SOBREVIVENDO NO INFERNO: O QUE É SER ALUNO NA PERIFERIA HOJE
Escrito por Leny Magalhães Mrech
Dom, 10 de Dezembro de 2006 03:00
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SOBREVIVENDO NO INFERNO: O QUE É SER ALUNO NA PERIFERIA HOJE*1

 

Leny Magalhães Mrech*2

  Introdução

Este trabalho foi escolhido pelos componentes*3 do Núcleo de Pesquisa de Psicanálise e Educação do Instituto da Psicanálise Lacaniana e o Núcleo de Pesquisa de Psicanálise e Educação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo como representante de temáticas que tem se apresentado aos professores que lecionam na periferia das grandes cidades brasileiras. Elas refletem, sobretudo, um encontro com o real, um encontro com a violência inusitada, em suas múltiplas formas, vividas pelos alunos - crianças e adolescentes - em suas comunidades de origem. Mais precisamente situações onde o uso e tráfico de entorpecentes, a repressão policial e a morte precoce de adolescentes se apresentam de uma maneira cada vez mais constante.

Psicanálise, Linguagem e Educação: do saber ao não-saber*4

O NUPPE IPLA/USP, em linhas gerais, tem investigado o impacto dos processos de globalização, da sociedade disciplinar e da sociedade de controle na Cultura e na Educação, a partir dos ensinamentos de Sigmund Freud e Jacques Lacan. Neste sentido,  temos privilegiado de uma maneira bastante destacada às contribuições de Jacques-Allain Miller e Jorge Forbes. Este último inclusive tem feito à supervisão sistemática dos trabalhos do nosso grupo.

O objetivo maior do NUPPE é investigar os novos usos da Psicanálise na Educação a partir da alíngua e dos novos efeitos transferenciais. O que nos levou a rever algumas das articulações entre Psicanálise, Linguagem e Educação.
Um trabalho que acabou por questionar, sobretudo, o modelo tradicional de Educação que pressupõe um uso da linguagem – da fala – para se comunicar. Para privilegiar em seu lugar a extrema importância dada ao inconsciente, ao equívoco, ao mal entendido, à alíngua e o gozo.
O que possibilitou que, aos poucos, os seus membros saíssem de um modelo pautado na crença de uma comunicação direta com o aluno, para um outro que destaca a importância de um ponto de não-transmissão, um ponto de não-saber.
Este ponto de não-transmissão, de não – saber para nós encontrasse estreitamente relacionado com o registro do real. Um ponto que continuamente se apresenta na prática do professor. Um ponto que o convoca a ir mais além de suas posturas, do seu saber na direção do não-sabido, na direção de novos laços sociais.                     

Novos semblantes da Pedagogia 

Este encaminhamento do grupo surgiu porque nos demos conta de que pensar a Educação nos dias de hoje exige, cada vez mais, novos posicionamentos, novas perspectivas de atuação a partir dos efeitos dos processos de globalização e das mídias eletrônicas e televisivas.
As soluções que serviam há trinta anos já não valem mais. È necessário reinventar a clínica, a pedagogia e a justiça. É tanto melhor se pudermos aprender desses mesmos adolescentes, que sofrem diretamente em seu corpo a espetacular mudança de paradigma pela qual estamos passando – da era industrial para a era da informação -, as soluções inusitadas que eles estão encontrando para viver em uma época sem padrão, que chamamos em psicanálise de a época do Outro que não existe. (Forbes, 2003, p.24)

Jorge Forbes*5 revela que os educadores assim como os psicanalistas e os juristas pertencem à categoria dos profissionais do incompleto. Eles lidam - como já havia revelado Freud anteriormente - com o impossível de suas respectivas profissões.
Um processo que só se agravou a partir da década de 1970 em função do avanço do discurso do capitalista e surgimento das novas tecnologias midiáticas. Pois, sob uma aparência de comunicação o que temos vivido é exatamente o seu oposto: a dificuldade de interagirmos, de trocarmos com o outro. 
O que acabou introduzindo no exercício da profissão novos semblantes. De agente de transmissão, o professor passou a ocupar o lugar de pesquisador, orientador, parceiro, sendo visto mais como um intermediário e não mais propriamente como um transmissor dos saberes escolares.
Consolidando, de fato, a passagem do discurso do mestre antigo para o discurso da universidade e o discurso do capitalista que, no seminário O Avesso da Psicanálise, Lacan denominou de discurso do mestre moderno.

Novos sintomas na Cultura e na Educação

Por tudo isso, não de se espantar que estejamos, na Cultura e na Educação contemporâneas, frente a novos sintomas. O fracasso escolar é um destes exemplos. Os alunos se recusam a saber. Eles não querem mais aprender por não verem na Educação e na escola uma fonte que lhes possibilite uma melhoria na sua qualidade de vida.

Um outro sintoma que aparece do lado do professor é que ele não é mais visto como aquele que detém o saber. Principalmente no Brasil os professores apresentam uma fragilidade teórica e prática extremamente grande. O que faz com que continuamente eles sejam questionados pelos alunos, por seus pais e pela própria sociedade.

Pode-se dizer que, vivenciamos no país uma forma muito acentuada a queda do discurso do mestre antigo e a passagem para o discurso do mestre moderno.
O que acabou propiciando transformações drásticas em relação aos semblantes que tradicionalmente o educador vinha ocupando na sociedade. Hoje não se ensina e nem se aprende mais da mesma forma, principalmente, nas escolas de periferia.

Paralelamente as mídias eletrônicas e televisivas se tornaram as grandes fontes de transmissão de saber na cultura contemporânea. A maior parte das residências brasileiras tem televisão. Em mais de 98% dos lares brasileiros ela pode ser encontrada.

O mundo contemporâneo é o mundo da sociedade do espetáculo, como dizia Guy Debord. O mundo das imagens instantâneas. O mundo do rap, o mundo das revistas, dos jornais, dos cinemas.
O que tem acarretado que os professores estão sendo convocados a não ensinar mais do mesmo modo. Eles precisam rever continuamente as suas práticas para tecer novos tipos de laços sociais. 
Neste início de século XXI o mundo é outro. A globalização desregularizou a ordem social. O pai foi relativizado, os países se uniram em comunidades setoriais (Europa, Ásia, América do Norte, América do Sul), a economia não respeita fronteiras. O jovem criado nos ideais de escolha, realização e ganho da era industrial encontra os cacos da indústria. Onde havia chaminé da fábrica apontando o céu surge a telinha virtual, jogo de múltipla opção, Lego do Adulto. (Forbes, 2003, p. 25)

Os novos sintomas na cultura e nos contextos escolares que vem redefinindo o vínculo que os professores têm estabelecido com os alunos e os próprios saberes.  
Os alunos têm se desinteressado da transmissão trazida pelos saberes orientados. Cada vez mais eles se interessam pelos saberes fragmentados, pelos saberes que eles possam manipular, personalizar, que eles possam colocar um pouco de si.
Em decorrência o circuito transferencial clássico da relação professor-aluno também  mudou. De um modelo pautado apenas na palavra ele tem se direcionado para a construção das imagens e dos símbolos, como uma nova forma de leitura das próprias  mídias eletrônicas e televisivas.  

O Projeto de cinema na Comunidade: uma opção de laço social

O Projeto que irei apresentar tem sido realizado em um Centro Comunitário de uma cidade do sul de Minas Gerais. Ele pertence a uma instituição de freis franciscanos que cuidam de crianças e jovens de 7 a 14 anos, em um dos seus bairros mais pobres e violentos da cidade.  
Este projeto é coordenado por um professor do Curso de Serviço Social da Universidade local. Ele é um dos participantes do Núcleo e segue uma orientação psicanalítica em seu trabalho com a instituição e a comunidade.
O seu projeto visa à formação de alunos do curso de Serviço Social. Eles vão até a periferia da cidade para conhecer melhor o que se passa ali. O objetivo geral do projeto é propiciar às crianças e adolescentes a criação de novos laços que, de alguma forma, possibilitem se contrapor aos laços sociais propostos pela comunidade que costumam encaminhar estas crianças para o tráfico, o consumo de drogas e a prostituição infantil.
Este trabalho surgiu como uma demanda dos professores do Curso de Formação do Centro que não conseguiam ver mais nenhuma possibilidade de atuação com estes alunos. O professor e os alunos estagiários foram solicitados como uma última alternativa para lidar com eles. 
Nos primeiros contatos com a instituição se evidenciou que os alunos eram extremamente indisciplinados e violentos. Geralmente vinham armados para a escola e costumavam atacar fisicamente os colegas ao ponto de machucá-los de forma drástica.  Os roubos eram uma constante, assim como os diferentes níveis de atuações onde eles se xingavam e se agrediam sob as formas mais diversas.
A proposta inicial do projeto foi realizada em horário distinto do curso de formação. O professor e os estagiários tentaram se aproximar dos alunos. Acabando por enfrentar as mesmas dificuldades relatadas pelos professores da turma, a saber: conversas paralelas, brigas, danças, cantos, jogos e brincadeiras, etc.
O professor não queria cair em uma perspectiva onde se fizesse o manejo dos comportamentos, como no caso das TCCS. Era extremamente importante repensar o espaço escolar, a própria comunidade onde estas crianças viviam. O que lhe interessava era tecer novos laços sociais, onde estes alunos pudessem se situar, onde eles pudessem ser sujeitos e se colocar da maneira como eles quisessem. 
Várias alternativas foram tentadas. Até que o professor foi percebendo a extrema dificuldade dos alunos dizerem de si. Eles costumavam trazer imagens. Através delas era mais fácil para eles simbolizarem. Foi quando ele resolveu introduzir uma variável mais próxima das mídias eletrônicas e televisivas. Solicitou que uma colega que era professora de cinema viesse trabalhar com o grupo.
A partir daí houve uma transformação radical. Crianças que não falavam passaram a falar para as câmeras. Crianças que falavam muito começaram a estruturar melhor o seu pensamento. Em suma, falar para as câmeras revelou-se um recurso que possibilitou introduzir um recorte mais preciso no direcionamento do contato com os alunos.
Os dois professores resolveram, então, propor que os alunos fizessem um filme relatando as suas experiências de vida.

Sobrevivendo no Inferno: o que é ser aluno de periferia hoje

O que os alunos produziram se revelou extremamente precioso como um retrato da comunidade onde eles vivem. 
A cada montagem de cena eles relatavam que tinham vivido situações semelhantes.   Muitos disseram do seu contato com os traficantes, as armas, as drogas, a prostituição.
Contudo, desde já, gostaria de enfatizar que embora as cenas apresentadas sejam da  ordem do imaginário e do simbólico, elas delineiam também um registro do real vivido pelos alunos. E foi este aspecto que preocupou o professor e o nosso grupo.  Um aspecto que queremos destacar e que se encontra no entredito de cada imagem.

As cenas

Para a montagem do filme eles montaram um story board, uma série cenas relatando situações que continuamente eles tem vivenciado em sua comunidade. Irei narrar passo a passo os quadros que eles criaram para o filme. 

CENA 1 – É noite. Há a lua e as estrelas no céu.
CENA 2 – Há um spray de lança perfume que solta um jato no ar.
CENA 3 – Há um cigarro de maconha.
CENA 4 – Dois grupos se enfrentam na praça. Há uma pessoa cheirando crack e a outra com um revólver na mão. Do outro lado há uma pessoa com as mãos levantadas e um outro morto no chão.
CENA 5 – De novo há o spray de lança perfume.
CENA 6 – Uma das meninas aparece extremamente bonita e sedutora.
CENA 7 – Há uma folha de coca.
CENA 8 – Há um braço decepado.
CENA 9 – Há um isqueiro.
CENA 10 – Alguém oferece uma pedra de crack.
CENA 11 – Há uma pessoa atravessando a rua.
CENA 12 – Há um corpo estendido no chão.
CENA 13 – Há um som de tiros.
CENA 14 – Há um enfrentamento das gangs.
CENA 15 – Tiros no ar.
CENA 16 – Os corpos dos dois grupos estão no chão. Todos mortos.
CENA 17- Aparece o título do filme : SOBREVIVENDO NO INFERNO emoldurado pelos corpos jogados no chão.
O que chama a atenção é a montagem fragmentada da história. Não há um sujeito na cena. Vive-se. Constata-se certas ações. Os alunos vivem acefalamente um processo. O resultado é sempre a destruição, a fragmentação e a morte.

As discussões no NUPPE

Quais são os laços sociais que se tecem na periferia para estes jovens? Constatamos que eles se dão através do contato que estes jovens têm com o tráfico. O futuro que os espera é a droga, o tráfico e a morte.
Vários alunos disseram que haviam usado droga. Alguns ainda com 7 anos. Outros um pouco mais tarde. As meninas têm muitos relatos de amigas que ficaram grávidas cedo, de amigas que foram para a prostituição, sendo exploradas por bandidos e pelos policiais.
Para muitos a vida é isso. Eles vão ser o que os seus irmãos foram. Eles vão ocupar o lugar que os outros deixaram em atividades junto ao tráfego, as drogas e a prostituição.
Qual o papel da Psicanálise e do psicanalista dentro de contexto como estes? Ao nosso ver é lidar com a ética. É fazer com que o sujeito sai do fascínio da morte. Acreditamos que seja sobretudo apontar o circuito repetitivo onde os alunos se encontram, visando a introdução de novos olhares, de novas práticas. Para, como diz Jorge Forbes, ser possível inventar o futuro. Fazer uma aposta de que cada um dos participantes do projeto possa encontrar uma resposta que seja criativa, uma resposta que seja inovadora.

*1-Artigo publicado na Carta de São Paulo – Boletim da Escola Brasileira de Psicanálise. Ano XIII, Novembro de 2006, p. 51 a 59.
*2-Coordenadora do Núcleo de Pesquisa de Psicanálise e Educação do Instituto da Psicanálise Lacaniana e coordenadora do Núcleo de Pesquisa de Psicanálise e Educação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.
*3-Flander Calixto, Maria Inês Giannelli, Cláudia Aldighieri, Yára Valione, Dalila Maria Lemos, Monica Rhame, Marisa Nubile,  Silvana G. Mancini, Rita de Cássia David, Juliana Radaelli, Jorge da Graça e Generosa Monteiro Ferraz.
*4-Parte deste trabalho foi apresentado no XVI Encuentro Internacional del Campo Freudiano e Segundo Encontro Americano – Os resultados terapêuticos da psicanálise – novas formas de transferência em Agosto de 2005.
*5-Jorge Forbes – Da Palavra ao Gesto do Analista. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1999.

Referências Bibliográficas

FORBES, Jorge – Você quer o que você deseja? São Paulo, Editora Best Seller, 2003.
FORBES, Jorge – Da palavra ao gesto do analista. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1999.
MILLER, Jacques-Alain e outros  – La Psicosis Ordinaria. Buenos Aires, Editorial Paidós, 2003.
______, Jacques-Alain – Seminário O Lugar e o Laço. Mimeografado. Edição mimeografada da Escola Brasileira de Psicanálise.
MRECH, Leny Magalhães – Psicanálise e Educação: Novos Operadores de Leitura. São Paulo, Editora Pioneira, 1999, 3ª. edição em 2003.
MRECH, Leny Magalhães – O Mercado de Saber, o real da Educação e dos educadores e a escola como possibilidade. Tese de Livre Docência. São Paulo, Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 2001.