A TELEMÁTICA NO DESENVOLVIMENTO DE PROJETOS PEDAGÓGICOS: VIVÊNCIAS DA EDUCAÇÃO ESPECIAL NO CRPD
Escrito por Teófilo Alves Galvão Filho
Qui, 07 de Novembro de 2002 03:00
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ANAIS do III Congresso Ibero-Americano de Informática na Educação Especial, Fortaleza, MEC, 2002.

 

A TELEMÁTICA NO DESENVOLVIMENTO DE PROJETOS PEDAGÓGICOS: VIVÊNCIAS DA EDUCAÇÃO ESPECIAL NO CRPD

 

Teófilo Alves Galvão Filho
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I – Introdução

 

O Programa "Informática na Educação Especial" do Centro de Reabilitação e Prevenção de Deficiências (CRPD), unidade das Obras Sociais Irmã Dulce, Salvador-Bahia, inaugurado em 1993, tem como missão promover, utilizando os recursos de um ambiente computacional e telemático, o desenvolvimento das potencialidades cognitivas de alunos portadores de necessidades educacionais especiais. E, com isso, torná-los mais autônomos no equacionamento e solução dos próprios problemas, capacitando-os a uma melhor interação com as pessoas e a realidade que os cerca. Dele participam alunos com deficiência física, sensorial e/ou deficiência mental.

            Para atingir esses objetivos, optou-se, no trabalho, por um paradigma que valorize as capacidades, iniciativa e criatividade do aluno, entendido como o sujeito na construção de seus próprios conhecimentos. Em função disso, chegou-se à aprendizagem através de projetos, a chamada "pedagogia de projetos".

 

“...diferentes conteúdos podem ser desenvolvidos através de projetos, definidos juntos por alunos e professor, mas a partir das necessidades e interesses dos alunos, utilizando os mais variados recursos computacionais abertos, facilmente encontrados e manipulados hoje, quando se construiu e se está inserido em uma cultura de informática.” (GALVÃO FILHO, 2001)

 

Conteúdos de diferentes áreas são trabalhados de forma interdisciplinar, no desenvolvimento de um mesmo projeto. Nas palavras de Prado:

 

"De um modo geral, o desenvolvimento de um projeto computacional pode abranger vários domínios na sua constituição, propiciando uma interação entre as diversas áreas do conhecimento. Assim, a atividade de produzir um projeto computacional evidencia características de uma aprendizagem interdisciplinar." (PRADO, 1999)

 

Na construção de projetos, professor e alunos engajam-se numa relação cooperativa de interações e intercâmbios, participando o aluno com todas as suas vivências e conhecimentos anteriores sobre os temas tratados, e o professor ajudando a explicitar os conceitos que vão sendo intuitiva ou intencionalmente manipulados no desenvolvimento dos trabalhos e das novas descobertas. E pensando em termos de rede, de Internet, essa parceria extrapola a relação restrita entre aluno e professor, para ampliar-se sem fronteiras em direção a inúmeras outras interações, fontes, parcerias, convergindo para o que Pierre Lévy chama de aprendizagem cooperativa. Nessa perspectiva, ressalta Lévy que:

 

"Os professores aprendem ao mesmo tempo que os estudantes e atualizam continuamente tanto os seus saberes 'disciplinares' como suas competências pedagógicas."... "A partir daí, a principal função do professor não pode mais ser uma difusão dos conhecimentos, que agora é feita de forma mais eficaz por outros meios. Sua competência deve deslocar-se no sentido de incentivar a aprendizagem e o pensamento." (LÉVY, 1999)

 

II - A Telemática na construção de projetos no CRPD

           

No CRPD, a construção de projetos pedagógicos com a telemática, ou seja, por meio "da manipulação e utilização da informação através do uso combinado de computador e meios de telecomunicação" (Dicionário Aurélio), acontece em dois tipos de projetos:

-          os projetos cooperativos,

-          e os projetos individuais.

 

Cada um desses projetos também pode ser ou monotemático ou politemático.

Através de projetos cooperativos monotemáticos, têm sido trabalhados e aprofundados diferentes temas e conceitos, como, por exemplo: a epidemia da Dengue, a construção do Metrô de Salvador, a Copa do Mundo, o Meio Ambiente, etc.

Como exemplo de projetos politemáticos temos a publicação do “Jornal do CRPD On Line” (pauta com diversos temas sendo desenvolvidos por um grupo de alunos) e a construção das homepages pessoais.

No desenvolvimento desses projetos os alunos utilizam diferentes recursos computacionais e telemáticos, tais como: mecanismos de busca, pesquisas na WEB, troca de mensagens de e-mail, publicação dos resultados em websites, debates através de listas de discussão e outros.

O grau de complexidade dos projetos pode variar, desde o mais simples e elementar, até um nível mais complexo e sofisticado, sempre em função do potencial cognitivo e capacidade de abstração do aluno, mas, ao mesmo tempo, num patamar que o desafie a produzir saltos de qualidade em seus conhecimentos e capacidades atuais.

Também como projeto cooperativo, foi criada uma Lista de Discussão para os alunos e professores do Programa, onde são debatidos diferentes assuntos, relacionados ou não aos demais projetos desenvolvidos.

Outro projeto cooperativo recente foi o início da publicação on line do "Jornal do CRPD", que já existia na versão impressa há 4 anos, cuja pauta, diagramação e redação é de responsabilidade de um grupo (aberto e variável) de alunos, com o acompanhamento de duas professoras do Programa.

Todos esses projetos cooperativos têm sido desenvolvidos tanto em forma presencial, com também à distância, através dos recursos telemáticos. Como destacam Almeida e Fonseca Junior, é justamente com esses projetos cooperativos e telemáticos que a educação se apropria de um dos recursos mais humanizantes das Novas Tecnologias. Enfatizam que:

 

"A grandeza da informática não está na capacidade que ela tem de aumentar o poder centralizado nem na sua força para isolar as pessoas em torno da máquina"... "A grandeza da informática encontra-se no imenso campo que abre à cooperação. É uma porta para a amizade, para a criação de atividades cooperativas, para a cumplicidade de críticas solidárias aos governos e os poderes opressores ou injustos. Enfim, as redes informatizadas propiciam a solidariedade e a criação e desenvolvimento de projetos em parcerias." (ALMEIDA e FONSECA JÚNIOR, 2000)

 

 

 

III - Interação e aprendizagem através da construção

 de homepages pessoais

 

            Em consonância com essa filosofia e metodologia de trabalho, a aprendizagem através de projetos, chegou-se, no início do ano de 2001, à proposta da construção e lançamento na rede das páginas pessoais e trabalhos dos alunos (ver em http://infoesp.vila.bol.com.br).

            Se apresentará aqui, de forma mais detalhada, o desenvolvimento desse projeto, iniciado como uma modalidade de projeto individual, mas que gerou, e continua gerando, interações ricas e diversificadas, que aportam significativamente no crescimento e aprendizado dos alunos.

Inicialmente, o objetivo principal era proporcionar-lhes novos canais de comunicação e interação com diferentes pessoas. Mas, no decorrer do caminho, verificou-se que essas expectativas foram ultrapassadas. Diversas outras realidades e possibilidades se foram abrindo, ampliando expressivamente o leque de metas e resultados que foram sendo alcançados.

            Foi possível perceber três momentos bem diferenciados no desenvolvimento desse projeto:

            O primeiro momento foi todo o processo de construção das páginas. Nessa etapa, houve uma dificuldade inicial decorrente da falta de uma noção mais clara, por parte dos alunos, sobre o que significava a rede e quais as possibilidades e alcances reais da Internet. Embora todos os alunos envolvidos no projeto, uns mais, outros menos, já houvessem começado a ter alguma experiência na rede, vários ainda não percebiam, de forma mais clara, suas dimensões, possibilidades e recursos. Naquele momento, com apenas um computador do laboratório conectado (hoje temos 13 computadores com acesso à Internet), procurou-se intensificar, na medida do possível, suas oportunidades de interação na rede.

            E foram começando a surgir as idéias de cada um, para as suas páginas.

            No processo de construção propriamente dito, além do aprendizado gradativo na utilização do software específico para montagem de homepages, percebeu-se que os alunos começavam a trabalhar, intuitivamente, com conceitos de diferentes domínios. Desde as decisões iniciais sobre cores, fundos, layout, organização de textos e imagens, gifs animados, até o conteúdo dos assuntos tratados em cada página, segundo as preferências e opções de cada um. Foi possível verificar, na prática, a rica experiência de um aprendizado interdisciplinar, normalmente presente no processo de construção de conhecimentos através de projetos. Nesta fase também foi possível constatar a importância, para o aprendizado, das interações, tanto entre os alunos, quantos entre alunos e professores.

            Um segundo momento importante foi quando cada aluno colocou no ar a sua página. Poder acessá-la já na rede, e ter na mão o endereço que a personalizava e a situava como um espaço só seu, foi um momento crucial em termos de crescimento da auto-estima, de sentimento de vitória, de sucesso e realização pessoal, na medida em que ficavam satisfeitos com os resultados dos seus esforços.

            Um dos resultados mais evidentes e imediatos desse sentimento, nessa etapa, foi a motivação renovada e ampliada para o estudo e aprendizado por parte dos alunos, acelerando o seu processo de desenvolvimento.

            Nesse momento, procurou-se evidenciar para os alunos que a publicação das homepages era apenas mais uma etapa concluída, e não o ponto final do projeto. Desejou-se também deixar claro, para quem acessava às páginas, que o objetivo principal não era alcançar uma suposta "perfeição", nem ortográfica, nem estilística, nem estética, mas sim o prazer da comunicação e da interação. Os alunos têm sido estimulados a que, em decorrência de seus próprios processos de aprendizagem, façam, gradativamente, eles mesmos as correções e melhorias em suas páginas e trabalhos, o que tem gerado um processo continuado e permanentemente inacabado, como todo o processo de desenvolvimento humano.

            A terceira etapa é a que se refere às conseqüências e resultados da publicação e a continuidade do processo interativo: os alunos iniciaram, então, diversos novos relacionamentos, através das trocas de e-mail.

            A partir do lançamento e divulgação das páginas, várias mensagens começaram a chegar para os alunos, de diferentes cidades e estados. Era o “feedback” que cada um recebia, e que fazia com que “re-visitasse” a sua própria página com um novo olhar.

            Para alguns, foi a oportunidade de compreender, de forma mais concreta, os alcances e possibilidades reais da Internet e da publicação de sua página.

            Por exemplo, um aluno recebeu um e-mail de uma pessoa do sul do país, elogiando o seu trabalho, as suas iniciativas e idéias, divulgadas em sua homepage. Ele ficou muito contente com a mensagem, mas perguntou à sua professora:

 

            “Mas por quê essa pessoa escreveu para mim?...”

 

            Sintomaticamente, essa pergunta revelava uma percepção ainda parcial e incipiente do aluno, sobre o alcance e possibilidades de repercussão de sua publicação. A partir das mensagens recebidas e das perguntas que os alunos começavam a se fazer, era possível perceber seus progressos na construção de uma percepção mais ampliada e realista do sentido e possibilidades da telemática, da comunicação via Internet.

            E continuam a chegar diversas outras mensagens, todas com repercussões positivas para cada um. Aqui alguns exemplos de trechos dessas mensagens, enviadas de diversos lugares, para diferentes alunos:

 

            “A tua  vida serve de exemplo para muitas pessoas que se acham ‘normais’, mas desistiram de lutar, sufocados e desanimados pelas amarguras da vida...”

 

            “Gostei demais do teu texto e da tua página em geral... Peguei um desenho animado que está na tua página e dei o arquivo para minha filha...”

 

            “...fiquei maravilhada com sua vida e história de amor...”

 

            “Amei o site do CRPD e a sua página está linda. Vou fazer propaganda para os meus amigos internautas...”

 

            “Sou mãe de um menininho de 6 anos muito especial como você... Gostei muito de sua página... Se precisar de alguma ajuda, é só mandar um e-mail.”

 

            E assim, diversas outras mensagens. Não é difícil imaginar a ressonância das mesmas no interior de cada aluno que as recebia...

            A repercussão desse novo canal de comunicação e interação para os alunos, já vem trazendo reflexos positivos em todo o processo de aprendizado e desenvolvimento de cada um. A renovada motivação para o aprendizado, o aumento da auto-estima, o desejo de comunicar-se mais e melhor, enfim, são alguns dos frutos desse projeto em construção. Como exemplo disso, parece significativo esse pequeno texto, escrito por um aluno, aqui reproduzido literalmente, sem correções:

            “AMIZADE NA INTERNET. Eu fico muito feliz quando recebo e-mail de pessoas mim dando parabéns pela a minha página na internet. Quando recebo os e-mail eu leio e respondo e assim eu faço amizade na internet. essas pessoa gostam do trabalho e acham interessante, eu mim sinto importante.”

 

Todo este caminho aponta para a necessidade de dar prosseguimento e aprofundamento cada vez maior ao trabalho, que, por sua própria metodologia e filosofia, preenche uma lacuna entre as atividades essenciais para o desenvolvimento e autonomia da pessoa portadora de necessidades educacionais especiais, em nossa comunidade, num mundo que cada vez mais exige do cidadão uma participação ativa e criadora.

 

 

REFERÊNCIAS

 

ALMEIDA, Fernando José de e FONSECA JÚNIOR, Fernando. Aprendendo com projetos. Brasília, PROINFO/MEC, 2000.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo, Ed. 34, 1999.

GALVÃO FILHO, Teófilo A. Educação Especial e novas tecnologias: o aluno construindo sua autonomia. Revista INTEGRAÇÃO, Brasília, MEC, ano 13, n. 23, p. 24-28, 2001.

PRADO, Maria Elisabette B. B. O uso do computador na formação do professor. Brasília, PROINFO/MEC, 1999.