humanidade. Do pequeno “troco” por causa de alguma ação que o sujeito realizou, até o puro e simples “gelo” que se dá quando as relações são cortadas.
Há dias atrás uma mãe me contava, espantada, que um de seus filhos havia descoberto que o menor estava levando uma faca para a escola. Quando o filho mais velho o contestou, ele disse que ia “furar” um colega que o havia insultado nos dias anteriores.
Nem mesmo o estudo, o saber, garante imunidade. Juízes matam mulheres. Estudantes de direito matam os pais.
Há uma guerra surda nos dias atuais. Uma guerra que abarca a luta dos seres humanos contra seres humanos. Mata-se mais nas ruas do Rio de Janeiro do que na guerra do Iraque.
Os psicanalistas, em seus consultórios, têm sentido os efeitos da violência. Pacientes roubados, sofrendo  o impacto dos mais diferentes crimes.

Uma paciente me dizia há dias que morria de medo quando o seu marido – um juiz saia de casa. Uma angústia neurótica, segundo a terminologia da primeira teoria da angústia em Freud? Na verdade não. O marido já foi ameaçado inúmeras vezes. Há dois anos atrás o seu prédio teve um andar – dois abaixo do seu praticamente explodido – por uma bomba caseira.

Interessa hoje se a angústia frente ao que se vive é real ou não? A meu ver não. O que se vive é um mundo onde os pesadelos têm se tornado mais e mais premonitórios, mais e mais reais. A banda de Möebius se fecha. Não há dentro e nem fora. Nós nos identificamos com a vítima e com o agressor.  
   
O virtual revela que o imaginário e o simbólico dos videogames nos apresentam uma violência crua, com cara de fantasia. Os jogos de vídeogames japoneses  - os nossos contos de fada atuais – estão agora seguindo novos protocolos. Uma tentativa de reduzir o impacto de uma violência que se alastra.
Como a Psicanálise responde a tudo isso? Ela foi a primeira que denunciou, através de Freud, a existência de um Mal – Estar na Civilização. Foi ela que revelou também a pulsão de morte.

Marcel Gauchet nos fala em seu livro O Desencantamento do Mundo que fizemos uma passagem de um mundo onde os seres humanos se pautavam pela Outro da religião, o Outro ocupado por Deus; para um outro momento onde o Outro era o rei e agora estamos em um período onde aparecem os direitos do homem, ou seja, onde o ser humano tenta legislar a respeito dele mesmo.

O gozo emerge nos dias atuais como um fator político, como revela Zîzek.(1998) Existem políticas direcionadas ao gozo. Elas vão desde a implementação do ódio contra o Outro, como as propostas de Busch. Até o aumento dos grupos unificados por traços identificatórios.

Passamos de uma vertente dos sintomas ao sinthome como revela Lacan. De um olhar que procurava curar os sintomas passamos para algo que é muito mais sério. O nosso contínuo funcionamento disfuncional. O que se apresenta como algo da ordem do incurável no ser humano. Não é mais possível olhar de maneira ingênua para aquilo que fazemos. A concepção causalista revelou os seus furos. O nosso circuito é muito mais complicado do que imaginávamos anteriormente.
Há um encontro com o real que continuamente revela a nossa falha. Há algo que escapa o real. Perante ele não temos respostas. Mas, será que não temos ações?

O último ensino de Lacan revela a importância de nós nos responsabilizarmos por aquilo que fazemos. De nós nos responsabilizarmos por nossas modalidades de gozo.

A violência é uma delas. A violência das palavras, a violência das ações, a violência da intencionalidade na tentativa de deliberadamente se destruir o Outro. Do “ Foi sem querer querendo”.
O véu foi arrancado. Não dá mais para enganar. O ser humano não é bonzinho. Há uma intencionalidade que não pode mais ser negada.
Mas, isto quer dizer que o nosso caminho é moral? Ou seja, vamos todos nos orientar pela moralidade clássica?

Na verdade, vivemos algo muito mais complexo. Desvelou-se o que ficava implícito ao longo dos séculos: a nossa natureza destrutiva. Vivemos um século onde a ingenuidade não existe mais.
Com isto nós pagamos um preço: Não dá mais para encobrir que a violência não existe, que ela se encontra localizada em pequenos guetos. Hitler revelou que quando o ser humano esconde nos campos de concentração os seres humanos, algo ruim vai sair daí.

O preço da liberdade é a eterna vigilância? Será? Lacan, com o seu último ensino trouxe a importância da implicação maior. Nós somos responsáveis por nossas modalidades de gozo. Não é possível mais fazer de conta que elas não dependam daquilo que nós desejamos.
De uma ética das intencionalidades, como coloca Lacan, passamos para uma ética das conseqüências. Forbes insiste, a partir das colocações de Lacan: “ Você quer o que você deseja?”.
Há algo que nos leva a ir “Sem lenço e sem documento”, como diz Caetano Veloso nesse novo século. Saímos de um mundo de construções para um outro de interrogações.
A partir de agora irei abordar a temática da Violência em um campo onde ela tem se transformado drasticamente: a escola.

No passado, a escola era um lugar a parte. Como a igreja, sabia-se que a ali a violência não iria imperar. Uma inverdade porque a violência sempre existiu enquanto um conteúdo latente. O Ateneu revela as múltiplas formas sutis que ela poderia tomar nas relações entre alunos, professores e direção. Uma violência sancionada pela autoridade. Aquela do homem enquanto uma figura de autoridade. O professor enquanto uma figura de autoridade. O discurso do mestre ali operava magnificamente.
Ocorre que, no mundo atual, com os imperativos introduzidos pelo discurso da ciência, o modelo do pai orientado não opera mais. As relações saíram de um modelo hierárquico, para um outro pautado na horizontalidade de relações.

O aluno no mundo atual não quer mais um mestre à moda antiga. Um mestre detentor do saber. O saber se deslocou de lugar. O saber passou a se constituir em um produto de mercado: o mercado de saber. As mídias eletrônicas e televisivas são o produto mais estruturado e articulado deste circuito.
Com isso, o professor como figura transmissora do saber não existe mais. Ele tornou-se uma outra coisa. O quê? É algo para investigar.

Em uma edição recente dos textos de Lacan – O TRIUNFO DA RELIGIÃO – Discurso aos católicos – ressalta-se que o ensino é da ordem do real, seus efeitos são imprevisíveis. Ou seja, há algo nas escolas além da transmissão do passado – dos ideais, dos valores. Algo que se encontra pautado no circuito do real.

A escola atual não é mais aquela onde os alunos ficam bonzinhos, quietinhos, atentos a aquilo que o mestre apresenta. Discurso do mestre tradicional.
A escola atual é aquela onde os alunos não consideram mais o mestre sequer como transmissor da cultura. A velha história da tachinha para o mestre que se odeia se transformou agora em situações de uma violência que ultrapassa o plano do simbólico e do imaginário.

Professores tem sido mortos pelos efeitos das suas ações. Pode-se perguntar em que local? No exterior? Colombine manda lembranças. Mas, precisamente aqui em São Paulo na rede pública. Sabe-se de casos onde professores foram mortos e outros feridos pelos alunos.
Mas, a questão da violência não para aí. Há uma intensa destruição do patrimônio público. Escola são destruídas em função da fúria dos alunos. Fazendo com que a quebra de carteiras e material escolhar seja sempre algo a ser computado, considerado continuamente pela direção.
Sem falar nas grades que se encontram como uma presença marcante nas escolas. Grades para proteger aqueles que estão dentro dos ataques de fora. Mas, que não protegem os participantes da escola do ataque dos próprios colegas.

O relato da mãe que encontrou uma faca na mochila do filho não é tão discrepante assim. Faz parte de uma geração onde a droga é uma prática constante.
Uma mãe me dizia em contato em um projeto que eu supervisionava: “ Não creio que haja escapatória para os meus filhos. Dois já foram levados pelo tráfico. Agora o meu menor já começou a ser chamado pelos traficantes da favela.Não sei mais o que fazer!”

Não há nada o que fazer? Na verdade, não creio nisso. De longa data venho percebendo que estamos frente a uma grande virada histórica. Lipovetsky tem assinalado que há algo além da pós-modernidade. Em tempos hipermodernos, além dos objetos, há a importância das relações, dos laços sociais.
Aliás, ele revela em O Império do Efêmero que quanto mais a sociedade capitalista avança, mas se revela a incompletude trazida pelas latusas, pelos gadgets produzidos pela sociedade atual.

Forbes tem trabalhado este processo enfatizando que estamos frente a uma mudança de software. Passamos de uma vertente pai orientada para um mundo das relações horizontais.

A escola tem passado por essa reformulação. Em nosso Núcleo de Pesquisa do IPLA e da Faculdade de Educação da USP, o que temos identificado é que o mundo contemporâneo exige a implantação de novas relações nas escolas. O aluno violento se encontra perdido, mas a importância do laço social emerge de uma  maneira  tão ou mais incisiva do que antes.

Os laços dos alunos violentos se apresentam como laços identificatórios. Freud revela em A identificação que ela atua de uma maneira onde o sujeito copia algo, onde o sujeito copia as ações do Outro.
O menino da faca na mala tem uma longa história identificatória. O seu pai batia em todos os filhos. Ele era conhecido como o terror da comunidade. Contudo, recentemente ele faleceu. A sua família passou, então, a ser assediada pelos vizinhos. Sua mãe e irmãos passaram a ser ameaçados.

O menino disse que ele assumiria o lugar do pai. Ele imporia o medo a todos os demais. Enquanto repetição, esta é uma ação de pouquíssimo efeito. Todos começaram a se afastar do menino e da família.
Coube, então, à escola introduzir novos laços. Laços que possam dar um outro caminho de vida a este jovem. Uma vida que sai do circuito da repetição familiar. Uma vida que revele a repetição do novo, como diz Jacques Lacan.
Reprimir este jovem, colocando-o de castigo, seria a resposta clássica da escola. Porém, como fazer com que ele acesse a um outro patamar de vida, a um circuito de criação? A Psicanálise nos leva a uma aposta no sujeito. A uma aposta de vida.
Não porque a violência é um parâmetro moral errado e tem que ser substituído. Mas, porque a violência revela um emperramento do processo de criação do sujeito.
Freud nos ensinou que o prazer não é um bem soberano. Aliás, o bem soberano não será nunca representado, como revela Lacan, no texto discurso aos católicos. A noção da culpa nos introduz o sujeito frente ao Outro, o sujeito frente à falta.
Através do circuito identificatório esta criança assume algo que é bastante complicado. Ele é o pai. Com isso, não é preciso simbolizar a ausência da morte, a sua morte. Afinal, o pai continua vivo. Mais vivo do que nunca como o Pai Morto.

Uma maneira de se fazer um pai. O mesmo pai que poderia ter deixado que ele dormisse, mas chamou-o para ir com ele, levando-o à cena de um acidente gravíssimo que quase lhe custou à vida.
Em um mundo que não é mais pai orientado, como revela Forbes, os significantes mestres estão todos soltos aí. Mas, eles não operam. Falta um laço social para que uma amarra se faça, para que algo se estruture. Não em função da hierarquia, mas na direção do desejo. Do desejo do menino de se fazer um pai. Um desejo que pode ter conseqüências em tecer um outro caminho para ele.

No texto dos discursos aos católicos Lacan comenta que a Educação tradicionalmente se pauta por um modelo de construção dos homens. No mundo atual, isto não é mais possível. Não dá para saber que tipo de ser humano será necessário no futuro. Não se tem mais um modelo a seguir.
No entanto, com Lacan, concordo que há um mínimo do mínimo que os educadores possam dar. Aquele referente à uma tentativa de lidar com o gozo. Um caminho que foi sempre abordado em um circuito repressivo. Como se a escola devesse reprimir o sujeito.
Miller revela em A Experiência do real que a repressão é apenas uma pequena face do circuito de defesa do sujeito. Cabe ao psicanalista perturbar a defesa.

Um caminho que não vejo ser tão distinto assim da escola contemporânea. Onde os professores podem atuar diz respeito a perturbar os circuitos de defesa do sujeito frente à determinadas modalidades de gozo.
Modalidades de gozo onde o sujeito se coloque em contextos narcísicos, em circuitos onde o “ Não estou nem aí!” proliferam cada vez mais.
Lidar com a Psicanálise no mundo atual diz respeito a uma inscrição de uma ética das conseqüências onde há uma ética das causas.
A violência tradicionalmente tem sido trabalhada a partir da ética das causas. Ou seja, o sujeito é assim porque passou por determinados problemas, porque ele não teve condições financeiras melhores, etc.
A passagem para uma ética das conseqüências, através de um trabalho do psicanalista na cultura, talvez, possa tecer um outro olhar a respeito do próprio processo de constituição do sujeito.
Ele está sendo continuamente construído através de suas ações. E é preciso que ele se responsabilize por isso.
Uma responsabilização pelo desejo, uma responsabilização por tudo aquilo que fazemos, quando resolvemos atuar, pensar, desejar.
Uma responsabilização que é ética e que nos constrói. Uma responsabilização frente às nossas modalidades de gozo. Que nos leva a lidar com o nosso sintoma. Em uma tentativa do que fazer com ele.
Um processo que visa à criação de um significante novo. Algo que foi sempre enfatizado por Lacan no final da análise.
Mas que, talvez, seja a única resposta para um mundo onde a violência viceja. É preciso criar algo novo. Uma aposta na civilização e no sujeito.

*1-Artigo publicado na Carta de São Paulo – Boletim da Escola Brasileira de Psicanálise. Ano XIII, Novembro de 2005, p. 51 a 56.
*2-Psicanalista, socióloga, professora livre docente da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, coordenadora do Núcleo de Pesquisa de Psicanálise e Educação da Faculdade de Educação da USP e do Instituto da Psicanálise Lacaniana, diretora secretaria do Instituto da Psicanálise Lacaniana.