O DEFICIENTE VISUAL E O PROCESSO DE CONSCIENTIZAÇÃO DE SUA ESCOLHA PROFISSIONAL PARA SUA VIDA PESSOAL
Escrito por Cláudia Beatriz Anacleto / Irene C. Piconi Prestes
Sáb, 13 de Setembro de 2003 03:00
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O DEFICIENTE VISUAL E O PROCESSO DE CONSCIENTIZAÇÃO DE SUA ESCOLHA PROFISSIONAL PARA SUA VIDA PESSOAL

 

Cláudia Beatriz Anacleto (1 )

Irene Carmen Piconi Prestes (2)

 Rosa M. Endo (3)

 

RESUMO

 

 No mundo pós-moderno a concorrência é acirrada e até mesmo incentivada, exige-se cada vez mais competências para uma melhor colocação no mercado de trabalho. Trabalhar naquilo que se gosta pode fazer a diferença entre ter ou não sucesso profissional, pois a satisfação no exercício da função aumenta as chances de se realizar financeira e pessoalmente. Acreditando que a escolha profissional exerce influência sobre a vida pessoal, este estudo bibliográfico, com enfoque psicanalítico, tem por objetivo conscientizar o sujeito da importância desta escolha, feita de forma autônoma e responsável, enfatizando aspectos relacionados ao auto-conhecimento e às influências do contexto no qual  se está inserido. Geralmente, a escolha da profissão que será exercida futuramente é feita no período da adolescência, fase em que se apresenta uma série de conflitos que lhe são inerentes, diante deste quadro o sujeito ainda precisa apresentar uma identidade ocupacional. Além das dificuldades de transição do mundo infantil ao mundo adulto e as mercadológicas, há maiores obstáculos que o sujeito terá que enfrentar ao buscar uma colocação profissional, sobretudo àqueles que possuem deficiências físicas e mentais. Este trabalho discutirá em particular o sujeito portador de deficiência visual total ou visão subnormal no que diz respeito às suas escolhas e a sua inserção no mercado de trabalho. Espera-se que este estudo possa servir de reflexão sobre a condição dos sujeitos “diferentes”, desta forma aumentando a probabilidade de escolha da profissão, o desenvolvimento de suas potencialidades e a descoberta de suas capacidades e limitações, sem assistencialismo, mas como sujeito independente capaz de contribuir com o próprio crescimento pessoal e também com o progresso social.

 

Palavras-chave: Orientação vocacional; adolescência; mercado de trabalho e deficiência visual.

  

O DEFICIENTE VISUAL E O PROCESSO DE CONSCIENTIZAÇÃO DA ESCOLHA PROFISSIONAL PARA SUA VIDA PESSOAL

 

A relação estabelecida entre o homem e o trabalho é antiga, na Bíblia o trabalho é citado, em vários versículos, como inerente à condição humana.

“Comerás do fruto das tuas mãos, serás feliz e prosperarás” (SALMOS, 1982, p.746) e, “Não há outra felicidade para o homem além de comer, beber e gozar do bem-estar, fruto do seu trabalho” (ECLESIASTES, 1982, p.789).

            Desde a Idade Primitiva a existência do homem está relacionada ao trabalho, neste momento a fim de manter a sua sobrevivência, logo aquele que fosse portador de qualquer deficiência estaria condenado à própria sorte, praticamente sem chances de vida. Quando os homens deixaram de ser nômades e se estabeleceram em um determinado local, então passaram a ter disposição e força para retirar da terra seu sustento e aqueles que eram deficientes improdutivos não tinham seu lugar social. Na Idade Média, os portadores de necessidades especiais, em particular os DV (4), eram vistos como seres demoníacos. Não havia um reconhecimento destes sujeitos que eram rejeitados por “Deus” e pelos homens “normais”, retirados do contexto público para serem esquecidas suas “deficiências” (ROSS, 1998).

            Nas sociedades atuais, segundo FERRETTI (1997), mesmo as pessoas que realizam uma atividade aparentemente isolada dependem de outras e que o único trabalho isolado é o do náufrago solitário em uma ilha deserta. O trabalho engendra a vida social e esta o determina, pois para transformar a natureza foram constituídas entre os homens relações de produção que mudam no tempo e no espaço, assim como os meios e os modos de produção que adquirem historicamente outras conotações. A produção de bens refere-se ao próprio modo de vida vigente em uma determinada sociedade e em um determinado momento histórico, não se resume à produção e reprodução das condições materiais de existência, mas também às condições espirituais. Desta maneira, a ação que modifica a natureza não se limita à produção de bens materiais, mas a condições que permitam os relacionamentos dos homens entre si e com a própria natureza. 

Para a Psicanálise a busca por uma ocupação é uma forma de sublimação (5), mas independentemente de se sublimar os instintos sexuais em prol de um objetivo mais sublime, o ser humano não possui nenhuma outra atividade que preencha seu tempo da forma como o trabalho o faz e ainda lhe dê o sustento e ao mesmo tempo lhe possibilite desenvolver o relacionamento interpessoal e a realização pessoal. O sujeito ocupa seu lugar no social através da profissão que desempenha, pois a ela se agregam valores. Não trabalhar é abdicar do progresso pessoal e social.

 BOHOSLAVSKY (1998) afirma que a identidade ocupacional está diretamente relacionada à pessoal, portanto o conhecimento contextual, os vínculos estabelecidos e o auto-conhecimento são relevantes. Definir o que fazer futuramente é decidir o que irá ser, e também o que não será, pois quando se escolhe algo, deixa-se de escolher todas as demais opções. Uma escolha autônoma e responsável implica na conscientização dos fatores internos e externos que influenciam no processo decisório.

Segundo FERRETTI (1997), as condições de escolha implicam: 

            -Qualidade; estar informado e dominar alguma metodologia de escolha e;

            - Possibilidade; dispor de alternativas e autonomia.

             Aqueles que não sabem o que querem ficam na dependência e terminam por fazer o que os outros querem que façam, conseqüentemente isto influencia no grau de satisfação profissional e pessoal.

MAUD MANNONI (6) (1996) cita que alguns sujeitos renunciam a se expor à prova de iniciação, segundo o modelo da sociedade a qual estão inseridos, então se marginalizam e se tornam “zeros sociais”. Deste modo, ser “assistido pela vida inteira”, perpetuando uma dependência infantil pode ser a solução.

Atualmente, com o aumento dos índices de desemprego, fica cada vez mais difícil encontrar e manter o emprego, portanto também pode ocorrer um maior índice de insatisfação profissional, o que se reflete no pessoal.

O mundo capitalista está cada vez mais competitivo, exigindo cada vez maior conhecimento e qualificação profissional, maior flexibilidade do funcionário em trabalhar em equipe e em acumular várias funções distintas, enfim exige-se muito mais do perfil e da produtividade do trabalhador, pois este precisa se adaptar às regras econômicas.

ROSS (1998) menciona que a exigência de qualidade e produtividade se acentuou a ponto de tornar os sujeitos escravos da competição. Neste aspecto, o DV entra na luta do mercado de trabalho em desvantagem, assim como qualquer outro que possua maiores limitações.

FERRETTI (1997) cita que o objetivo principal do capitalista é produzir bens para gerar mais riquezas, mais dinheiro, pois o que confere interesse econômico aos objetos e produtos é seu valor de troca e não o de uso, apesar da exploração desta vertente na criação contínua de necessidades através da propaganda a fim de fazer com que haja crescimento e valorização do capital, preferencialmente de forma rápida.

PIMENTA (1981) afirma que esta é a realidade brasileira, onde o modo de produção capitalista condiciona as pessoas em relação às atividades produtivas, de acordo com a classe social a qual pertencem e que os fatores sócio-econômicos são os mais decisivos para a escolha profissional.

A situação ainda se agrava com os elevados encargos sociais que dificultam ainda mais a admissão, e aquele que possui qualquer deficiência física ou mental é classificado como incapaz e inválido. Conseguir um emprego neste contexto se torna uma tarefa quase impossível, mesmo com o Decreto nº 3.298, de 1999, regulamentando a Lei que obriga as empresas brasileiras, com mais de cem funcionários, a possuírem entre 2% a 5% de deficientes em seus quadros. Isto não tem melhorado a situação destes sujeitos, sendo que a desinformação por parte dos empresários é uma das “barreiras”, segundo entrevista concedida pelo Instituto Ethos, cujo objetivo não é a filantropia, mas sim a responsabilidade social.

Ser deficiente representa ser portador de obstáculos a mais a serem transpostos. Neste sentido, para não ser excluído, afirma ROSS (1998), o DV precisa esforçar-se mais para mostrar sua capacidade e potencialidade. A deficiência visual aparece neste contexto social como um impedimento geral do sujeito desenvolver suas outras capacidades, de gestão, de tomada de decisão e criatividade, mas este estado físico não afeta a produção intelectual. Não é de assistencialismo e protecionismo que o DV necessita, pois frente à competitividade no mercado de trabalho atual, o DV pode ficar em situação desfavorável se não forem desenvolvidos instrumentos mais efetivos que dêem acesso ao progresso tecnológico.

  Para ANNY CORDIÉ (1996), ser bem sucedido em uma sociedade capitalista significa ter acesso aos bens de consumo, ser alguém respeitado pelo que possui de bens materiais e o fracasso neste contexto é renunciar ao gozo (7), sob a ameaça de não ser ninguém na vida. A aspiração ao sucesso não é somente uma questão de pressão social, mas que o próprio sujeito se ressente em uma sociedade cujos valores predominantes se relacionam ao poder financeiro, portanto esta pressão da sociedade vai se cristalizar em um sintoma específico, de acordo com a singularidade de cada um. Se o sujeito provém de um meio sócio-cultural desfavorecido seu investimento cultural é limitado e ainda se torna mais agravante se o sujeito é portador de deficiências, sem atrativo físico ou pobre. Os efeitos disto sobre o sujeito se revelam sob a forma de desprezos, humilhações e rejeições sociais.

A solução é possibilitar a estes sujeitos a igualdade de condições, acompanhá-los na tarefa de escolher o que desejam fazer, dando a eles a oportunidade de refletir a respeito de si mesmos e de questões relativas ao exercício de uma função presente ou futura, sem negar as diferenças!

Para BOHOSLAVSKY (1998), qualquer atividade que promova o desenvolvimento humano pode ser considerada profilática, sem partir da doença, mas de uma ampla atitude delineada a partir da sanidade. Neste sentido a Orientação Vocacional vem possibilitar uma reflexão no que diz respeito a uma escolha profissional que, em consonância com seu mundo interno e externo, possibilite uma vida mais satisfatória e produtiva.  

A Orientação Vocacional iniciou em 1909 com a teoria Traço-e-fator, de Parsons e marcou o rumo da orientação educacional. Várias outras teorias psicológicas surgiram: psicodinâmicas( Bordin,Holland...), desenvolvimentistas (Pelletier, Ginzberg...) e decisionais  (Gellat, Hilton...), cujos objetivos, resumidamente, são os de explicar: a escolha profissional através de conceitos psicanalíticos e de características da personalidade, o desenvolvimento vocacional e o processo de tomada de decisão, respectivamente (FERRETTI, 1997).

PIMENTA (1981) menciona que a Teoria de Parsons dá a idéia de “homem certo no lugar certo”. Inicialmente, as aptidões eram consideradas inatas, bastando a aplicação de testes para desvendá-las, mais um determinismo vocacional do que uma escolha, pois havia a limitação da psicometria que passou a um segundo plano a partir da década de cinqüenta, com a Teoria Desenvolvimentista. No Brasil a Orientação Profissional teve início a partir da década de quarenta.

FERRETTI (1997), reforça a questão de se refletir para além da escolha, sobre o ingresso e o exercício de determinada profissão, considerando-se o contexto social. Ressalta a necessidade da Orientação Vocacional trabalhar com aqueles que não optam por uma carreira ou ocupação ou o fazem sob limitações, sujeitando-se a subempregos e má remuneração, ou seja, submetem-se à situação, sem escolha. Pode-se incluir aqui os jovens de classes menos abastadas e os deficientes, de modo geral. Algumas das propostas deste autor  são de que se possa ampliar o atendimento, sem exclusão, atingindo também aqueles cujas possibilidades de escolha são restritas.

 Desde as primeiras teorias de Orientação Vocacional não foi muito enfatizado o papel do orientador e dentro da proposta atual talvez haja necessidade do orientador fazer uma reformulação crítica a respeito da sua função.

PIMENTA (1981) convida o orientador vocacional a ampliar sua reflexão sobre a decisão e rever sua prática, para que esta não seja superficial e irrelevante sobre a realidade. O Psicologismo em relação à Orientação Vocacional não possibilita trabalhar os condicionantes externos e também alerta para a necessidade de se recuperar o conceito de homem como sujeito da decisão e a consideração pelo contexto em determinado período. O orientador não deve assumir um papel alheio aos interesses da Orientação Vocacional, devendo ser crítico e atento a vários aspectos (sociais, econômicos, políticos...) do meio em que trabalha, a fim de adaptar seus instrumentos e criar novos caminhos.

 BOHOSLAVSKY (1998) também ressalta de que o orientador vocacional precisa ter conhecimento do seu mundo interno e a influência desta sua concepção na realização de sua tarefa, pois precisa lidar com as angústias relacionadas ao processo decisório de seus orientandos, geralmente adolescentes. O orientador precisa perceber seus próprios conflitos pessoais, pois a escolha do orientando pode reatualizar seus lutos relacionados à própria escolha ocupacional.

OCTAVE MANNONI (1996) menciona que o adolescente interroga a psicopatologia do adulto ou o “absurdo” do mundo no qual vive e concorda com WINNICOTT (apud OCTAVE MANNONI, 1996) que insistia que o confronto entre as gerações deveria ser mantido para que a liberdade de idéias permanecesse, porque adultos têm muito a aprender com jovens.

Há maior probabilidade que se busque Orientação Vocacional na adolescência, sendo que nesta fase, os valores dos adultos são questionados, assim como há uma modificação da imagem do corpo, então a identificação (8) especular vacila. Precisa fazer o luto de sua imagem infantil que antes era sustentada pelo Outro (9), além de já ter perdido o lugar de objeto perfeito (narcisismo primário)(10), devendo assumir sua nova imagem.

 A imagem corporal é a narcísica (11), perdeu a ilusão de perfeição, reconhece que comporta uma falta, mas a imagem ainda continua a mesma estruturalmente. A crise se dá porque se deve fazer o luto por aquela imagem que conseguiu preservar, aquela que a mãe libidinizou, investiu..(12), deve assumir seu desejo perante o outro do sexo oposto. A perda da imagem do corpo está ligada à garantia de ter ocupado um lugar no desejo do Outro Primordial (13), mas não de ter sido tudo para o Outro, pois isto já se perdeu na passagem ao narcisismo secundário (14).  Antes o Outro dizia quem ele era, agora precisa dar conta de si mesmo. Precisa se apropriar da própria imagem sem precisar totalmente do olhar do outro para se saber quem é, não se alienar à imagem que o outro faz. Se houve falhas nos primeiros momentos irão se revelar na adolescência.

 Na adolescência há uma recapitulação dos processos de identificação, pois o adolescente busca suas bases na infância quanto ao ser.

MAUD MANNONI (1996) diz que o modelo escolar é a única forma de se passar ao mundo adulto, mas as crianças não sabem em que são iniciadas, portanto o adolescente não sabe qual lugar ocupar quando chega à idade adulta.

ANNY CORDIÉ (1996), menciona a adolescência como uma fase crítica, pois as mudanças ocorridas no sujeito podem afetar sua eficiência intelectual, pois a pressão relativa aos estudos, à entrada na Universidade, à profissão, às competições, competências, os exames escolares, enfim, às escolhas necessárias à entrada no mundo adulto, podem ser desencadeantes de um estado psicótico (15), pois diante de uma estrutura fragilizada há o risco de rompimento com a realidade.

WINNICOTT (1997) ressalta a importância do ambiente e da família, sendo que em muitas situações há necessidade de intervenção de um profissional devido às más condições ambientais e que por trás dos comportamentos anti-sociais estão a carência e a privação. Os adolescentes estão entre a rebeldia e a dependência e não aceitam falsas soluções. Alerta para o fato da adolescência, em nossa sociedade, ser tratada como se fosse um problema, mas é um processo sadio que levará à vida adulta.

Quanto melhor forem elaborados os lutos anteriores, maior capacidade de elaborar o luto pela perda da imagem infantil, e os lutos seguintes, como por exemplo, quando se escolhe uma profissão, é necessário realizar o luto pela perda das outras profissões preteridas.

Segundo RIVELIS DE PAZ (1983), quando ocorre uma dificuldade de realizar o luto na separação, o sujeito pode recriar regressivamente a situação simbiótica (16), mediante a adesão a substitutos, pessoas ou coisas, como por exemplo, o ligamento a um grupo extra-familiar. Também, na adolescência pode ocorrer uma afiliação ideológica ou religiosa que costuma ser patológica pela idealização nesta idade. A dependência a pessoas (grupos ou pares) e a uma ideologia ocorrem por temor da solidão e do abandono do objeto. Pode ocorrer também, dependência a objetos devido a maior dificuldades nas relações iniciais, simbiose inadequada e deficitária. O conflito básico da adolescência é a elaboração da ruptura do vínculo de dependência simbiótica, crise de dessimbiotização.

O adolescente busca confirmar no olhar do outro a imagem especular e pode mostrar aquilo que não é.

Segundo ANNY CORDIÉ (1996), provavelmente as barreiras a serem transpostas pelos DV sejam maiores, não somente devido à falta de visão, mas também à maior dependência em relação aos outros, optando por fazer o luto ou ficar no gozo desta dependência, ficando como que paralisado entre o seu desejo de ir, o medo do desconhecido e a permanência no meio protetor, desta forma impedindo que o sujeito se profissionalize e se responsabilize por si mesmo como adulto. Nesta crise entre dependência e independência há a tentação de regredir ao seio materno, de fugir às demandas da vida adulta, por isso o adolescente pode entrar em depressão, fazer uso de substâncias, tentar suicídio ou revelar uma estrutura psicótica latente.

A dificuldade de sair da proteção e assumir uma vida autônoma e responsável não é somente dos filhos, mas também dos pais, pois estes podem oscilar entre colocar ou não limites, serem muito severos ou permissivos; esqueceram de suas próprias crises de adolescência e possíveis conflitos com seus pais.

A adolescência é um período de luto, de amadurecimento, de separação do desejo do Outro parental. Nesta fase ocorrem mudanças e renúncias identificatórias, podendo haver inibição intelectual devido a posições edipianas conflitivas que podem deter as aspirações ao sucesso quando o sujeito sente o sucesso vivido como uma rivalidade em relação ao pai, trazendo à tona as angústias da castração com a companhia da fantasia de destruí-lo e tomar lugar junto à mãe.

Geralmente, diante deste quadro, com os conflitos inerentes a esta fase do desenvolvimento, que o sujeito precisa escolher o que irá exercer profissionalmente, fazer sua identificação ocupacional.

Segundo BOHOSLAVSKY (1998), o processo de Orientação Vocacional não leva a uma identidade profissional, isto ocorre muitos anos depois.

A conquista da identidade ocupacional passa por três etapas: escolha fantasista, tentativa de escolha e escolha realista.

O momento em que o jovem comparece à entrevista é o da exploração, pois está penetrando em um lugar desconhecido e, dependendo dos conflitos, ansiedades e mecanismos de defesa, resulta em quatro tipos de situações:

-Predilemática; o adolescente não percebe que deve escolher  e estabelece uma relação filio-paterna com o psicólogo,  neste momento apresenta defesas do tipo identificação projetiva e ambigüidade.

-Dilemática; percebe que deve fazer algo, sente-se invadido por uma urgência, por ansiedade. Os conflitos são ambíguos e ambivalentes e as defesas são a negação, a dissociação e a identificação projetiva maciça.

-Problemática; há uma preocupação em relação à escolha e as ansiedades manifestam-se persecutórias ou depressivas, os conflitos são bivalentes (há menos confusão, mais discriminação, mas ainda não há integração). As defesas são: a projeção, a negação e, às vezes, o isolamento.

-De resolução; há uma busca de solução para o problema, outros problemas de escolha já foram solucionados. Já elaborou a separação do objeto que deixou de lado. Os conflitos que emergem são ambivalentes e combivalentes e as defesas podem se apresentar sob a forma de regressões esporádicas ou sob a forma de onipotência. A aparência é de cansaço, mas ao mesmo tempo de contentamento.

BOHOSLAVSKY (1998) procura fundamentar a modalidade clínica de intervenção vocacional baseando-se nos seguintes argumentos:

-O contexto social muda, então surgem novas profissões, especializações, campos de trabalho, etc, portanto ter conhecimento da situação atual e antecipar o futuro é importante. Sucesso é superar os obstáculos com maturidade!

-As potencialidades se modificam no transcurso da vida e não podem ser definidas a priori.

-O papel do orientando deve ser ativo, buscar esclarecimentos e informações, elaborando os conflitos que causam ansiedade.

-O prazer no estudo e na profissão depende do vínculo e este depende da personalidade que por sua vez determina a ação.

-Possibilita ao orientando o auto-conhecimento, a autonomia e responsabilidade de escolha, enfim a construção de uma identidade ocupacional e  a integração de  alguns aspectos das identificações que servem como função defensiva, uma das funções básicas do EU, tornando-as benéficas ao processo de escolha profissional, permitindo a elaboração de conflitos e ansiedades relativos ao futuro.

A elaboração dos conflitos e dos lutos, sem controle ou negação através das defesas, é necessária para se chegar a uma fase resolutiva, a um momento de decisão. O sujeito precisa entrar em contato com seu mundo interior, ter conhecimento do contexto que se insere, investir em auto-estima e auto-motivação, esforçar-se para conquistar seu espaço no mercado de trabalho, mostrar daquilo que é capaz, isto sem negar as diferenças, mas contribuindo para que questões relativas a estas sejam coisa do passado.

Segundo a visão de OLIVEIRA (17) (apud LIGIA PY, 1999) isto se reflete em uma ética e algumas das discriminações que se fazem, como as distinções entre uns dos outros, se tornarão desnecessárias, pois isto é irrelevante, sem sentido. São enriquecedoras as composições entre os indivíduos e que as discriminações desse tipo não terão por que durar, pois não terão lugar.

MAUD MANONNI (1991) menciona o acréscimo de Freud à fala bíblica; “Não matarás”, de onde se dá a certeza de que se descende de uma linhagem de assassinos e que talvez o homem de hoje tenha ainda o desejo de matar. Deste pensamento, ela acrescenta que “essa observação, associada ao esclarecimento etnográfico, deveria nos deixar mais atentos ao que se passa entre nós relativamente aos deficientes e aos idosos, isto é, aos improdutivos rejeitados pela sociedade de consumo (e para os quais, em breve, a verba só irá diminuir)”

(MAUD MANONNI; 1991, p.30).

            Ao invocar a CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL (1998) ”Todos são iguais perante a lei,...” e seu preâmbulo “(...) para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida (...) com a solução pacífica das controvérsias”; o objetivo é ressaltar  o advento da Democracia com suas leis em defesa dos direitos de todos os cidadãos, sem exclusão! Para que o “diferente” faça a diferença é preciso que ele tenha acesso ao avanço que ocorre em nossa sociedade, que o DV possa mostrar sua capacidade intelectual e produtiva e suas habilidades desenvolvidas através dos outros sentidos. Necessita de instrumentos mais efetivos que possibilitem o acesso ao progresso  e ao mundo real.

“A sociedade já reconhece que algum tipo de educação é necessário a estes sujeitos, mas parece que este direito – o de aprender e se fazer cidadão – lhes está reservado somente em doses homeopáticas. É de se esperar que o direito pleno à educação esteja consagrado e materializado numa sociedade que se pretende democrática” (ROSS, 1998, p. 55).

O envolvimento de todos no processo de inclusão e integração é importante, mas TOMASINI (apud I.M. FREIRE, 1998) questiona se próprias Instituições, que objetivam normalizar e integrar, não estariam de alguma forma segregando e estigmatizando os sujeitos deficientes.

Cada sujeito pode aumentar sua consciência crítica, se conscientizar de que é livre para tomar decisões, admitir sua capacidade de produzir, buscar a independência, a cidadania e o respeito que merece, reconhecer suas limitações, que todos possuem em maior ou menor grau, evitando preconceitos em relação a si mesmo e aos outros. Desta forma, a sociedade também se beneficia, pois depende de cada um exercendo seu papel, de forma responsável, em direção ao progresso social.

Diante dos vários fatores externos que servem de barreiras à inserção do DV no mercado de trabalho, talvez a maior delas seja entrar em contato com seu mundo interno. De acordo com a experiência de AMIRALIAN (1992), há certos problemas comuns entre os DV, embora não se comprovem características de personalidade específicas dos cegos. Entre os cegos congênitos a dificuldade nodal está relacionada à explicação do dois mundos; dos cegos e dos videntes e entre os sujeitos com cegueira adquirida está o sentimento traumático diante da perda da visão. Estes elementos podem atrasar o desenvolvimento e  se constituírem como desagregadores.

 Prevalentes aos dois grupos foram identificados os seguintes fatores psíquicos: tendência à solidão e ao isolamento, à desvalorização de sua produção, conflitos entre dependência e independência, aceitação ou negação da cegueira, dificuldades no relacionamento interpessoal, na identificação e na integração egóica, sentimentos de desqualificação e insuficiência, maior utilização de mecanismos de defesa, contenção de impulsos sexuais e agressivos e inveja dos “sadios e perfeitos”, dificultando ainda mais assumir seu papel no mundo.

Os próprios pais podem se tornar um empecilho ao desenvolvimento de seus filhos DV, caso não sejam orientados e informados a respeito da estimulação, do tratamento, da rotina diferenciada, dos maiores custos... e principalmente, possam falar sobre seus próprios preconceitos, tendência à superproteção, suas expectativas, culpa e vergonha.

CAMPBELL (apud I.M. FREIRE, 1998) diz que o mais importante na informação está na forma de sua obtenção e que é um verdadeiro caso de amor o entrar em contato com o pensamento e sentir que não bastam somente as informações.

Um trabalho multidisciplinar desenvolvido desde a maternidade seria valioso para esta finalidade.  SZEJER (1999) aponta para a economia e importância da intervenção  precoce, pois o bebê é um ser desejante, movido por um desejo de vida e que seu sintoma é uma forma de comunicar seu desejo contrariado. Coloca em questão o fato de crianças abandonadas sofrerem vazios de palavras e daí elaborarem seus sintomas.

Possivelmente, também as crianças portadoras de alguma deficiência física ou mental façam parte deste vazio por serem “abandonadas” ao nascerem, em relação às expectativas dos pais, pois não correspondem à criança ideal destes.

O comportamento dos videntes em relação à pessoa cega pode se revelar um problema, mas AMARAL (1994) diz que o próprio DV deve se empenhar na integração, e não ficar esperando que os videntes deixem de segregá-lo, pois o maior interesse é dele que vive esta experiência no dia a dia e não quer ser estigmatizado. 

O DV precisa de um espaço onde ele possa falar de seus feitos e mazelas, se comprometendo e se responsabilizando por aquilo que diz e pelo lugar que ocupa, não ficando paralisado, mas sim mobilizado a superar suas dificuldades, onde quer que elas se encontrem.

Que o DV não fique condenado eternamente ao “purgatório” devido às limitações inerentes à sua condição, mas que alcance o céu!

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

FERRETTI, Celso João. Uma nova proposta de orientação profissional. São Paulo: Cortez, 1997.

BOHOSLAVSKY, Rodolfo. Orientação vocacional: a estratégia clínica. 11. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

RASSIAL, Jean-Jacques. O adolescente e o psicanalista. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1999.

RIVELIS DE PAZ, Lea. Adolescência: crise de dessimbiotização. In: ABERASTURY, Arminda et al. Adolescência. 2. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.

GIL, Marta (org.). Deficiência Visual. Brasília: MEC.Secretaria de Educação a Distância,  2000.

KUPFER, Maria Cristina Machado. Psicanálise e educação. São Paulo: Escuta, 2000.

CORDIÉ, Anny. Os atrasados não existem: psicanálise de crianças com fracasso escolar Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.

ROSS, Paulo Roberto. Educação e trabalho: a conquista da diversidade ante as políticas neoliberais. In: BIANCHETTI, Lucédio; FREIRE, Ida Mara (orgs.). Um olhar sobre a diferença: interação, trabalho e cidadania. 3. ed. São Paulo: Papirus, 1998. p.53-110.

FREIRE. Ida Mara. Um olhar sobre a criança: interações e experiências dos adultos com a criança não-visual. In: BIANCHETTI, Lucédio; FREIRE, Ida Mara (orgs.). Um olhar sobre a diferença: interação, trabalho. 3. ed. São Paulo: Papirus, 1998. p. 135-180.

MANNONI, Maud. O nomeável e o inominável. Rio de Janeiro:Jorge Zahar, 1995.

DOLTO, Françoise; NASIO, Juan David. A criança do espelho. Porto Alegre:  Artes Médicas,  1991.

PIMENTA, Selma Garrido. Orientação vocacional e decisão: estudo crítico da situação no Brasil.  2. ed. São Paulo: Loyola, 1981.

SZEJER, Myrian. Palavras para nascer: a escuta psicanalítica na maternidade. Tradução: Claudia Berliner. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1999.

WINNICOTT, D.W. A família e o desenvolvimento individual. 1. ed. São Paulo:

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ECLESIASTES. Português. In: Bíblia Sagrada. Tradução: Luís Stadelmann et al. 36. ed. Rio de Janeiro: Vozes e Santuário, 1982.

AMIRALIAN, M.L.T.M. Compreendendo o cego através do procedimento de desenhos-estórias: uma abordagem psicanalítica da influência da cegueira na organização da personalidade. Boletim de psicologia. São Paulo, 1992. p.190. Tese (Doutorado) IPUSP.

MANNONI, Octave et al. Mais tarde... é agora! Ensaios sobre a adolescência.   Salvador: Agalma, 1996.

DUFOUR, Dany-Robert. A anulação do Outro. Palavração, Curitiba, ano IX, n. 4, p. 39-50, nov. 2000.

LAPLANCHE, Jean. Vocabulário de psicanálise: Laplanche e Pontalis. Tradução: Pedro Tamen. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. Vocabulaire de la psychanalyse.

SILVA, Giulia. O prazer e o mal. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2001.


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(1) Aluna graduanda do curso de Psicologia da Universidade Tuiuti do Paraná.

(2)  Docente na UTP e na PUC-PR 

(3) Docente na UTP

(4) Neste trabalho convencionou-se utilizar a sigla DV para designar Deficiente(s) Visual/visuais.

(5) Segundo LAPLANCHE e PONTALIS (1998, p. 495) é o “processo postulado por Freud para explicar atividades humanas, sem qualquer relação aparente com a sexualidade, mas que encontrariam seu elemento propulsor na força da pulsão sexual”, ou seja, a troca da meta sexual por outra em que se considera a avaliação social.

(6) MANNONI. M. Prefácio in: MANNONI, O. et. al. Mais tarde... é agora! Ensaior sobre a adolescência.

(7) SILVA (2001, p. 14), afirma que “na Psicanálise freudiana, o gozo é a bonança depois da excitação desconfortável, em que consiste todo o estado afetivo elementar”.

(8) Segundo LAPLANCHE e PONTALIS (1998, p. 226), é o “processo psicológico pelo qual um sujeito assimila um aspecto, uma propriedade, um atributo do outro e transforma, total ou parcialmente, segundo o modelo deste outro”.

(9) De acordo com DUFOUR (2000, p. 39), o Outro é o pivô do acesso à simbolização.

(10) Segundo LAPLANCHE e PONTALIS (1998, p. 290), “narcisismo primário designa um estado precoce em que a criança investe toda a sua libido em si mesma”.

(11) Segundo LAPLANCHE e PONTALIS (1998, p. 287), é o amor pela imagem de si mesmo, tendo por referência o mito de Narciso.

(12) Segundo LAPLANCHE e PONTALIS (1998, p. 257 e 267), a noção de investimento  é assimilada por Freud como uma carga positiva atribuída a um objeto ou representação, podendo ser o investimento desta libido na própria pessoa e/ou em um objeto externo.

(13) LACAN, no Sem. IV, menciona um tempo na constituição do sujeito onde a mãe ocupa o lugar do Outro.

(14) Segundo LAPLANCHE e PONTALIS (1998, p. 290), este termo “ designa um retorno ao ego da libido retirada dos seus investimentos objetais”.

(15) RASSIAL, menciona em “ Passagem adolescente – da família ao laço social”, p. 40, uma série de patologias transitórias, devido às  dificuldades da fase de adolescência, mas que não assinalam nada de uma estrutura psicótica.

(16) RIVELIS DE PAZ  (1983, p. 166), menciona que foi Wallon quem introduziu a palavra simbiose em psicologia. Este conceito se aplicou a um estágio primitivo de desenvolvimento ontogenético, onde houve dependência básica e  indiferenciação quase absoluta da criança em relação a sua mãe, devido a não discriminação e à falta de autonomia.

(17) Luiz Alberto Oliveira, autor do texto “A idade dos tempos” apresentado no Fórum de Ciência e Cultura/UFRJ, em 1993.