A ERÓTICA DA ESCOLA NOS DIAS ATUAIS: MAIS UM CASO DE DESBUSSOLAMENTO?
Escrito por Leny Magalhães Mrech
Qui, 06 de Setembro de 2007 03:00
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A ERÓTICA DA ESCOLA NOS DIAS ATUAIS: MAIS UM CASO DE DESBUSSOLAMENTO?

 

Leny Magalhães Mrech, Marisa Nubile, Yára Valione, Rita de Cássia David, Maria Inês Giannelli, Flander Calixto, Dalila Lemos, Alice Izique Bastos, Cláudia Aldiguieri, Elisabete Cardieri,Generosa Monteiro Ferraz, Jorge da Graça, Juliana Radaelli, Monica Rahme, Silvana G. Mancini, Iole Bonneti, Jorge Forbes.

 

A erótica da escola vem se modificando continuamente. Ela diz respeito à maneira como alunos e professores fazem laços com a sua sexualidade e a dos demais dentro dos contextos escolares e para-escolares.

Na escola tradicional a discussão a respeito da sexualidade ficava escamoteada. Vivia-se a época da sociedade disciplinar, como revelou Michel Foucault, em Vigiar e Punir, onde os corpos eram amestrados, disciplinados.

Na sociedade contemporânea a situação é outra. Como destaca Zygmunt Bauman(2006) vive-se a época da cultura da indisciplina, da cultura impossível de se  controlar. O que Jorge Forbes propõe como sendo a sociedade desbussolada.
Nosso tempo pede um novo “software”que opere além do Édipo. O fundamental hoje não é fazer a pessoa buscar uma nova palavra quanto ao seu mal-estar, mas, sim, buscar a conseqüência da sua palavra. (FORBES, 2005:9)

Por tudo isso, pode-se dizer que o processo de sexuação em ambas as sociedades se dá de forma diferente. Há uma ampla variedade dos sintomas. Na sociedade disciplinar a ênfase recaia nos ideais e nos referenciais sexuais; na sociedade desbussolada vive-se uma sexualidade sem parâmetros.
Como estas mudanças tem atingido a própria constituição familiar? O vínculo familiar vem se transformando. Os modos de satisfação pulsional vem se modificando drasticamente. Há a queda da norma fálica, com o surgimento de uma ampla variedade dos sintomas.

Lacan utilizou o termo família conjugal,  tomado de Émile Durkheim, para . designar uma família onde há um laço entre o pai e a mãe. Um laço que traria em seu bojo a reprodução e os cuidados com a criança. Um laço que, no entanto, deve ir além ao desencadear um desejo que não seja anônimo. Miller(2006), por sua vez, propõe que em cada família há um ponto de segredo, um ponto do isso não se fala. 
O que se constata atualmente é que estamos frente ao surgimento de novas configurações familiares: casamento de homossexuais, pais idosos com filhos produtos de inseminação artificial, pai ou mãe celibatário com filho adotado, etc. Isto sem falar na situação de inúmeras famílias cuidadas pelas mães, sem pais e vice-versa.

Uma das preocupações do NUPPE IPLA/USP diz respeito a investigar de que maneira estas mudanças têm  atingido a sexualidade de alunos e professores. Traremos o caso Pedro para discutirmos alguns destes aspectos.
             

O caso pedro e os seus professores: o impacto da variedade dos sintomas na escola

Primeiramente é importante destacar que este caso foi trazido para o NUPPE IPLA/USP em uma reunião de professores em um Projeto de Assessoria dentro de uma escola de Educação Infantil da Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura de São Paulo.

No projeto os professores vão tecendo, através das suas palavras, sob a forma de uma ampla conversação, discussões a respeito das suas principais dificuldades que vem encontrando na sua relação com os alunos. A cada reunião eles escolhem um caso ou dois para discutir.

Nesta reunião específica foi escolhido o caso Pedro. Ele  tem cinco anos. É um menino bastante ativo e inteligente. Se dá bem com as demais crianças, brinca o tempo todo, não apresenta dificuldades de aprendizagem. Seu único ponto de estranheza para os professores é que ele é filho de um casal de lésbicas. Ambas são prostitutas. Elas vieram para São Paulo para ganhar a vida e acabaram morando juntas para economizar dinheiro e, aos poucos, foram se envolvendo.

Uma das professoras escolheu este caso para discutir na reunião porque se sentiu muito tocada por ele. Ela disse sentir  nas colegas uma posição de extremo preconceito.

No momento em que M. explicita a sua posição, algumas professoras pedem a palavra e se colocam. Você diz que ele é uma criança normal. Mas como ele pode ser normal se é filho de um casal de lésbicas, pergunta uma delas. Outra coloca : será que ele também não vai ser homossexual.Eu acho que ele já está apresentando trejeitos.

M. critica a colega e diz que não é nada disso. Uma outra colega rebate: Será que não se deveria tirar esta criança do casal e dá-la a um outro casal normal? Será que esta criança não vai  influenciar as outras  crianças?

As professoras comentam como Pedro age, o que ele faz na escola, como ele come, ri, etc. Aos poucos vão encontrando outras maneiras de ver a criança. Constatam que ele não é tão diferente das demais.
Em seguida falam que só pelo fato de poder falar deste caso constatam o quanto é preciso trabalhar os seus próprios preconceitos. Consideram os momentos em que os casos são discutidos no contexto escolar, conseguem aprofundar os referenciais relativos à sua própria prática, à sua maneira de pensar.
Ressaltam que só nestes momentos é que eles conseguem perceber de que forma ela agem e como pensam quando estão com ele.

Uma das professoras pergunta se a família de Pedro é tão típica assim. Ela sente que a sociedade está se modificando muito. Muitas falam que tinham um modelo de família na cabeça que funcionava muito bem dentro do contexto mais tradicional. Mas que nesta sociedade não conseguem mais se localizar.  
Relatam os casos de outras crianças na mesma situação. Isto porque a escola fica em uma região onde há um número muito grande de prostitutas. Muitas são mães.. Muitas tem filhos de vários maridos e estão sozinhas. A figura paterna praticamente não aparece nos relatos.

As professoras passam a se perguntam a respeito da importância do pai. Elas relatam que muitos de seus alunos não tem pais. Muitos foram abandonados pelos pais. O que faz com que mais uma vez nós possamos constatar a queda do Nome do Pai.

Por último, as professoras dizem da importância do uso dos estudos de caso na Educação. Elas dizem que eles possibilitam uma reflexão maior. Porque só dessa maneira é que elas conseguem vê-los como sujeitos.

Elas relatam a diferença de um direcionamento para a Psicanálise, onde se lida com a sexualidade não apenas para saber o que é a homossexualidade, as diferentes classificações, os grupos minoritários. Mas, para que se possa lidar melhor com os alunos em sala de aula. Para que se possa vê-los como sujeitos.

Em suma, o que constatamos é que o singular de cada caso questiona o universal das categorias que os professores costumam trazer. Abrindo a possibilidade de uma outra escuta da criança.

Referências Bibliográficas

BAUMAN, Zygmunt – Vida Líquida.   Buenos Aires, Ediciones Paidós Iberica, 2006.

FOUCAULT, Michel – Vigiar e Punir – História da Violência nas prisões. Petrópolis, Vozes, 1989.

FORBES, Jorge ; REALE JÚNIOR, Miguel; FERRAZ JÚNIOR, TÉRCIO SAMPAIO – A invenção do Futuro. Barueri, SP/Manole, 2005.

MILLER, Jacques-Allain – Affaires de famille dans l’inconscient. Paris, Julliet/Août, 2006

MILLER, Jacques-Allain – A Erótica del Tiempo y otros textos. Buenos Aires, Tres Haches, 2001.